EPISODE · Sep 13, 2026 · 12 MIN
XXIV Domingo do Tempo Comum - Homilia
from Uma palavra no seu caminho · host Luís M. Figueiredo Rodrigues
No Antigo Testamento encontramos a chamada lei de talião: «olho por olho, dente por dente». À primeira vista, pode parecer uma lei violenta; na verdade, pretendia limitar a violência. Se alguém me causasse um dano, eu não poderia responder com um mal maior. Era já uma forma de travar a espiral da vingança.Jesus, porém, vai mais longe. Não nos pede apenas que não retribuamos o mal com um mal maior: pede-nos que perdoemos. Pedro pergunta-Lhe: «Se o meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe? Até sete vezes?» Sete já parece muito. Mas Jesus responde: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete». Isto é: sempre.Dizê-lo é fácil; vivê-lo é muito mais difícil. Há pequenas contrariedades que rapidamente ultrapassamos. Mas há ofensas que nos ferem por dentro: uma traição, uma calúnia, uma injustiça profunda. Perante essas feridas, perdoar pode parecer humanamente impossível. E talvez seja. Há perdões que só são possíveis com Deus.É por isso que Jesus conta a parábola dos dois devedores. Um servo devia ao rei dez mil talentos: uma quantia absolutamente incomportável, uma dívida que jamais conseguiria pagar. Pede apenas tempo, mas o rei faz muito mais: perdoa-lhe toda a dívida. Pouco depois, esse mesmo servo encontra um companheiro que lhe devia cem denários. Também este lhe pede tempo. Mas ele recusa, manda-o prender e exige que pague tudo.A desproporção é o coração da parábola. Jesus não está a dizer que as ofensas que recebemos são insignificantes. Algumas doem profundamente. Está a dizer-nos que o perdão começa quando tomamos consciência do perdão que nós próprios recebemos de Deus. O rei diz ao servo: «Não devias também tu compadecer-te do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?»Talvez aqui esteja o segredo. Se eu me concentrar apenas na obrigação de perdoar, posso sentir-me ainda mais frustrado: sei que devo perdoar, mas não consigo. O caminho começa noutro lugar: reconhecer quanto Deus me perdoa, quanto me ama, quanta compaixão tem de mim. É dessa experiência que pode nascer, pouco a pouco, a capacidade de perdoar os outros.E perdoar não é esquecer. A memória é um dom; não precisamos de fingir que nada aconteceu. Perdoar é impedir que uma ferida do passado continue a governar o nosso futuro. É deixar de permitir que aquela ofensa determine as nossas escolhas, alimente a vingança, o medo, a angústia ou o ressentimento.Atribui-se a Nelson Mandela uma frase muito expressiva: se, depois de sair da prisão, continuasse dominado pelo ódio aos que o tinham prendido, teria saído da prisão, mas a prisão não teria saído dele. A imagem é verdadeira para nós. Também podemos viver em pequenas prisões interiores: «não vou ali porque está aquela pessoa»; «não falo desse assunto para não me lembrar»; «não faço isto porque tenho medo de voltar a sofrer». A ofensa continua, assim, a produzir efeitos muito depois de ter acontecido.O perdão rompe essa cadeia. Não torna bom aquilo que foi mau, não chama justo ao que foi injusto, nem dispensa a verdade ou a justiça. Mas impede que o mal recebido continue a ter poder sobre nós.Por isso, quando nos for difícil perdoar, talvez devamos começar não por olhar para quem nos feriu, mas para Deus. Recordar quanto Ele nos perdoou, quanto nos ama e como tem compaixão de nós. E pedir-Lhe a graça de fazer em nós aquilo que, sozinhos, não conseguimos fazer. Porque perdoar é uma obra profundamente humana, mas há momentos em que só se torna possível quando deixamos Deus agir em nós.
Embed this episode
Ready to play
XXIV Domingo do Tempo Comum - Homilia
No transcript for this episode yet
Similar Episodes
No similar episodes found.
Similar Podcasts
No similar podcasts found.