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EPISODE · Nov 13, 2019 · 53 MIN

O “Romanceiro da Inconfidência” de Cecília Meireles

from Estado da Arte

https://compasso.co/wp-content/uploads/2019/11/PODCAST-O-ESTADO-DA-ARTE-EP-03_CECILIA-MEIRELES.mp3 O projeto 3 x 22, iniciativa da Universidade de São Paulo que conta com a parceria do Instituto CPFL e do Sesc-SP, busca promover o debate histórico, artístico, cultural e polí­tico em torno do Bicentenário da Independência do Brasil e do Centenário da Semana de Arte Moderna a serem comemorados em 2022. Como parceiro do Instituto CPFL, o Estado da Arte promoverá uma série de artigos, podcasts, textos clássicos e entrevistas dedicados a reflexões sobre temas nacionais. Segundo Aristóteles, a poesia difere da história por falar não das coisas como aconteceram, mas como poderiam acontecer, e é “mais filosófica” por exprimir realidades universais e não particulares. 2.400 anos depois, uma poetisa meditava sobre a distância entre o registro histórico e a invenção poética: O primeiro fixa determinadas verdades que servem à explicação dos fatos; a segunda anima essas verdades de uma força emocional que não apenas comunica fatos, mas obriga o leitor a participar intensamente deles, arrastando-o no seu mecanismo de símbolos, com as mais inesperadas repercussões. Palavras ditas em Ouro Preto, onde anos antes tivera uma epifania durante a Semana Santa: Todo o presente emudeceu, como plateia humilde, e os antigos atores tomaram suas posições no palco. … Os homens de outrora misturaram-se às figuras eternas dos andores; … na procissão dos vivos caminhava uma procissão de fantasmas. Eram os soldados, padres, poetas da rebelião esmagada pela Coroa portuguesa em 1789 e resgatada cem anos depois pela propaganda republicana, que consagrou em Tiradentes o herói cívico-religioso da mitologia nacional. O Romanceiro da Inconfidência é formado por 85 romances entremeados por falas, cenários e uma serenata, com todo tipo de variação métrica e rítmica. Há poemas em que a rima aflora, em intervalos regulares, outros em que ela aparece, desaparece e reaparece, apenas quando sua presença é necessária. Com a mesma liberdade, os planos épico, dramático e lírico se justapõem, se entrelaçam e se diluem numa atmosfera de idílios arcádicos onde fermentam ideias libertárias e jorra a ambição torrencial do ouro, que Do seu calmo esconderijo,… vem, dócil e ingênuo;torna-se pó, folha, barra,prestígio, poder, engenho…É tão claro! – e turva tudo:honra, amor e pensamento diz Cecília, e conclui: Por ódio, cobiça, inveja,vai sendo o inferno traçado. Tudo se passa entre duas interrogações fatais: Que é feito de ti, remotoVerbo Encarnado? e Que é feito de vós, ó sombrasque o tempo leva de rastos? Suspensa entre uma e outra, a fábula da Vila Rica se degrada em Ouro Preto, revelando uma epopeia de heróis quiméricos, suicidas, traidores; uma apoteose de degredados, encarcerados e esquartejados; uma saga abortada, que desagua no desterro interior das mulheres do Romanceiro, as Isabéis, as Eliodoras, a donzela assassinada, o fantasma de Marília, Maria a Rainha Louca – vozes que se misturam ao cortejo barroco de tropeiros, concubinas, escravos, religiosas, bêbados, mascates para chorar … esse mistério,esse esquema sobre-humano,a força, o jogo, o acidenteda indizível conjunçãoque ordena vidas e mundosem polos inexoráveisde ruína e exaltação. No derradeiro verso, sob os sonhos de liberdade do Ciclo do Ouro reduzidos a pó, arde como brasa a interrogação de Cecília: Quais os que tombam,em crimes exaustos,quais os que sobem,purificados? Convidados: Ana Maria Domingues de Oliveira: professora de letras da Universidade Estadual Paulista e autora de Estudo crítico da bibliografia sobre Cecília Meireles; Leila Gouvêa: doutora em literatura pela Universidade de São Paulo e autora de Pensamento e “Lirismo Puro” na Poesia de Cecília Meireles e Cecília em Portugal; Norma Goldstein: professora de língua portuguesa da Universidade de São Paulo e autora do Roteiro de Leitura do ‘Romanceiro da Inconfidência’. Referências: Ensaios sobre Cecília Meireles organizado por Leila Gouvêa. Roteiro de leitura: Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles de Norma Goldstein. Pensamento e “lirismo puro” na poesia de Cecília Meireles de Leila Gouvêa. Pelas trilhas do Romanceiro da Inconfidência de Lucia Manna. Estudo crítico da bibliografia sobre Cecília Meireles de Ana Maria Domingues de Oliveira. Oriente e Ocidente na Poesia de Cecília Meireles org. A.M.L. de Mello e F. Uteza. “Dos cavalos da Inconfidência: a voz antiépica de Cecília Meireles”, conferência de Antonio Carlos Secchin. “Romanceiro da Inconfidência”, verbete da Enciclopédia Itaú Cultural. “Cecília Meireles: um percurso de espiritualidade”, em Atlântida, v. XLVI, p. 187-194, de Maragarida Maia Gouveia. Estudo do poema: o linguístico e o poético na poesia de Cecília Meirelesde Maria G. Chaves. Apresentação: Marcelo Consentino Produção: Compasso Coolab Ilustração: Via-Sacra do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos atribuída a Aleijadinho (Antônioo Francisco Lisboa). Congonhas do Campo, Minas Gerais. O post O “Romanceiro da Inconfidência” de Cecília Meireles apareceu primeiro em Estado da Arte.

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