EPISODE · Jan 25, 2026 · 9 MIN
III Domingo do Tempo Comum - Homilia
from Uma palavra no seu caminho · host Luís M. Figueiredo Rodrigues
Se mais não fosse pelo gesto que fizemos antes da proclamação do Evangelho, acordamo-nos de que hoje celebramos o Domingo da Palavra. Neste domingo, a Igreja lembra-nos, de modo muito concreto, que vivemos guiados e orientados pela Palavra de Deus. Por isso, a Palavra merece de nós carinho e respeito, mas também uma curiosidade boa: ela é a narração da experiência de Deus feita por homens e mulheres ao longo da história e, inspirados pelo Espírito Santo, ensina-nos um caminho certo para fazermos, aqui e agora, uma experiência viva de Deus.Importa, porém, retirar uma ideia que às vezes nos acompanha e que pode até causar choque quando começamos a ler a Bíblia. A Escritura não conta apenas histórias “limpas” e edificantes; nela encontramos também quedas, conflitos e verdadeiras misérias humanas. E alguém pode perguntar: “Mas isto é Palavra de Deus?” Sim, porque Deus não Se revela num mundo artificial, mas na realidade concreta, com as suas sombras e contradições. A Bíblia não romantiza a existência: mostra que, mesmo quando a vida se torna dura, Deus continua presente e continua a falar, com uma palavra de esperança e de recomeço.Essa esperança é anunciada na primeira leitura. O povo vive oprimido e humilhado, como quem caminha nas trevas. E é então que o profeta ousa dizer: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz.” Esta palavra não nega a dor nem nos pede que a ignoremos. Pelo contrário, convida-nos a dar nome ao que nos faz sofrer, ao que nos oprime, ao que parece roubar vida por dentro. Este é um passo espiritual fundamental: não fugir da realidade, mas colocá-la diante de Deus, com verdade. No meio da dor, pede-se luz; e Deus não responde com evasões, responde com presença.E aqui o Evangelho faz coincidir promessa e cumprimento. A luz anunciada na Galileia concretiza-se quando Jesus vai para a Galileia: Ele próprio é a luz que Se levanta sobre os que habitam na sombra da morte. E repare-se: a luz não é um holofote virado para nós, para exibirmos virtudes ou para chamarmos atenção. A luz é para iluminar o mundo e nos ajudar a vê-lo como ele é. Por isso precisamos de deixar que o Senhor converta o nosso olhar, para vermos como Ele vê e para aprendermos a ler a vida sem ilusões, mas com esperança.Daqui nasce a necessidade de um contacto assíduo com a Palavra. Uma das tentações mais comuns é pensar que já sabemos: “Eu já li, eu já conheço, eu já sei.” Mas a Palavra de Deus não é, sobretudo, para “saber”; é para dialogar, para meditar, para nos deixar surpreender. Às vezes digo, com alguma ironia, que há alguém que sabe mais do que nós — o diabo — e, mesmo assim, isso não o conduz à vida. A liturgia dá-nos este alimento todos os dias, para que a Escritura não seja um recurso ocasional, nem apenas quando estamos bem-dispostos, nem apenas quando estamos tristes. A Palavra é um diálogo contínuo: Deus fala-nos e nós respondemos, até que a nossa vida comece, pouco a pouco, a ganhar o ritmo e o horizonte do Evangelho.O cristianismo, de resto, não é apenas “uma religião do livro”. O cristianismo é a religião de uma Pessoa: Jesus Cristo, a Palavra feita carne. Conhecer Deus não é apenas repetir informações sobre Ele; é amar e deixar-se amar. Isto implica tempo, como acontece com as relações verdadeiras. Penso que ninguém conhece melhor uma pessoa do que a sua própria mãe e, no entanto, as mães não se cansam de estar com os filhos, porque não se trata de acumular dados, mas de saborear a presença. Assim também com a Palavra: o objetivo principal não é saber mais, mas saborear a presença de Deus e deixar que essa presença nos molde, converta o coração, ilumine a inteligência e purifique o desejo. E assim, mesmo na vida real, com as suas lutas e limites, vamos aprendendo a reconhecer na nossa história a história misericordiosa de Deus, que nos ama, nos liberta e nos abre um caminho de luz. Por isso, andemos com Jesus, andemos com a Palavra: nela está a alegria que não passa e a esperança que não desilude.
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