EPISODE · Aug 10, 2025 · 8 MIN
XIX Domingo do Tempo Comum -Homilia
from Uma palavra no seu caminho · host Luís M. Figueiredo Rodrigues
Vivemos num país de velha cristandade. Há séculos que o Evangelho molda a nossa cultura, a nossa história e até a nossa maneira de falar. Por isso, muitos dos textos que escutamos na liturgia soam-nos familiares. Contudo, essa familiaridade pode esconder um risco: o de interpretar certas passagens de forma desajustada ao seu verdadeiro sentido na Sagrada Escritura.Um exemplo claro é o tema da vigilância. No Evangelho de hoje, Jesus convida-nos a estar preparados, pois “não sabeis a hora em que o Senhor virá”. E, contudo, quantas vezes essa vigilância foi entendida como um medo constante, como se Deus fosse um juiz implacável, pronto a surpreender-nos na primeira distração, para nos castigar. Ou como se a frase “a quem muito foi dado, muito será pedido” fosse uma ameaça e não um convite à responsabilidade.É verdade que estas ideias estão enraizadas na nossa mentalidade. Mas o Evangelho de hoje convida-nos a um reajuste. Ele começa com uma frase que deveria iluminar todo o resto: “Não temais, pequenino rebanho, porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o Reino.” Esta é a chave: não temer, porque Deus — gratuitamente, sem que tivéssemos mérito — nos oferece o Seu Reino.A partir desta certeza, Jesus convida-nos a fixar o coração no que é eterno: “Fazei bolsas que não envelheçam… onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração.” O tesouro verdadeiro é o Reino de Deus.O Evangelho é, assim, um apelo constante ao discernimento: ver os sinais de Deus na nossa vida, reconhecer a Sua presença no meio do nosso quotidiano. Esta é a atitude natural de quem vive pela fé. Como recorda a Carta aos Hebreus, “a fé é a garantia dos bens que se esperam e a certeza das realidades que não se veem”. Pela fé, temos a certeza de que Deus cumpre as Suas promessas.A primeira leitura, do Livro da Sabedoria, evoca a noite da libertação do Egito. O Êxodo não foi apenas uma saída geográfica: foi o nascimento de um povo, o Povo de Deus. Também nós, pelo Batismo, somos Povo de Deus. Mas o que caracteriza este povo? A vida teologal: fé, esperança e caridade. Virtudes inseparáveis, que se iluminam mutuamente.Pela fé, acreditamos que Deus nos oferece o Seu Reino. Pela esperança, mantemo-nos atentos, sabendo que a promessa se cumprirá. Pela caridade, vivemos e agimos segundo os critérios de Deus, amando como Cristo amou.Estes sinais de Deus não são fruto da nossa imaginação: são concretizações vividas, em sintonia com a Palavra. E a Palavra não é apenas um texto para ler em casa; ela vive e atua na liturgia. Como afirmou Bento XVI, “o lugar privilegiado para escutar a Palavra de Deus é a liturgia”. É nela que a ouvimos e vemos atuar em plenitude. Com o coração moldado pela liturgia, aprendemos a reconhecer a presença de Deus na vida de todos os dias.E aqui voltamos ao início: “Não temais, pequenino rebanho, porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o Reino.” Quem acredita, espera; e quem espera, age. Esperar o Reino não é cruzar os braços: é viver de forma ativa, segundo a lei da caridade.O exemplo de Abraão, recordado na Carta aos Hebreus, é paradigmático. Ele acreditou contra toda a esperança, acolheu os três forasteiros — que eram o próprio Deus — e recebeu a promessa de um filho, que parecia humanamente impossível.Hoje, a Palavra de Deus recorda-nos que a vida cristã não é feita de uma só atitude, mas da unidade inseparável entre fé, esperança e caridade. Em certos momentos, uma destas virtudes pode ter mais relevo, mas todas são necessárias para que a nossa relação com Deus seja plena.Se acreditamos, esperamos; se esperamos, amamos; e, amando, damos testemunho. É este o caminho do discípulo: viver cada dia como homens e mulheres de fé, de esperança e de caridade, até que o Reino que já nos foi dado brilhe em toda a sua plenitude.
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