EPISODE · Jul 20, 2025 · 10 MIN
XVI Domingo do Tempo Comum - Homilia
from Uma palavra no seu caminho · host Luís M. Figueiredo Rodrigues
No Salmo responsorial de hoje, cantávamos e perguntávamos: "Senhor, quem habitará em Vossa casa?". É um apelo para compreendermos o que significa viver de acordo com os ensinamentos de Deus. Essa resposta encontra-se nas leituras bíblicas, começando pelo Evangelho, onde vemos Marta e Maria a acolher Jesus.Marta está preocupada com muitos afazeres para bem receber o Mestre, enquanto Maria se senta aos pés de Jesus para escutar a Sua palavra. Marta, incomodada, queixa-se ao Senhor, pedindo que Ele repreenda a irmã. Jesus, porém, não a censura por estar ocupada, mas por andar inquieta e preocupada com muitas coisas, lembrando-lhe que "uma só é necessária" e que Maria escolheu a melhor parte.Este episódio traz-nos um ensinamento importante: vivemos numa sociedade cheia de compromissos, tarefas e distrações que nos afastam do essencial. Podemos estar muito ocupados, mas ainda assim espiritualmente vazios, se não tivermos o foco em Jesus. O Evangelho não valoriza a passividade, mas sim a capacidade de agir com serenidade e com o coração centrado no essencial.A primeira leitura, com a figura de Abraão, reforça esta lição. Ele estava tranquilamente sentado à porta da tenda quando vê três forasteiros e corre para os acolher. Oferece-lhes água e alimento, interrompendo o seu descanso. Mais tarde, um dos forasteiros revela que Sara, sua esposa estéril, terá um filho — sinal de que Deus Se manifestou através daquele gesto de hospitalidade. Abraão mostra-nos que, mesmo no descanso, é possível estar atento à presença de Deus nos outros.O essencial não está em fazer muito, mas em fazer com sentido e com espírito de acolhimento. Quantas vezes realizamos múltiplas tarefas sem nos darmos conta de que estamos a servir a Deus? Como disse Jesus:“Tudo o que fizerdes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes.”A segunda leitura, da Carta de São Paulo aos Colossenses, aprofunda esta lógica:“Alegro-me nos sofrimentos que suporto por vós e completo na minha carne o que falta à Paixão de Cristo.”Este aparente paradoxo revela que, ao vivermos as nossas dores e sacrifícios unidos a Cristo, tornamo-nos participantes do Seu mistério redentor. A Paixão de Cristo foi plena, mas torna-se completa em nós quando unimos a nossa vida à d’Ele.É esse o desafio: harmonizar todas as dimensões da nossa vida — pessoal, familiar, profissional e espiritual — em torno do essencial, que é Cristo. Quando assim vivemos, mesmo as ações mais simples se tornam espaço de encontro com Deus.Não se trata de opor ação a contemplação, mas de encontrar uma síntese entre ambas. Não é uma questão de fazer muito ou pouco, mas de viver com profundidade e sentido espiritual aquilo que fazemos.Se estivermos centrados em Jesus, tudo ganha novo significado: os sofrimentos tornam-se ofertas, as tarefas tornam-se serviço, a vida torna-se espaço de graça.E tal como aconteceu com Abraão, Deus visita-nos quando estamos atentos aos outros. A verdadeira fecundidade da vida — simbolizada pelo nascimento do filho prometido a Sara — nasce quando vivemos centrados no essencial, com o coração disponível para acolher Deus que passa, frequentemente, disfarçado na figura dos nossos irmãos.
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