EPISODE · Apr 12, 2026 · 10 MIN
II Domingo da Páscoa - Homilia
from Uma palavra no seu caminho · host Luís M. Figueiredo Rodrigues
O Evangelho que acabámos de escutar narra-nos dois domingos: o domingo da Ressurreição e, oito dias depois, precisamente este domingo em que hoje nos reunimos. Diz-nos o texto que, na tarde daquele dia, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, por medo, veio Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Esta localização dos discípulos é muito significativa. Estão fechados, presos no medo, afastados do exterior. E esta prisão, que eles tinham e que também nós tantas vezes temos, pode ser muito forte. Pensamos nas grades e nas correntes e dizemos que aí estão os presos. É verdade. Mas também nós, muitas vezes, estamos presos, e talvez ainda mais presos, porque não se veem as grades. Estamos presos no medo, na indiferença, na rotina, em tantas coisas que não nos permitem fazer esta experiência: encontrar o Senhor.Jesus vem, coloca-Se no meio deles e oferece-lhes a paz. É o Senhor ressuscitado que Se manifesta. Mas, ao manifestar-Se, não apaga o que aconteceu. Mantém os sinais dos cravos e a ferida do lado. Os sinais da paixão continuam lá, mas agora transfigurados. O passado não é negado: é transformado.Depois surge Tomé, tantas vezes mal compreendido. Quando alguém quer ver para crer, logo dizemos: «és como São Tomé», como se ele fosse um discípulo menor. Mas o Evangelho diz algo muito sugestivo: Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, isto é, gémeo. Gémeo de quem? O Evangelho não diz que tivesse um irmão. Tomé é gémeo de cada um de nós. Também ele estava preso. Não apenas no medo, como os outros, mas ainda noutras prisões: só acreditava naquilo que podia ver, tocar, experimentar. E quantas vezes também nós ficamos presos às nossas certezas e aos nossos preconceitos.Contudo, quando Jesus lhe dirige a palavra, tudo muda. Tomé faz então a mais bela confissão de fé do Evangelho: «Meu Senhor e meu Deus». O que aconteceu? A diferença está nisto: fora da comunidade, Tomé não tinha os recursos necessários para encontrar Cristo ressuscitado. Só quando volta a estar reunido com os outros é que faz essa experiência. Por isso, a ressurreição de Cristo não cria cristãos isolados; cria uma comunidade.A primeira leitura mostra bem quais são as características dessa comunidade: eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações. Eis os traços da comunidade formada por Cristo ressuscitado: escutar a Palavra, viver a fraternidade, participar na Eucaristia e perseverar na oração. Só neste horizonte podemos reconhecer Cristo vivo.E quando isso acontece, quando Cristo ressuscitado nos toca precisamente na dúvida, na dor, na morte e no medo, então torna-se evidente a misericórdia. Se eu estou preso às minhas certezas, procuro rigor, exclusão, uma Igreja severa. Mas se me deixo tocar pelo amor de Deus, percebo, a partir das minhas próprias fragilidades, que vivo da misericórdia. E então começo também a compreender o perdão, o amor incondicional, a superabundância da graça.Por isso, ao celebrarmos o Domingo da Misericórdia, olhemos para os lugares onde estivemos presos, para as nossas feridas, infidelidades e misérias. Tudo isso deixou marcas em nós. Mas a graça de Deus é mais forte. Cristo ressuscitado entra precisamente nesses lugares fechados e dá-nos vida. Recordemos, com gratidão, o que o Senhor fez em nós; digamo-lo com alegria; e acolhamos também todos aqueles que se deixam tocar pela misericórdia do Senhor.
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