PODCAST · society
RFI Convida
by RFI Brasil
Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.
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Memória do nazismo já não basta para conter avanço da extrema direita na Alemanha, diz pesquisador
A vitória da sigla AfD durante a eleição regional em Saxônia-Anhalt, no leste da Alemanha, reacendeu o debate sobre os limites das estratégias usadas para conter a extrema direita. Para o sociólogo Sérgio Costa, da Freie Universität Berlin, o fenômeno combina heranças da antiga divisão entre leste e oeste, ressentimentos sociais persistentes e erros dos partidos tradicionais. Ele afirma que copiar o discurso da direita radical fortalece a própria AfD e não responde às frustrações do eleitorado. Durante décadas, a Alemanha cultivou a convicção de que o enfrentamento sistemático de seu passado nazista funcionaria como uma espécie de vacina democrática contra o retorno da extrema direita. A ascensão da Alternativa para a Alemanha (AfD), no entanto, vem submetendo essa certeza a um teste cada vez mais severo. Para o sociólogo brasileiro Sérgio Costa, professor-titular da Freie Universität Berlin, o fenômeno não pode ser reduzido ao crescimento da imigração, à crise econômica ou mesmo às particularidades do leste alemão. O que está em jogo, afirma, é uma combinação entre heranças históricas da reunificação, mudanças profundas na maneira como a política é produzida e consumida e erros sucessivos cometidos pelos partidos tradicionais ao tentar responder ao avanço da direita radical. A primeira explicação, segundo ele, está na própria história alemã do pós-guerra. Embora a memória dos crimes do nazismo tenha se tornado um dos pilares da cultura política do país, esse processo ocorreu de forma desigual entre as duas Alemanhas. "O primeiro fator a se destacar é que esse estado da eleição que houve domingo é um estado que faz parte da antiga Alemanha Oriental", afirma. "Esse trabalho de processamento, de discussão dos horrores do nazismo, foi muito menos pronunciado no leste do que no oeste." Costa observa que a chamada "pedagogia da memória", concebida como instrumento para impedir a repetição dos erros do passado, foi muito mais desenvolvida na antiga Alemanha Ocidental do que na parte oriental do país. Para o sociólogo, essa diferença ajuda a compreender parte da força da AfD no leste alemão, mas não é suficiente para explicar, sozinha, o avanço da extrema direita. Na avaliação do pesquisador, o fenômeno deve ser inserido em um contexto internacional mais amplo. "O segundo fator é, de fato, uma mudança na política global. A extrema direita vem crescendo no mundo todo. Enfim, poucos países são aí uma exceção", afirma. Segundo Costa, a própria dinâmica da disputa política se transformou nos últimos anos. "É uma dinâmica diferente da política. É a política que é feita pelas redes sociais, sem uma discussão profunda de conteúdos, sem um conhecimento da história." Para ele, esse ambiente favorece o fortalecimento de forças radicais. "Tudo isso leva a esse resultado tão favorável a um partido que é considerado pelos organismos de vigilância constitucional na Alemanha como um partido de extrema direita." Uma divisão que persiste, mas já não explica tudo Quase quatro décadas após a queda do Muro de Berlim, os mapas eleitorais continuam revelando uma Alemanha atravessada por divisões que a reunificação não conseguiu eliminar completamente. "Qualquer pessoa que olhe no mapa da Alemanha vai ver que o partido de extrema direita AfD tem muito mais votação no lado leste do que no lado oeste, ou seja, muito mais na antiga Alemanha socialista do que na Alemanha capitalista." Segundo ele, essa realidade está ligada a frustrações acumuladas ao longo das últimas décadas, embora a interpretação de uma simples "questão oriental" seja insuficiente diante do crescimento do partido em outras regiões do país. O sociólogo ressalta que a reunificação produziu avanços significativos e rejeita a ideia de que a persistente força da AfD no leste seja consequência de um fracasso econômico. "Os padrões de vida nos dois lados da Alemanha hoje são muito mais uniformes do que eram alguns anos atrás", afirma. Na sua avaliação, "a unificação foi exitosa nesse trabalho de promover o desenvolvimento econômico da Alemanha Ocidental e da Alemanha Oriental, de alguma maneira articulá-los e vinculá-los". Ainda assim, ele chama atenção para desigualdades que permanecem visíveis, sobretudo na distribuição de riqueza. "A diferença significativa que existe é em termos de patrimônio. Os alemães ocidentais têm até hoje um patrimônio muito maior do que os alemães orientais, o que se explica através da história." Mas, para Costa, a chave da questão talvez esteja menos nos indicadores econômicos do que na percepção de perda de relevância experimentada por parcelas da população. "Por que essa análise, ainda que importante, é insuficiente? Porque há outros fatores. A AfD está crescendo muito também no leste", observa. Segundo ele, cidades industriais que ocupavam posições centrais perderam influência política, econômica e simbólica ao