EPISODE · Dec 7, 2025 · 6 MIN
II Domingo de Advento - Homilia
from Uma palavra no seu caminho · host Luís M. Figueiredo Rodrigues
João Batista é uma personagem de fronteira: é o último profeta do Antigo Testamento e, ao mesmo tempo, já uma figura do Novo. No Evangelho de hoje aparece como grande destaque, batizando e convidando à conversão, isto é, a confessar os pecados e a realizar obras de arrependimento. Converter-se significa deixar para trás formas antigas e desumanas de viver e começar a viver de modo mais digno, mais de acordo com a promessa de salvação de Deus. Por isso, João denuncia com firmeza os fariseus e os saduceus, que cumpriam ritos exteriores, mas não se deixavam tocar no coração, nem se preocupavam com uma verdadeira mudança de vida.Se olharmos para eles e para aquilo que fazemos neste tempo de Advento, temos também de nos interrogar. Todas as práticas com que preparamos a vinda do Senhor estão, de facto, a provocar mudança na nossa vida? Estão a abrir em nós um lugar onde Deus possa acontecer? Ou corremos o risco de viver mais um Advento que passa por nós sem nos transformar, sem nos modificar, sem nos tornar mais disponíveis para o Evangelho?Para que o Advento seja, de verdade, tempo de preparação, São Paulo, escrevendo aos Romanos, oferece-nos uma indicação decisiva: tudo o que foi escrito no passado foi escrito para nossa instrução. A Palavra de Deus não é apenas informação religiosa a acumular; é instrução no sentido mais profundo, é uma força que nos molda por dentro, que nos forma segundo o desejo de Deus. Por isso o apóstolo acrescenta que, pela paciência e consolação que vêm das Escrituras, tenhamos esperança. A escuta da Palavra gera paciência e consolação, e é assim que se acende em nós a verdadeira esperança.Paciência significa aceitar que nem tudo está bem, reconhecer que em nós há coisas que precisam de mudar, sem cair no desespero nem numa agitação frenética. Deus dá, a seu tempo, a graça necessária para a transformação de que precisamos. Consolação significa experimentar já, ainda que de forma imperfeita, algo daquilo que esperamos. Quando aguardamos algo bom, de algum modo começamos a saborear por antecipação o que está para chegar. Assim também no Advento: esperamos a vinda do Senhor com paciência, mas também com consolação, sentindo e desejando em nós essa presença que se aproxima.O profeta Isaías ajuda-nos a reconhecer quem é este Senhor que vem. Fala de um rebento que brota de uma raiz humilde, sobre o qual repousa o Espírito do Senhor: espírito de sabedoria e de inteligência, de conselho e de fortaleza, de ciência e de temor de Deus. Não julgará pelas aparências, nem decidirá pelo que ouviu dizer, mas julgará os pequenos com justiça e defenderá os humildes do povo. Com o “chicote da sua palavra” atingirá o violento e com o “sopro dos seus lábios” exterminará o ímpio.Estas imagens não falam de um Deus que vem para agredir ou destruir, mas de um Senhor que traz uma paz exigente. O “chicote da palavra” não é um instrumento que fere; é uma Palavra que revela o que está mal e pede correção. E o “sopro dos lábios” não é um vento que arrasa tudo, mas a força subtil do Espírito que varre de nós o que é impuro, aquilo que impede que o Natal aconteça com a intensidade que Deus deseja.Deus vem ao nosso encontro na história concreta da nossa vida. Ele acontece quando nos deixamos purificar pela sua Palavra e pelo seu Espírito. Se, neste Advento, aceitarmos esse trabalho interior de conversão, deixando que a Palavra nos corrija e o Espírito sopre sobre aquilo que em nós é velho, duro ou egoísta, então este não será apenas mais um tempo que passa: será um tempo em que Deus passa por nós e nos renova na fé, na esperança e na caridade.
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