EPISODE · Jun 28, 2026 · 7 MIN
XIII Tempo Comum - Homilia
from Uma palavra no seu caminho · host Luís M. Figueiredo Rodrigues
A liturgia da Palavra deste domingo convida-nos a olhar para a nossa vida e a meditar na nossa condição de filhos de Deus. Rezámos na oração coleta que, por adoção divina, Deus nos tornou filhos da luz. Isto significa que somos chamados a ver o mundo com a luz de Cristo. A realidade nem sempre muda; o que muda é a nossa forma de a compreender, de a habitar e de interagir com ela.É neste horizonte que escutamos a primeira leitura, do Segundo Livro dos Reis. Eliseu é acolhido por uma mulher de Sunam, que o convida a entrar, lhe oferece uma refeição e reconhece nele a passagem de Deus pela sua vida. Por isso, decide preparar-lhe um pequeno quarto, um lugar onde o profeta pudesse repousar quando por ali passasse. Este gesto simples mostra-nos algo essencial: acolher Deus é acolher aquele que passa pela nossa vida, aquele que está ao nosso lado, aquele de quem o Senhor se serve para se tornar presente entre nós.Quando acolhemos Deus, tornamo-nos homens e mulheres novos. Renasce em nós uma vida diferente, uma vida mais plena, orientada pelos valores do Evangelho. Na primeira leitura, esse acolhimento gera vida: «Daqui a um ano, terás um filho nos braços». No caso daquela mulher, trata-se de vida biológica; em nós, trata-se de uma vida nova, uma vida que se reorganiza segundo Deus.É também assim que devemos compreender as palavras fortes de Jesus no Evangelho: «Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim não é digno de Mim; quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim não é digno de Mim». À primeira vista, estas palavras podem parecer duras, quase uma oposição entre Deus e a família. Mas não é isso que o Senhor nos diz. Ele recorda-nos que o primeiro amor deve ser Deus; e que todos os outros amores encontram nele a sua justa medida. Quando outro amor ocupa o lugar de Deus, esse amor pode transformar-se em ídolo e desordenar a vida. Quando Deus é o amor primeiro, o amor à família, aos amigos e ao próximo não diminui; pelo contrário, purifica-se, aprofunda-se e torna-se mais verdadeiro.Amar a partir de nós é muitas vezes procurar no outro aquilo que nos falta. Amar a partir de Deus é desejar para o outro a plenitude da vida. Isto é mais exigente, não menos. Exige entrega, liberdade interior e conversão. Por isso, Jesus acrescenta: «Quem encontrar a sua vida há de perdê-la; e quem perder a sua vida por minha causa há de encontrá-la». Quem procura salvar a vida apenas segundo os seus cálculos acaba por desperdiçá-la; quem a entrega a Cristo descobre nela uma fecundidade nova.Mas esta radicalidade não se manifesta apenas em gestos heroicos. O Evangelho termina com uma imagem muito simples: «Quem der de beber, nem que seja um copo de água fresca, a um destes pequeninos, por ele ser meu discípulo, não perderá a sua recompensa». As grandes exigências de Deus concretizam-se nas pequenas coisas de cada dia: dar um copo de água, abrir uma porta, deixar passar alguém à frente, não responder à violência com violência, ser delicado à mesa, escutar com atenção, ajudar quem precisa de uma informação, tratar com bondade até quem não conhecemos.Também a cruz de que Jesus fala não é um convite ao sofrimento pelo sofrimento. Tomar a cruz é assumir a vida concreta, com as suas alegrias e dificuldades, com as suas feridas e possibilidades, e fazer dela o lugar do encontro com Deus. É nas pequenas fidelidades do quotidiano que somos moldados como discípulos.Assim compreendemos melhor que a Igreja é sacramento universal de salvação: sinal eficaz da graça de Deus no mundo. Também a nossa vida, quando iluminada por Cristo, pode tornar-se sinal de salvação. Peçamos, pois, a graça de acolher Deus nas pessoas e nos acontecimentos, de o amar sobre todas as coisas e de organizar a nossa vida segundo esse amor que gera vida, e vida em plenitude.
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