longo do tempo. O resultado, afirma, é uma sensação difusa de declínio e perda de status que a AfD conseguiu explorar politicamente. "Então há uma sensação de perda de poder. A AfD, através da sua propaganda, através da sua capilaridade nas redes sociais, faz reavivar, faz ressuscitar esse ressentimento e essa possibilidade de uma mudança no quadro atual." Mais do que capitalizar uma divisão histórica entre leste e oeste, conclui, o partido tem conseguido transformar descontentamentos diversos em força eleitoral. "Ela mobiliza frustrações dos dois lados da Alemanha." Leia tambémUnião com esquerda radical pode viabilizar governo de extrema direita na Alemanha após vitória em eleição estadual O dilema do "cordão sanitário" À medida que a AfD amplia sua votação, cresce também a pressão sobre o chamado Brandmauer, o "cordão sanitário" erguido pelos partidos tradicionais para impedir qualquer coalizão com a legenda. Para Costa, porém, essa estratégia continua plenamente justificada. "O cordão sanitário que é feito para impedir que um partido de extrema direita chegue ao poder é uma ação democrática", afirma. Na sua avaliação, a medida não representa uma limitação da democracia, mas um mecanismo de defesa institucional." Embora reconheça o peso eleitoral alcançado pela AfD, o sociólogo argumenta que o debate não pode ignorar os "efeitos concretos" de uma eventual chegada do partido ao governo. Ao comentar o caso da Saxônia-Anhalt, Costa ressalta que, apesar de ter pouco mais de 2 milhões de habitantes, o estado possui uma relevância simbólica que ultrapassa seu tamanho. "É um estado muito pequeno, menor do que a minha cidade natal, Belo Horizonte, mas ele tem um papel simbólico muito importante." Segundo ele, lideranças da própria AfD já indicaram algumas das mudanças que pretendem implementar. "A AfD chegando ao poder nesse estado, e já disse que vai fazer isso, vai, por exemplo, abolir o dever das pessoas enviarem crianças à escola." O pesquisador cita ainda propostas relacionadas à imigração e ao funcionamento do aparato estatal. "Ela vai basicamente abolir o direito de asilo político, que é um direito constitucional" e "vai seguramente se valer do serviço secreto, no nível estadual, para perseguir inimigos, para acumular informações". Diante desse cenário, conclui, "impedir que esse partido chegue ao poder é uma ação democrática". Um caso que assusta a Europa A extrema direita cresce em diversos países europeus, mas Costa considera que a Alemanha continua ocupando um lugar singular nesse debate. "O que torna o caso alemão diferente é o fato de que o cordão sanitário havia funcionado até agora", afirma, referindo-se à recusa dos partidos tradicionais em formar coalizões com a AfD. Mas, na sua avaliação, a excepcionalidade alemã vai além das estratégias partidárias. "É singular pela sua história." Para o sociólogo, o peso simbólico do fenômeno é inevitável. "O país que protagonizou os horrores do nazismo, menos de cem anos depois, chega a ter esse partido, que se parece muito com o Partido Nazista outra vez chegando ao poder", diz. Embora ressalte que "é preciso guardar as proporções", Costa não esconde a preocupação diante desse cenário. "É algo muito assustador." Leia também'Choque fascista': imprensa francesa reage à vitória da extrema direita na Alemanha O erro de copiar a extrema direita Se há um ponto em que Costa é categórico, é ao analisar as estratégias adotadas pelos partidos tradicionais para conter a AfD. Ele identifica um primeiro equívoco na forma como parte da classe política enxergou os eleitores da extrema direita. "O primeiro erro foi entender que os eleitores que votavam na extrema direita não sabiam o que estava acontecendo e eram, portanto, vítimas da sua própria ignorância." Para o sociólogo, essa interpretação sempre esteve fadada ao fracasso. "Considerar o eleitor ignorante é um péssimo diagnóstico para quem quer ganhar os votos desse eleitor." Na avaliação do pesquisador, porém, um segundo erro continua sendo cometido. "O segundo erro, e esse é particularmente o erro que os partidos de centro têm cometido, de centro-direita, não só na Alemanha, é pensar que com um discurso semelhante ao da AfD eles podem conquistar os eleitores da AfD." A experiência recente aponta justamente na direção contrária, afirma. "Isso não vem acontecendo. Quanto mais os partidos de centro e de centro-direita se aproximam em suas reivindicações, em suas bandeiras da AfD, mais eles perdem votos, mais eles fortalecem a AfD." Para Costa, a resposta não está na imitação da extrema direita, mas na construção de uma alternativa capaz de canalizar insatisfações legítimas para um projeto político democrático. "O que falta é construir um horizonte político novo que permita que esse ressentimento realmente existente, sobretudo na população do leste da Alemanha, mas não só nela, possa ser transformado numa expectativa de um futuro melhor." Segundo o sociólogo, uma das razões do sucesso eleitoral da própria AfD é justamente sua capacidade de converter descontentamento em promessa de futuro. "A política que olha para o futuro, que é