a donzela guerreira e outros microcontos
by Katlyn Nunes
Por Renata Sieiro Fernandes: [...] "este é o segundo volume de a 'donzela guerreira e outros microcontos'. conviver com eles é tanto diversão quanto cura. é um modo de simbolizar as belezas e cruezas da vida, do cotidiano, a partir de minhas experiências autobiográficas ou de alguém reelaboradas por mim. [...]"Ilustrado por Marina Mayumi / Interpretado por Katlyn Nunes
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Introdução
Oi! Que bom que você veio. Sinta-se a vontade! Aqui você vai conhecer escritas envoltas de sentimento, carregadas de emoções, descritas com carinho e grafadas em minúcias. Assim, estamos ligados por um fio ilusório, que nos conecta em pensamentos e afetos. Relaxe. Sejam bem vindos a obra: a…
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microconto 33
microconto 33 “uma a uma, três crianças fazem seus pedidos a um bruxo vestido de branco, de barba longa, colar de conta e muitos anéis. e com gravetos retorcidos e retilíneos, pontas de cristais e cordões de camurça, de cobre e de cetim constrói e entrega a cada uma delas, suas próprias varinhas…
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microconto 34
microconto 34 “são algumas mulheres que enviam e fazem chegar fotos de ladeira com bandeirinhas de são joão, e de pôr de sol do alto de sacadas. áudios com som de rodamoinho de vento e de passos que caminham na água do mar; vídeos com ondas se quebrando em espuma e canto de leões marinhos sob o…
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microconto 35
microconto 35 “para se chegar lá, descem-se as escadas e entra-se numa sala em penumbra com barulho suave de água correndo e música tocada em flauta de bambu. desapertam-se os sapatos e desabotoam-se as calças e a camisa que caem e ficam no chão. nua, entrega-se ao calor do colchão e aos toques...
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microconto 36
microconto 36 “na direção de um pico onde outrora tinha cabras, seguem-se caminhos íngremes de estradas de terra esburacadas, passa-se por muitas porteiras de antigas fazendas que receberam escravos roubados de outros cantos, para este lugar que já foi chamado de a bastilha negra. e chega-se lá…
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microconto 37
microconto 37 “ele era muito bom com as plantas, fazia bonsai de suculentas de um jeito bem perséfone. era muito bom no trato das madeiras, construía balcões e móveis de um jeito bem gepeto. era muito bom observador do céu, desenhava constelações com os pontos iluminados de um jeito bem carl…
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microconto 38
microconto 38 “vida boa para aquele rapaz de barba dourada era morar na praia. poder se virar pro azul claro das águas sem nada interromper o olhar, sonhar que, por um fluxo de imaginação, ele chega ao continente africano. dormir ouvindo o silêncio do mar batendo as ondas na costa arenosa. mirar…
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microconto 39
microconto 39 “na estação de frio e de seca dizem os manuais, que é época da florada dos ipês. primeiramente, flore o amarelo, depois, flore o rosa arroxeado, por último, flore o branco perolado. mas a realidade, que se destaca nas copas das árvores é que os três têm urgência de cores, flores e...
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microconto 40
microconto 40 “conversa flagrada entre duas amigas: ela: você só me salva. eu: você também tem sido minha boia em muitas ondas e redemoinhos. ela: uma agarra na outra e a gente segue. eu: o canto de sereias, unido, é mandinga. ela: e dribla os rugidos do mar”.
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microconto 41
microconto 41 “diariamente, bem cedo, galinhas ciscam nos quintais, cabras e cavalos pastam braquiárias e uma fila de vacas e bois cruza a rua de terra de um piquete a outro. no espaço de cem quilômetros, muitas pessoas atravessam faixas de pedestres, lojas abrem as portas do comércio e…
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microconto 42
microconto 42 “no círculo das mulheres sábias quatro delas se encontram para falar de sombras e alumbramentos enquanto miram a escuridão do céu sem teme-la, pois lá há bilhões de estrelas reluzentes como há todas elas igualmente no peito de cada uma e se ainda assim não as vemos elas cirandam a...
