microconto 38
from a donzela guerreira e outros microcontos Hosted by Katlyn Nunes
microconto 38 “vida boa para aquele rapaz de barba dourada era morar na praia. poder se virar pro azul claro das águas sem nada interromper o olhar, sonhar que, por um fluxo de imaginação, ele chega ao continente africano. dormir ouvindo o silêncio do mar batendo as ondas na costa arenosa. mirar o reflexo da lua que flutua sem definição na superfície azul escuro da noite. se deparar, de repente, com os presentes que netuno manda sob a forma de conchinhas e seixos e cracas apegadas às pedras que escala. comer o milho cozido com lasca de manteiga derretida do vendedor ambulante que passa com a matraca. vida boa para aquela moça de cabelos platinados era viver na serra. com as divisas cantadas circundadas por montes e montanhas imponentes. criar vaca, bode, ovelha e galinha d’angola e aprender a fazer pão caseiro e queijo branco. escutar o silêncio profundo de uma folha roçando na outra e os gemidos agudos do triscar do bambuzal. sonhar com seres de uma perna só e com asas que se divertem na solitude e brincam de travessuras. arriscar o medo imaginário em queda livre pelas águas transparentes que caem em verticalidade. soltar neblinas, vapores e nevoeiros que se comprimem no peito pelas narinas e boca. enquanto, lá embaixo, o rapaz observa a amplitude e profundidade marinha, que se espalha pelo plano líquido, a moça, lá em cima, perscruta a imensidão e infinitude etérea celeste, que transborda na claraboia arredondada. nesse instante, a luz e o brilho que irradiam dos olhos dos dois se abraçam afestivamente na linha do horizonte”.
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