capaz de criar um contexto favorável, um contexto de otimismo, é essa política que tem ganhado os votos dos eleitores." Ele vê esse mecanismo de forma clara na atuação da liderança regional da legenda. "O que o líder da AfD na Saxônia fez foi precisamente isso. Ele é risonho. Ele promoveu a transformação do ressentimento numa mensagem de otimismo." Na visão de Costa, os adversários da extrema direita ainda não encontraram uma resposta equivalente. "É isso que os partidos democráticos precisam aprender a fazer." O alerta para democracias como Brasil, França e Estados Unidos Ao olhar para além da Alemanha, Costa vê na experiência alemã uma advertência para democracias que enfrentam polarização crescente e o avanço de lideranças nacional-populistas. Na sua avaliação, a principal lição é que a estratégia adotada por muitos partidos tradicionais tem produzido o efeito contrário ao desejado. "A principal advertência é aquilo a que eu me referia antes: o fato de que imitar a extrema direita só cria mais força e votos para a extrema direita." Para o sociólogo, a simples defesa das instituições democráticas continua necessária, mas deixou de ser suficiente para mobilizar parcelas do eleitorado atraídas por discursos radicais. "Não basta só dizer: precisamos proteger a democracia. Essa mensagem é insuficiente para ganhar o coração dos eleitores." Em vez de reproduzir parte da agenda da extrema direita, Costa defende a construção de uma alternativa política capaz de responder às inquietações concretas da população. "É preciso criar um horizonte novo de expectativas. É preciso criar uma mensagem nova", afirma. Essa mensagem, segundo ele, deve reconhecer as dificuldades enfrentadas pelos eleitores sem recorrer à retórica do medo ou da exclusão. "É preciso uma mensagem que seja da política de vida contra a política de morte, que seja a mensagem de novas perspectivas econômicas, de reconhecer efetivamente quais são os dramas cotidianos que o eleitor enfrenta." Para o pesquisador, muitos dos cidadãos que migram para a extrema direita estão expressando demandas reais, ainda que encontrem respostas problemáticas. "É preciso transformar essa vontade sincera do eleitor, é preciso captá-la e responder a ela." Costa também critica abordagens que tratam o eleitorado como um problema a ser corrigido ou educado. Na sua visão, o erro de parte dos partidos democráticos está em acreditar que basta explicar melhor suas posições ou ensinar o cidadão a votar. "O eleitor não quer ouvir que precisamos ensiná-lo à política ou ensiná-lo a votar", afirma. O desafio, argumenta, é mais complexo e passa pela capacidade de ouvir segmentos da sociedade que se sentem ignorados pelas elites políticas. "Ele quer ser escutado." E conclui: "Essa escuta profunda é algo que os partidos de centro e de esquerda precisam fazer com muito mais atenção do que têm feito até hoje."
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Escândalo do Banco Master reforça desconfiança na política e torna eleição mais instável, diz cientista político
Para o cientista político Leonardo Avritzer, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o escândalo envolvendo o Banco Master contribui para ampliar a deslegitimação do sistema político brasileiro em um momento de forte desinteresse eleitoral. Em entrevista à RFI, ele afirma que o caso atinge inclusive instituições que mantinham altos índices de credibilidade junto à população e avalia que o Brasil ainda não retomou uma trajetória de estabilidade democrática. Maria Paula Carvalho, da RFI Faltando poucas semanas para as eleições presidenciais de 4 de outubro, o cientista político Leonardo Avritzer avalia que o Brasil atravessa mais um momento de instabilidade democrática. Autor de diversos trabalhos sobre democracia, participação cidadã e instituições políticas, o professor da Universidade Federal de Minas Gerais afirma que o país ainda vive um ciclo marcado por avanços e retrocessos na consolidação democrática. Segundo Avritzer, as eleições brasileiras dos últimos anos deixaram de ser apenas disputas convencionais de poder e passaram a envolver a própria continuidade da ordem democrática. Na sua avaliação, a eleição de Jair Bolsonaro em 2018 e os acontecimentos posteriores evidenciaram essa fragilidade institucional. “O Brasil não tem uma construção democrática estável. Pelo contrário, nós temos ainda idas e vindas na nossa democracia”, afirma. Para ele, embora tenha havido alguma recuperação institucional após a eleição de 2022, o cenário continua longe da estabilidade. Como exemplo, cita a força eleitoral do Partido Liberal (PL) nas eleições proporcionais e a presença do filho de Bolsonaro na atual disputa presidencial. Desânimo eleitoral e escândalo político Ao analisar o atual processo eleitoral, Avritzer destaca dois elementos centrais. O primeiro é o que descreve como um profundo desinteresse da população pela campanha. Segundo ele, esse fenômeno pode ser observado tanto na pouca mobilização das ruas quanto no comportamento dos candidatos. “O processo eleitoral é marcado por um enorme desânimo, desinteresse da população