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microconto 43
microconto 43 “no show da rosa rabequeira que toca coco e ciranda ele chora a letra de amor e saudade. a lua mingua no céu sem estrelas. a cobertura de manga e gengibre e frutas vermelhas do sorvete dividido no pote agridoça a língua, o resto do vinho se dilui na garrafa de água, o banco…
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microconto 44
microconto 44 “à luz do dia a movimentação se inicia com o pio das corruíras e bem te vis, com o andar vagaroso dos jabutis, com os banhos de sol dos calangos, com o espreguiçar do corpo que se levanta da cama. no escuro da noite, quando eles se recolhem e adormecem, no telhado da casa se iniciam...
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microconto 45
microconto 45 “ele, o das calças de tecido vegano e que faz saudação ao sol, surge por aquele portal retangular sobre a mesa do escritório para me tirar da crise que sacode, que perturba, que enlouquece. no modo cuidado e atenção, segura meu ombro, respira compassadamente comigo, posiciona minhas...
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microconto 46
microconto 46 “os gigantes de ferro com seus três pares de braços, imponentes e inertes, alinhados sobre a superfície terrestre, unidos por fios de alta tensão lembram os vilões das séries japonesas de ficção científica ou os moinhos de vento do romance de dom quixote. são anúncios da destruição…
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microconto 47
microconto 47 “no início de setembro a paisagem sonora se altera e mais de cem cantos diferentes de cigarras se alternam, se misturam, se sobrepõem. a urgência e a necessidade de encontros nupciais aumentam os decibéis agudos pra alcançar nas lonjuras as fêmeas interessadas. dia e noite, é canto…
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microconto 48
microconto 48 “depois de habitar a terceira pele, a da morada, atravessando o olhar para um restrito horizonte que se avista resvalado por mudas de não me toque, entre certa insinuação e recuo, a posterior exposição total ao olhar de fora provoca certa vulnerabilidade e medo numa sensação de…
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microconto 49
microconto 49 “desacelero no atravessamento de vias, caminho de exu, das encruzilhadas. uma ave de rapina, de asas curtas, garras e bico recurvo passa como flecha pelo vidro sujo do carro e pousa, atenta e sorrateira, no fio de luz próximo à copa esverdeada e densa da samaúma, que abriga um ninho...
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microconto 50
microconto 50 “porque existem pitangueiras, jabuticabeiras, amoreiras, abacateiros e jaqueiras nas calçadas e canteiros das cidades, homens descem de suas bicicletas, mulheres param com seus cachorros em passeios, crianças trepam nos galhos e o tempo pausa em sua duração. homens, mulheres e...
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microconto 51
microconto 51 “no meio da madrugada, sou salva de meus pesadelos pela presença marcante e pelo perfume inebriante e doce da dama da noite vestida de branco, que adentra o quarto pela fresta da janela e me embala e entrega a morfeu alado, numa cama feita de ébano, numa escura caverna decorada com...
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microconto 52
microconto 52 “se apenas os corpos falassem haveria entrega e gozo. sussurro. mas surge, intrusa, a palavra, o terceiro elemento, que atrapalha, que cinde. grito. o que era faísca para alimentar o fogo vira raio, choque, expulsão, ferida. no chão do quarto, o vestido branco bordado. lá fora, o...
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microconto 53
microconto 53 “de volta da metade do mundo ela chega e me diz, que aquela montanha com uma grande abertura mexe com ela, que reverbera o corpo, que parece adormecido. engano. com os olhos, toca-o, ativamente. pela pele, toca-a, sinestesicamente, devem ser os eflúvios, o calor, a erupção, a terra…
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microconto 54
microconto 54 “por mais que eu teime e repita eles insistem em fugir, escapar, voar. ainda que ofereça abrigo, cuidado, comida, atenção, companhia, a fresta apresenta o mundo e, talvez, o desejo do risco de muitas vidas seja mesmo mais forte que o freio de uma história só”.
