EPISODE · Mar 22, 2026 · 8 MIN
V Domingo da Quaresma - Homilia
from Uma palavra no seu caminho · host Luís M. Figueiredo Rodrigues
O Evangelho que acabámos de escutar é um dos mais marcantes de todo o ano litúrgico e, de modo muito particular, do tempo da Quaresma. Não por acaso, o nosso povo diz tantas vezes, quando a Quaresma já vai adiantada, que “já vamos no domingo de Lázaro”. Estamos a aproximar-nos do fim deste caminho e este Evangelho ajuda-nos a perceber, com grande profundidade, quem é Jesus Cristo para cada um de nós: Ele apresenta-Se como sinal de vida.Jesus vem cumprir aquilo que já tinha sido anunciado no Antigo Testamento. Na primeira leitura, o profeta Ezequiel fala a um povo perseguido, sofrido, exilado. E, no meio dessa dor, Deus diz: “Abrirei os vossos túmulos e deles vos farei ressuscitar, ó meu povo, para vos reconduzir à terra de Israel.” Isto significa que Deus quer arrancar o seu povo da morte e reconduzi-lo à terra da salvação. A vida que o Senhor nos quer dar não é apenas uma vida biológica. É uma vida nova, uma vida de liberdade, uma vida salva.É neste horizonte que entendemos melhor a ressurreição de Lázaro. Jesus, ao ouvir que o amigo está doente, parece não ter pressa. E isso causa estranheza. Mas Jesus tem o seu tempo, e o tempo de Deus não é o nosso. O ideal seria que o nosso tempo aprendesse a ajustar-se ao tempo de Deus.Quando Jesus chega a Betânia, Lázaro já morreu. Primeiro Marta, depois Maria, vão ao seu encontro. E, diante da morte do amigo, Jesus não se perde em explicações. Jesus chora. E isto é de uma beleza imensa. Deus não está acima da nossa história, como alguém distante e exterior ao nosso sofrimento. Deus entra na nossa história com compaixão verdadeira. Deus chora connosco. Deus é solidário connosco.Depois, diante da afirmação de Marta — “eu sei que ele ressuscitará no último dia” — Jesus responde: “Eu sou a ressurreição e a vida.” Marta fala no futuro; Jesus fala no presente. E aqui está um ponto decisivo: a ressurreição que Cristo nos oferece não é apenas algo que acontecerá um dia. É uma vida nova que já começou. A vida eterna não começa apenas depois da morte; já começou.Por isso, esta Palavra convida-nos a olhar para a nossa vida e a perguntar: que lugares de morte existem em mim? Que situações de morte trago no coração? Muitas vezes são feridas, dores, situações que preferimos encerrar, como quem diz: “vamos pôr uma pedra por cima”. Mas, diante do túmulo de Lázaro, Jesus manda tirar a pedra. Não porque não pudesse fazê-lo, mas porque quer dizer-nos que também nós temos de querer remover as pedras que nos fecham por dentro. Temos de abrir os nossos túmulos e deixar vir à luz aquilo que nos aprisiona, para que o Senhor nos possa dizer: “Sai para fora.”Este é o grande desafio desta semana: que túmulos trago fechados em mim? Que pedra preciso de deslocar, para que Cristo faça em mim a sua obra de ressurreição? À medida que Lhe apresentamos as nossas mortes, Ele vai-nos curando, libertando e dando vida.Também nós acreditamos em Jesus Cristo porque fazemos a experiência de que Ele nos dá vida, e vida em abundância. A fé não pode ser apenas uma obrigação. Acreditar em Jesus deve ser uma experiência alegre, porque, no meio da dor, Ele não nos oferece explicações fáceis, mas presença; não nos deixa fechados na morte, mas conduz-nos à vida.Por isso, a pergunta decisiva é esta: que experiência de salvação fazemos nós? Em que é que o ser cristão qualifica a nossa vida, a torna mais humana, mais plena, mais livre? Talvez seja bom guardar um pouco de silêncio interior e deixar ressoar esta pergunta: de que pedras me pede hoje Jesus que me desfaça? Em que situações de morte me quer Ele dizer, já hoje: levanta-te, sai para fora? Porque a verdade é esta: se acreditamos n’Ele, então acreditamos que Jesus já nos está a ressuscitar.
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