brasileira em relação ao próprio processo eleitoral”, afirma. O segundo fator é o escândalo envolvendo o Banco Master. Embora ressalte que o caso não afeta diretamente o governo federal, Avritzer considera que ele contribui para enfraquecer a confiança dos brasileiros nas instituições. “O pano de fundo é um escândalo de corrupção bastante forte ligado ao Banco Master”, observa. Ele menciona o envolvimento de figuras influentes da política nacional e também as repercussões sobre o Supremo Tribunal Federal (STF). "Ainda que o escândalo do Banco Master tenha características muito específicas e não seja um caso sistêmico de corrupção envolvendo o conjunto do sistema político, como foram o mensalão e a Lava Jato, ele acaba transmitindo a impressão de que o sistema político está à venda", resume Avritzer. Segundo o cientista político, trata-se sobretudo de um caso envolvendo um banqueiro que teria buscado ampliar a influência de sua instituição por meio da aproximação com figuras de grande poder na República. "Por exemplo, podemos citar o ministro Alexandre de Moraes, além dos senadores Ciro Nogueira e Jaques Wagner, que aparecem entre os implicados. Ainda que não existam provas contundentes e nenhum dos envolvidos tenha sido condenado, o caso reforça a percepção de que o sistema político brasileiro pode ser influenciado por interesses privados", reitera. Mudanças no equilíbrio entre os Poderes Para Avritzer, a atual conjuntura também reflete transformações profundas na relação entre os três Poderes da República. Historicamente, afirma, o Executivo sempre ocupou posição central na política brasileira, particularmente desde os anos 1930. No entanto, a Constituição de 1988 fortaleceu o STF ao ampliar suas prerrogativas institucionais. Mais recentemente, o Congresso Nacional também ganhou influência política com o fortalecimento das emendas parlamentares. O resultado, segundo ele, é uma configuração inédita na história recente do país. “Hoje nós vivemos uma situação no Brasil diferente da nossa trajetória histórica. O Executivo é o poder mais fraco, mais dependente dos outros dois poderes”, avalia. Polarização persiste, mas é mais intensa nas redes Questionado sobre a polarização política, Avritzer considera que o fenômeno continua presente, sobretudo nas redes sociais. No entanto, ele chama atenção para pesquisas que apontam uma realidade diferente quando se observa o comportamento dos brasileiros fora do ambiente digital. Segundo ele, levantamentos recentes mostram que a maioria dos eleitores não rejeita relações pessoais com pessoas de posicionamentos políticos diferentes. Esse cenário contrastaria, por exemplo, com o observado atualmente nos Estados Unidos. Para o pesquisador, isso sugere que a polarização social pode ser menos intensa do que a polarização observada nas plataformas digitais. Diferenças regionais e de gênero no comportamento eleitoral Ao analisar as motivações do eleitorado, Avritzer identifica diferenças importantes entre regiões do país. Segundo ele, os eleitores mais pobres, especialmente do Nordeste, tendem a dar maior importância às políticas de proteção social, ao valor do salário mínimo e à expectativa de melhoria das condições de vida. Já no Sudeste, afirma, é mais forte a rejeição ao sistema político, ao Estado e às empresas estatais. O cientista político também destaca diferenças entre homens e mulheres. Em sua avaliação, os homens apresentam posições mais conservadoras e maior rejeição às políticas sociais, enquanto as mulheres tendem a reconhecer mais claramente a importância dos mecanismos de proteção social. Partidos seguem no centro da disputa Apesar da baixa confiança dos brasileiros nos partidos políticos, Avritzer observa que eles continuam sendo os principais organizadores da competição eleitoral. Segundo ele, pesquisas mostram níveis muito elevados de desconfiança da população em relação às legendas. Ainda assim, PT e PL concentram atualmente cerca de 70% das intenções de voto, demonstrando que a disputa política continua estruturada em torno dos partidos. Para o professor, a maior dificuldade surge no Congresso Nacional, onde a fragmentação partidária permanece elevada e contribui para os desafios de governabilidade enfrentados pelos sucessivos governos. Juventude entre participação e afastamento Em relação aos jovens, Avritzer considera que o cenário é ambivalente. Por um lado, pesquisas indicam crescimento do número de jovens entre 16 e 24 anos que se identificam com posições de direita. Por outro, ele observa que esse mesmo grupo continua demonstrando interesse em obter o título de eleitor mesmo quando o voto é facultativo. Ao mesmo tempo, ressalta, os jovens também figuram entre os segmentos que mais se abstêm de votar, o que torna difícil afirmar se estão efetivamente se aproximando ou se afastando da política institucional. Para Avritzer, essa combinação de fatores ajuda a explicar um dos principais desafios das eleições de 2026: a coexistência entre a permanência das disputas políticas tradicionais e uma crescente desconfiança dos eleitores em relação ao sistema político brasileiro.
