EPISODE · Aug 9, 2026 · 7 MIN
XIX Domingo do Tempo Comum - Homilia
from Uma palavra no seu caminho · host Luís M. Figueiredo Rodrigues
O tempo litúrgico que estamos a viver, o Tempo Comum, ajuda-nos precisamente a tomar consciência do que é comum na nossa vida: um dia depois do outro, as tarefas, o trabalho, os encontros, as preocupações. Mesmo quando há alguma pausa por causa das férias, a maior parte da nossa existência não tem nada de extraordinário. E é justamente aí que Deus nos quer encontrar.No final do Evangelho, os discípulos dizem a Jesus: «Tu és verdadeiramente o Filho de Deus». É porque também nós acreditamos nisto que estamos aqui a celebrar a Eucaristia. Mas isso não significa que a nossa fé nos poupe às tempestades. Há momentos de tribulação, situações inesperadas, acontecimentos que nos assustam. E, com o medo, surge muitas vezes a dúvida: onde está Deus? Onde está Jesus?O Evangelho diz-nos que Jesus está no meio da tempestade. Não necessariamente para fazer desaparecer todos os problemas, nem para colocar a vida de acordo com os nossos desejos, mas para nos dizer: «Estou aqui. Dá-me a mão. Vamos atravessar juntos esta dificuldade». Também Pedro reconhece Jesus, começa a caminhar para Ele e, depois, tem medo e duvida. Isso pode acontecer connosco. E, quando acontece, Jesus continua ali para nos estender a mão.Talvez a nossa maior dificuldade seja reconhecer a presença de Deus. E a primeira leitura, com o profeta Elias, oferece-nos uma imagem belíssima. Elias espera o Senhor. Vem um vento forte, capaz de quebrar os rochedos, mas Deus não está no vento. Vem um terramoto, mas Deus não está no terramoto. Vem o fogo, mas Deus também não está no fogo. Finalmente, ouve-se o murmúrio de uma ligeira brisa. E Elias percebe: Deus está ali.Nós gostaríamos, por vezes, de encontrar Deus no extraordinário, no espectacular, no que se impõe. Mas Deus manifesta-Se frequentemente de modo discreto, quase silencioso, na ligeira brisa do quotidiano. Por isso, para reconhecermos Jesus quando chega a tempestade, precisamos de aprender a reconhecê-Lo antes, na normalidade dos nossos dias.E como se faz isso? O salmo dá-nos uma pista: «Mostrai-nos, Senhor, o vosso amor e dai-nos a vossa salvação». Depois fala-nos de misericórdia e fidelidade, de justiça e paz. É aí que Deus se deixa encontrar. Quando, no nosso quotidiano, procuramos ser misericordiosos e fiéis, construir a paz e praticar a justiça, o nosso coração aprende a reconhecer a presença de Deus.Mas há ainda uma tentação a evitar. Podemos pensar que, porque reconhecemos Jesus, somos melhores do que os outros. Podemos olhar de cima para quem não acredita ou não vive a fé como nós. São Paulo mostra-nos exactamente o contrário. Ele sente «uma grande tristeza e uma dor contínua» pelos seus irmãos que ainda não reconheceram Cristo. Não os despreza; sofre por eles. Desejaria dar tudo para que também eles descobrissem aquilo que ele próprio encontrou.E aqui temos um critério muito simples para sabermos se encontrámos verdadeiramente Cristo: depois de O encontrar, sentimo-nos superiores aos outros ou tornamo-nos mais compassivos, mais misericordiosos, mais desejosos de partilhar?Quem encontra verdadeiramente Jesus não se coloca acima de ninguém. Reconhece que recebeu um dom e deseja que outros possam experimentar a mesma alegria, a mesma esperança e a mesma paz.Peçamos, por isso, ao Senhor que nos ensine a reconhecê-Lo na brisa discreta do nosso quotidiano; que, nas tempestades, saibamos agarrar a sua mão; e que a nossa fé nunca se transforme em superioridade, mas sempre em misericórdia, proximidade e desejo de partilhar com os outros a alegria de O ter encontrado.
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