EPISODE · Dec 14, 2025 · 12 MIN
III Domingo do Advento - Homilia
from Uma palavra no seu caminho · host Luís M. Figueiredo Rodrigues
Na caminhada do Advento, à medida que nos aproximamos do Natal, a Igreja convida-nos a viver a espera com alegria. O terceiro domingo é, por isso, chamado Domingo da Alegria: a cor litúrgica poderia ser roxa, mas surge o rosa, como um roxo aligeirado, para indicar que já começamos a saborear a vinda do Senhor. Seria fácil fazer depender esta alegria de circunstâncias exteriores — por exemplo, de um fim de semana de sol depois de dias de chuva —, mas esse seria o mesmo equívoco que atravessa o Evangelho de hoje. João Baptista, preso e afastado, ouve falar das obras de Jesus e manda perguntar: «És Tu Aquele que há de vir ou devemos esperar outro?». Na sua expectativa, o Messias viria como juiz severo, a castigar o pecado e a fazer justiça pela via do castigo; e, no entanto, os sinais que lhe chegam revelam um Messias misericordioso. Daí a perplexidade: não é Jesus que falha, é a imagem do Messias que precisa de ser purificada.A primeira leitura, tirada de Isaías, aprofunda esta conversão através de uma aparente contradição: «Alegre-se o deserto e o descampado… floresça a terra árida… exultem e soltem brados de alegria». Como pode alegrar-se o deserto, lugar de hostilidade e de prova? Precisamente porque a alegria cristã não nasce do conforto, nem de a vida “correr bem”; nasce da confiança no Senhor, colocado no centro. Há alegrias passageiras e alegrias duradouras, conforme aquilo que, de facto, amamos. Santo Agostinho exprime-o de forma incisiva: a alegria é possuir o bem amado. Se o bem amado for apenas o êxito, a saúde ou a tranquilidade, a alegria torna-se frágil; se o bem amado for Deus, a alegria pode atravessar o luto, a perda e a adversidade. E aqui importa distinguir: euforia é exaltação momentânea; alegria é a certeza de comunhão com o Senhor, que reconfigura por dentro a maneira de viver.É por isso que Jesus não responde a João com uma definição abstracta, mas com sinais: «os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a boa nova é anunciada aos pobres». João conhecia estes sinais e reconhece, com humildade, que precisa de deixar cair a imagem que construíra na sua cabeça para acolher o Messias que Deus revela; e muitos dos seus discípulos tornar-se-ão discípulos de Jesus. O Advento coloca-nos, então, um desafio muito concreto: passamos por este tempo como quem apenas percorre um calendário, ou deixamos que ele nos converta por dentro — nos desejos, nas expectativas, naquilo que esperamos da vinda do Senhor?Esta história não terminou há dois mil anos. O anúncio do Messias continua quando, em nome de Cristo, abrimos os olhos a quem não vê, devolvemos esperança a quem está abatido e restituímos dignidade a quem foi diminuído. Também por isso vale a pena pensar nos “presentes” que oferecemos e recebemos. Um presente não é apenas um objecto: é uma oferta que nos torna presentes junto do outro; mesmo um postal, um telefonema ou uma mensagem podem transportar atenção, afecto e esperança. O Natal é isto: a vinda do Messias até nós e, ao mesmo tempo, o encargo de, como cristãos, sermos “outro Cristo”, levando o Senhor aos ambientes onde vivemos. Mas isso não é instantâneo; pede tempo e pede paciência. Santiago recorda-nos a paciência do agricultor: semeia, cuida, confia e espera. Esperar não é ficar parado nem triste; é esperar activamente, com confiança, deixando que a graça do Senhor faça florescer, mesmo em terreno árido, sinais de vida. Por isso, mesmo quando a vida parece deserto e descampado, podemos alegrar-nos: já vimos sinais de que o Senhor vem, e vem para salvar.
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