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Eleitorado brasileiro em Paris cresce mais de 32% para o pleito de outubro
Os preparativos para as eleições presidenciais brasileiras de outubro estão em fase final em Paris, onde está concentrado o maior colégio eleitoral brasileiro da França. O número de brasileiros aptos a votar na capital francesa chegou a 27,8 mil, um aumento de aproximadamente 32% em relação a 2022, quando pouco mais de 21 mil eleitores estavam registrados. Maria Paula Carvalho, da RFI Apesar da alta expressiva no eleitorado, a expectativa é que cerca de 14 mil pessoas compareçam às urnas, o equivalente a aproximadamente 50% dos inscritos, percentual semelhante ao observado nas últimas eleições. Em entrevista à RFI, o cônsul-geral do Brasil em Paris, Fábio Mendes Marzano, afirmou que a organização da votação está praticamente concluída. A votação em Paris ocorrerá no Espaço Vinci, localizado no número 25 da Rue des Jeûneurs, no 2º distrito da capital francesa. O local é facilmente acessível por transporte público e fica a poucos minutos a pé das estações Grands Boulevards, servida pelas linhas 8 e 9 do metrô de Paris, e Bourse, na linha 3. Segundo o consulado-geral do Brasil, a escolha do espaço levou em conta a facilidade de acesso para os eleitores e a capacidade de receber um grande fluxo de votantes ao longo do dia. “Esperamos o comparecimento de dezenas de milhares de brasileiros, porque é um momento muito importante da nossa democracia. Temos tudo praticamente organizado para o grande dia”, afirmou o cônsul-geral do Brasil. Segundo o consulado, serão disponibilizadas 34 urnas eletrônicas para atender os eleitores. Os equipamentos ainda aguardam envio pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e passarão por testes assim que chegarem à França. Como medida de segurança, também já foram recebidas urnas de lona para eventual substituição em caso de falha técnica. Na última eleição presidencial, duas urnas eletrônicas apresentaram problemas e foi necessário recorrer ao voto manual em algumas seções. A organização da votação mobilizará 185 pessoas, entre servidores do Ministério das Relações Exteriores e voluntários. Mais de 80 integrantes da equipe pertencem aos quadros do consulado, da embaixada do Brasil na França, da delegação brasileira junto à Unesco e da representação do país na OCDE. “Os brasileiros fazem questão de ajudar, de colaborar nesse processo e de participar”, destacou Marzano. Assim como os demais brasileiros residentes no exterior, os eleitores registrados na França poderão votar apenas para presidente da República – diferentemente do que ocorre no território brasileiro, onde os eleitores escolherão também governadores, senadores, deputados federais, deputados estaduais ou distritais. Em caso de segundo turno, uma nova votação será realizada nas representações eleitorais brasileiras no exterior. Como votar A votação seguirá a ordem de chegada, com prioridade para idosos, gestantes e pessoas com mobilidade reduzida. Os eleitores deverão apresentar o título de eleitor ou um documento oficial com foto. Assim como no Brasil, será proibida qualquer forma de propaganda eleitoral dentro do local de votação, incluindo a chamada boca de urna e o uso de roupas ou acessórios que identifiquem candidatos ou partidos políticos. Segundo o cônsul-geral, o clima nas eleições anteriores foi marcado pela tranquilidade. “Os brasileiros vêm com muita alegria participar e nunca tivemos problemas de arruaça ou comportamentos indevidos”, afirmou. A segurança do entorno ficará sob responsabilidade da polícia francesa, que atuará do lado de fora do local de votação. No interior do recinto, agentes privados contratados pelo consulado serão responsáveis pela manutenção da ordem. Além de coordenar a estrutura de votação, Marzano exercerá a função de juiz eleitoral em Paris. Caberá a ele resolver eventuais situações excepcionais, como problemas de identificação dos eleitores ou outras ocorrências durante o pleito. Primeira votação em Marselha Esta será também a primeira eleição presidencial brasileira com votação em Marselha, a segunda maior cidade da França e principal centro urbano da região sul do país, às margens do Mar Mediterrâneo. A nova seção eleitoral reúne cerca de 2,8 mil eleitores inscritos, número dez vezes menor do que o de Paris. Para Marzano, a criação da seção no sul da França não deve reduzir significativamente a participação na capital francesa. Pelo contrário, ele acredita que a nova estrutura pode incentivar mais brasileiros a comparecer às urnas, ao facilitar o acesso ao voto para quem vive distante de Paris. “Convido todos os brasileiros eleitores a participarem desse grande dia. É um dos momentos mais importantes da nossa democracia. Vamos recebê-los de braços abertos, com toda a organização, segurança e logística necessárias."
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Conheça os desafios de Lula e Flávio para conquistar o voto dos eleitores indecisos