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microconto 55
microconto 55 “acima da minha cabeça um casal de sabiás ocupa o ninho na viga do telhado. dois ovos chocados de vida eclodem tempos depois. proteção, alimento e calor cotidianos encorajam o voo arriscado e sem jeito de dois pares de asas que partem. eu, testemunha junto ao peito vazio, permaneço”.
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microconto 56
microconto 56 “do lado de lá do vidro uma barriga transparente com dois ovos brancos dentro serpenteia para cima e para baixo, rapidamente. uma boca de fêmea, à espreita, abre e fecha capturando pernilongos, aleluias, aranhas e formigas, que alimentam o que cresce em silêncio. em alguns dias, em...
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microconto 57
microconto 57 “com as costas mergulhadas n’água e o peito apontado pro céu, meu corpo respira e sente o azul turquesa da piscina se mesclar ao azul celeste da abóbada. nas manchas de nuvens brancas imagino dragões, rostos enormes, crânios voejando no alto e que se desfazem em segundos. enquanto o...
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microconto 58
microconto 58 “o sonho era que pudessem viajar para cuba, dormir de conchinha a noite toda, cozinhar aos finais de semana conversando sobre marx, frantz fanon e rosa luxemburgo, ouvindo racionais mc’s, charlie parker e teresa cristina na trilha sonora trocada em pen drive. mas sonhos não são...
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microconto 59
microconto 59 “deitada na cama no silencio do quarto ouço ao longe o estrondo de nuvens que se chocam anunciando a tempestade, que chega logo em seguida e dura o tempo de uma noite. quando ela finda, abro os olhos e descerro as cortinas. me dou conta de que tudo está transformado, decomposto,...
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microconto 60
microconto 60 “a moça que trabalha na loja de animais tem uma ligação afetiva profunda com a calopsita albina. no dia de reis ela pressente que a ave será vendida. com o coração dolorido que anuncia a separação, vê chegar na bancada a senhora que fará a compra. observa o psitacídeo no ombro da...
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microconto 61
microconto 61 “minha amiga me convidou a escolher sete coisinhas à toa que me deixam feliz. nessa seleção eu coloco: a lua, quando está cheia e dá pra ver o coelho escondido nela. a roda, quando todo mundo fecha os olhos e imita o surdo acompanhando o samba. o cheiro que a chuva deixa na terra e...
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microconto 62
microconto 62 “uma vez conheci um rapaz, que misturava as fotografias guardadas como figurinhas amarradas com elástico e as distribuía como valetes, damas, reis e naipes. nas sete sortidas que me couberam pude ver e ler como ele se recontava em instantâneos embaralháveis”.
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microconto 63
microconto 63 “sentadas em círculo em volta da mesa, seis senhoras de cabelos grisalhos e óculos, vestindo casacos de linho conversam animadas e concentradas, riem e tomam café, despreocupadas com o entorno. sem vela e sem bolo, cantam feliz aniversário ao tempo, a mais velha delas”.
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microconto 64
microconto 64 “aquelas mãos pequenas, que vazam da roupa branca larga, tocam de leve o couro fazendo-o animar, vibrar e liberar sons graves, médios e agudos, que entoam música ancestral. enquanto isso, o tritão das contas marrons canta e eu me encanto mesmo longe do mar. tento acompanhar com os...
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microconto 65
microconto 65 “ele chega com vigor de guerreiro, que forja a lança e ataca, apita, pula e toca o repinique comandando os agogôs, surdos, chocalhos, tamborins e caixas, tocados por moças e moços que se deixam guiar pelos caminhos e encruzilhadas. extraem dos instrumentos as mais belas notas, que…
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