EPISODE · Jul 3, 2026 · 6 MIN
Só mais cinco minutos
from Grupo Arauto · host Grupo Arauto
Nossa geração viveu uma época muito especial.E talvez a gente só tenha percebido isso depois que ela passou.Na escola tinha o dia do flúor, tinha campanha contra os piolhos, tinha a merenda… E a merenda era um acontecimento. Leite com Nescau, sopa fumegando, macarrão, cachorro-quente. Tinha manhã em que a felicidade começava muito antes da aula.Na Semana da Pátria, cantávamos o Hino Nacional. Em fila. Os pequenos na frente, os maiores atrás. Não era apenas uma organização. Era um jeito de ensinar que cada um tinha seu lugar e que caminhar junto fazia parte da vida.A gente ia para a escola a pé. Uma rua inteira de crianças seguindo na mesma direção. Mochilas maiores que as costas, tênis marcados pelo tempo, joelhos rasgados de tanto brincar. Ninguém reclamava da caminhada. Porque o caminho também era diversão.Quando alguém fazia aniversário, a volta para casa era inesquecível. Ovo, farinha, terra… O aniversariante chegava parecendo um bife à milanesa. E o mais curioso é que ninguém saía bravo. Todo mundo ria. Porque amizade também era isso: bagunça, gargalhada e lembrança.O fim do ano tinha um ritual que nenhuma rede social conseguiu substituir. A camiseta do uniforme virava um livro de memórias. Cada assinatura era uma promessa de amizade eterna. Algumas ficaram pelo caminho. Outras continuam vivas até hoje.E havia uma frase que definia a nossa infância inteira:“Espera aí, mãe… Só mais cinco minutos.”Não era para ficar no celular. Não era para terminar uma fase de um jogo.Era mais cinco minutos na rua.Mais cinco minutos de esconde-esconde.Mais cinco minutos de pega-pega.Mais cinco minutos soltando pipa, jogando taco, brincando de bafo, andando de bicicleta sem destino e voltando para casa quando as luzes dos postes acendiam.A nossa rua era a nossa rede social.A campainha era bater palma no portão.O grupo era a turma da esquina.E o status era ouvir alguém gritar lá de dentro:“Fulano… entra pra casa!”Hoje as crianças conhecem o mundo inteiro pela tela. Nós conhecíamos o mundo pela calçada.Elas aprendem a deslizar os dedos sobre o vidro.Nós aprendíamos a ralar os joelhos no asfalto.Elas decoram senhas.Nós decorávamos caminhos.E talvez seja por isso que a saudade aperte tanto.Não porque a nossa infância tenha sido perfeita. Ela não foi.Mas porque ela nos ensinou uma riqueza que não cabia no bolso. Cabia no coração.A felicidade morava nas coisas pequenas.Numa ficha para o orelhão.Num pacote novo de figurinhas.Numa bola um pouco murcha.Numa lata vazia que virava brinquedo.Num sorvete dividido entre amigos.E naquele pedido que, sem saber, era um desejo para a vida inteira:“Deixa eu ficar só mais cinco minutos.”Hoje, olhando para trás, a gente entende que aqueles cinco minutos passaram depressa.Viraram anos.Viraram saudade.Viraram histórias que contamos com um sorriso no rosto e um aperto bom no peito.Porque quem teve o privilégio de viver aquela infância descobriu cedo que as melhores lembranças não cabem numa tela.Elas moram para sempre na memória.E há uma riqueza que o tempo nunca consegue levar: a infância de quem aprendeu que a felicidade não precisava de internet. Precisava apenas de amigos, de liberdade… e de mais cinco minutos na rua.
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