O RFI Convida entrevistou o analista Rodolfo Marques, doutor em ciência política e professor da Universidade da Amazônia, sobre a acirrada disputa entre os dois principais candidatos à presidência da República: Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Ele afirmou que enquanto o primeiro precisa quebrar resistência de setores como a classe média, o segundo precisa mostrar que tem capacidade administrativa e não é apenas a sombra do pai. Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília Os candidatos do PT e do PL têm desafios diferentes, mas o mesmo objetivo de alcançar a maioria dos eleitores para ocupar a principal cadeira política da República brasileira. O foco de ambos se volta para uma parcela importante do eleitorado, os indecisos. Segundo pesquisa Datafolha divulgada em 21 de agosto, 72% dos eleitores estão totalmente certos de qual número vão apertar na urna em outubro. Os demais ainda hesitam. Para o analista político Rodolfo Marques, “Lula precisa preservar sua base e dialogar com setores que hoje têm resistência ao governo, por exemplo, a classe média, o segmento evangélico e parte do agronegócio. E também precisa evitar que problemas envolvendo integrantes da sua família ou aliados contaminem a campanha”. “Flávio Bolsonaro, por sua vez, precisa transformar a força política do sobrenome Bolsonaro em uma candidatura capaz de conquistar eleitores que não são exatamente bolsonaristas. Seria a direita não bolsonarista. E parte dessa direita não bolsonarista esteve com Lula em 2022. São desafios bem grandes para os dois principais candidatos”, afirmou Marques. Investigações Sobre os casos em investigação, o professor avalia que as apurações, relacionadas de alguma forma aos dois candidatos, podem ter peso importante, mas não necessariamente ser determinantes. Segundo ele, "o ponto central é o eleitor entender se existe responsabilidade direta do candidato ou do partido nesses casos.” “Lula precisa descaracterizar e tentar afastar toda essa questão do Lulinha. E Flávio Bolsonaro precisa explicar a questão das conexões financeiras e comerciais que ele já demonstrou ter com Daniel Volcaro, inclusive pedindo milhões de reais para o filme Dark Horse. Flávio tenta enterrar a situação, mas ela ainda está muito ativa.” Aliados de Lula têm criticado vazamento de informações do caso Lulinha, enquanto apontam que outras investigações, como a do Banco Master, não avançam. Já apoiadores de Flávio Bolsonaro tecem críticas a setores do judiciário. O analista reconhece o momento delicado e destaca o papel relevante das instituições tanto na apuração quanto na demonstração de que não estão agindo politicamente. “Existe de fato uma tensão importante. É bom ressaltar que Polícia Federal, Ministério Público e Poder Judiciário precisam investigar e cumprir suas funções, independentemente do calendário eleitoral. O problema emerge quando a sociedade passa a interpretar cada decisão institucional a partir da disputa político-eleitoral. As instituições precisam atuar com independência, mas também precisam preservar a percepção de imparcialidade”, frisou. Religião e gênero Rodolfo Marques lembrou que nichos específicos não são homogêneos, como os evangélicos, os produtores rurais ou o eleitorado feminino. Mas disse que existem sim desafios peculiares para cada candidato nessas áreas. “Há uma lacuna muito grande da campanha do PT e da coligação do governo em relação aos evangélicos e ao agronegócio, mas acredito que seja possível abrir um canal de diálogo com esses setores, principalmente a partir da habilidade política e de comunicação de Lula. Já Flávio tem um histórico muito negativo em relação às mulheres, não só ele, mas o próprio pai, Jair Bolsonaro, e o irmão, Eduardo. Então, a campanha de Flávio tem essa cruzada para buscar o voto feminino, mas tende a ter mais dificuldades.” Propagando eleitoral A partir do próximo dia 28 a campanha passa a contar também com o horário eleitoral exibido no rádio e na televisão. O analista político diz que mesmo com impacto limitado em tempos digitais, trata-se de uma ferramenta importante na campanha. “Nos dias de hoje, o eleitor recebe conteúdo político de forma muito mais personalizada nas redes sociais, por vezes criado dentro de uma bolha a partir dos algoritmos. Já o rádio e a televisão têm uma característica importante no sentido de atingir um público amplo e diversificado, ainda que o alcance não seja como antes”. Na propaganda eleitoral, o eleitor acompanha um programa na sequência do outro e não apenas o material do seu candidato. Justamente por ser uma forma menos nichada, pode atingir quem ainda não se decidiu. “Na televisão, e no rádio, existe um pouco daquela propaganda sem interrupção. Os candidatos e as candidatas conseguem falar com quem não estava prestando atenção neles ou com quem eventualmente ainda não se decidiu. E os recortes desses programas vão para as redes sociais. A propaganda, assim, pode ter certa influência. Mas é claro que os eleitores vão tomar suas decisões a partir de vários elementos.”
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'A França está liderando uma revolução na moda', diz Alexandra Farah em Paris
Durante décadas, a indústria do luxo foi considerada um dos setores mais resilientes da economia global. Mesmo em momentos de crise, marcas tradicionais francesas continuaram registrando crescimento e preservando seu prestígio. Mas esse cenário começa a mudar. Para a jornalista Alexandra Farah, especialista em moda, sustentabilidade e comportamento, a Europa vive hoje uma verdadeira revolução industrial que está remodelando os rumos do setor. Maria Paula Carvalho, da RFI Em entrevista à RFI, Farah afirmou que a França ocupa posição de destaque nesse processo por liderar iniciativas voltadas à transparência, rastreabilidade e economia circular. Segundo ela, as novas exigências regulatórias prometem alterar profundamente a forma como roupas e acessórios são produzidos, vendidos e descartados. "A França está encabeçando esse movimento. Estamos no meio de uma revolução industrial baseada na transparência, na circularidade e em uma indústria mais moderna", resume. Entre as mudanças mais significativas está a criação do chamado passaporte digital do produto. A ferramenta permitirá que consumidores tenham acesso a informações detalhadas sobre a origem das peças, matérias-primas utilizadas, emissão de carbono e processos produtivos. A medida surge em um momento de questionamento crescente sobre os bastidores do mercado de luxo. Escândalos recentes envolvendo condições de produção e a enorme diferença entre custos de fabricação e preços finais ao consumidor contribuíram para desgastar a imagem de algumas grandes marcas. Farah observa que o setor ainda sente os efeitos do chamado revenge buying, fenômeno registrado após a pandemia, quando consumidores voltaram às compras de forma intensa após os períodos de confinamento. Agora, porém, os sinais apontam para desaceleração. "As marcas cresceram muito naquele período, mas hoje várias delas enfrentam queda nas vendas. Algumas registram recuos significativos em comparação com anos anteriores", afirma a jornalista, que já atuou em diversos veículos de comunicação, incluindo revistas, rádio e televisão. "A avenida Montaigne, endereço do luxo francês, está vazia", aponta. A pressão sobre a fast fashion Se o mercado de luxo enfrenta desafios, a moda ultrarrápida também está sob crescente escrutínio. Plataformas digitais capazes de lançar milhares de modelos por dia transformaram radicalmente o consumo de vestuário. Farah cita o caso da gigante chinesa Shein para ilustrar a velocidade inédita do setor. Segundo ela, algoritmos e inteligência artificial permitem testar pequenas quantidades de produtos e ampliar rapidamente a produção quando determinado item viraliza nas redes sociais. O impacto ambiental desse modelo preocupa reguladores europeus. A jornalista destaca que, durante muito tempo, a responsabilidade pelo consumo sustentável foi atribuída exclusivamente ao comprador. Agora, o foco começa a se deslocar para a cadeia produtiva. "Não adianta colocar toda a responsabilidade sobre o consumidor. As pessoas compram o que está disponível e acessível. A responsabilidade precisa recair também sobre quem produz e coloca esses produtos no mercado", defende. Na Europa, novas regras vêm sendo implementadas para monitorar não apenas roupas, mas também embalagens utilizadas pelos mais diversos setores da economia. A meta é reduzir o desperdício e tornar os processos mais transparentes. Moda reflete mudanças sociais Para Alexandra Farah, a moda nunca pode ser analisada isoladamente. As tendências de vestuário refletem transformações políticas, econômicas e culturais em escala global. Ela cita como exemplo o retorno de peças clássicas e de maior durabilidade, como os sapatos de couro, observado entre jovens consumidores na Europa após décadas de predominância dos tênis. O movimento, segundo ela, não está relacionado somente à busca por produtos mais duráveis, mas também reflete um contexto social marcado por comportamentos mais conservadores. "A moda responde ao que está acontecendo no mundo. Ela não é uma bolha", afirma. O olhar sobre o Brasil Ao comparar o cenário europeu com o brasileiro, Farah ressalta a diversidade regional do país e destaca características específicas do consumo nacional. Em sua avaliação, fatores como clima tropical e menor poder aquisitivo médio influenciam diretamente os hábitos de compra. "A gente não tem o mesmo perfil de consumo visto em países europeus. A gente gosta de corpo, pele, cabelo. O brasileiro tende a ter uma relação mais prática com a roupa", observa. Ela lembra que o Brasil possui uma cadeia têxtil completa, capaz de produzir desde a matéria-prima até o produto final. Apesar disso, enfrenta desafios próprios ligados à produção agrícola e à competitividade diante do avanço das plataformas internacionais de moda. Inteligência artificial e o futuro da indústria Além de acompanhar as transformações do mercado, Alexandra Farah trabalha atualmente em um novo livro dedicado aos bastidores da produção de moda. O projeto, desenvolvido em parceria com Ricardo Nascimento, um pesquisador baseado em Londres, busca traduzir para profissionais e consumidores as profundas mudanças em curso na indústria. A publicação abordará temas como inteligência artificial, rastreabilidade, novos materiais e circularidade. Segundo a jornalista, o desenvolvimento do livro levou anos justamente porque as transformações regulatórias e tecnológicas continuam acontecendo em ritmo acelerado. Hoje, afirma, ferramentas de inteligência artificial já são utilizadas em áreas como logística, design, pesquisa de tendências e reciclagem têxtil. "Estamos vivendo uma transição histórica. A inteligência artificial está presente em praticamente todas as etapas da cadeia da moda", diz. Para Farah, o futuro do setor dependerá da capacidade de equilibrar inovação tecnológica, responsabilidade ambiental e transparência. E, nessa corrida, a França aparece como um dos principais laboratórios mundiais das mudanças que deverão chegar em breve a outros mercados. "Quando a moda muda, ela está refletindo mudanças muito maiores que estão acontecendo na sociedade", conclui.
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Quarteto curitibano Terraplana realiza sua primeira turnê europeia e se apresenta em Paris
O grupo de rock alternativo Terraplana realiza neste mês sua primeira turnê europeia e se apresenta em Paris nesta quarta-feira (19), na sala Supersonic. Com dois álbuns de estúdio lançados, a banda de Curitiba, no Paraná, se consolida como um dos principais nomes da cena alternativa brasileira e conquista, cada vez mais, espaço no circuito internacional. Daniella Franco, da RFI Com duas datas em Portugal, uma em Londres, Dublin, Paris e Berlim, Terraplana apresenta ao público europeu uma amostra potente do rock alternativo brasileiro. Formada por Stéphani Heuczuk (voz e baixo), Vinícius Lourenço (voz e guitarra), Cassiano Kruchelski (voz e guitarra) e Wendeu Silverio (bateria), a banda não abre mão das letras em português e acredita no alcance do público por meio da força de sua atmosfera musical. “Eu acho que a gente tem um pouco de sorte de estar neste nicho de rock alternativo e shoegaze em que as pessoas não se conectam só com a letra, como acontece mais com a música pop”, afirma Vinícius Lourenço. “As pessoas que estão no show ouvem os álbuns em casa e procuram o significado das letras, exatamente como a gente faz com a música em inglês no Brasil”, explica. No ano passado, o site americano de música Stereogum colocou o segundo álbum do Terraplana, “Natural”, em uma lista dos dez melhores discos de shoegaze de 2025. A banda caiu no gosto da crítica americana depois de uma longa turnê nos Estados Unidos, que impulsionou a carreira internacional do quarteto. “Sempre foi uma vontade nossa conseguir tocar nos Estados Unidos e na Europa, porque os palcos de Londres, Paris, Dublin ou Los Angeles, Nova York são muito importantes para a história da música no geral”, reitera. Ainda assim, é com o público brasileiro que Terraplana encontra mais calor. “O Brasil é famoso por isso, então as pessoas que são nossos fãs lá são muito fãs. Na Europa e nos Estados Unidos, as pessoas são mais ‘na delas’, mais reservadas”, diz. “Mas é legal ver essa diferença de comportamento das pessoas em cada país.” O rótulo shoegaze Na imprensa nacional ou no exterior, Terraplana é majoritariamente descrita como uma banda de shoegaze, “que internacionalmente tem um teto muito mais alto do que no Brasil”. No entanto, as composições transitam entre vários gêneros introspectivos dentro do rock alternativo – como post-rock, indie, slowcore, dream-pop, entre outros. “Eu, pessoalmente, prefiro não estar definido somente como shoegaze porque não somos só isso. Pode ser que, no próximo álbum, as músicas não sejam tão shoegaze como foram no último”, diz. “Então eu prefiro que se refiram à gente mais como um grupo de rock alternativo do que nos colocarem numa caixa e a gente não conseguir sair mais disso”. De fato, com riffs que dialogam com a mítica Slowdive, mas também com outros grupos célebres do gênero, como Whirr e DIIV, conduzidos pela doce voz de Stéphani Heuczuk, Terraplana mescla diversos estilos sem a necessidade de se fixar em um rótulo. Na cena nacional, a banda também se destaca pela originalidade com que explora o rock alternativo, consolidando‑se como um dos projetos mais singulares desta vertente. Depois de um ano intenso de promoção e turnês de “Natural”, o quarteto pretende se dedicar a novas composições ao final da turnê europeia. Segundo Vinícius, novas faixas serão lançadas em breve em parceria com uma banda americana, antes de o grupo mergulhar no projeto de um terceiro disco.
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Élodie Bouny revisita legado de Baden Powell em álbum gravado com o último violão do mestre
A obra de Baden Powell ganha uma nova leitura nas mãos da violonista e compositora francesa Élodie Bouny. Com acesso a arquivos inéditos e ao último violão usado pelo compositor nos dez anos finais de sua vida, ela prepara 'Echoes of Baden Powell', álbum previsto para 2027. O projeto homenageia um dos maiores gênios da música brasileira com um toque de originalidade da instrumentista, profundamente influenciada pelos sons latino-americanos. Luiza Ramos, da RFI Em entrevista à RFI, a artista explicou o processo de pesquisa por trás do projeto e revelou como vem transformando manuscritos e rascunhos incompletos do mestre em novas peças para o disco. Essa investigação artística se deu graças à colaboração de Philippe Baden, filho de Baden Powell radicado na França, que forneceu os arquivos pessoais do pai, com esboços e obras que nunca chegaram a ser publicadas. “São centenas de páginas. Tem o manuscrito do ‘Berimbau’ (música lançada por Powell e Vinícius de Moraes em 1963), tem letras muito conhecidas, canções, um monte de coisa. (...) Dentro disso tem umas pérolas escondidas. Algumas peças inéditas que ele deixou. A maior parte delas é inacabada, então a gente vai ter que fazer esse trabalho de reorganização, de completar as músicas”, conta. O trabalho exigiu um verdadeiro esforço de reconstrução musical. Segundo a violonista, muitas vezes o material encontrado era fragmentário, exigindo pesquisa, interpretação e criação. “É uma forma de arqueologia musical, porque às vezes tem uma melodia só com os acordes, por exemplo, umas cifras, então, nesse caso, tenho que fazer um arranjo para violão. Ou às vezes tem só alguns elementos e a gente tem que decodificar aquilo e então restituir alguma coisa mais completa”, detalha a compositora. O violão queridinho de Baden Powell O projeto também tem uma dimensão emocional. As gravações serão realizadas com o último violão utilizado por Baden Powell. Um instrumento que ele adorava e com o qual ele registrou alguns dos trabalhos mais importantes de sua discografia: “Ele gravou dez anos de álbuns fundamentais nesse violão. Gravou ‘Tempo Feliz’, por exemplo. São discos referenciais para todos nós. É um violão extremamente valioso”, conta. “Foi uma loucura. Eu demorei semanas para conseguir tocar porque eu só olhava para ele, cheirava, observava. Esse violão tem muita história”, lembra Élodie, que já gravou três faixas solo com o instrumento do artista, entre elas ‘Ecos de Baden’, que ilustra esta entrevista no começo do áudio e do vídeo. Uma homenagem a Baden com a personalidade de Élodie O desafio, porém, não era apenas acessar esse patrimônio musical e simplesmente reproduzi-lo. Para Élodie, era preciso encontrar uma perspectiva própria sobre uma obra profundamente associada à identidade brasileira. Ela revela que precisou pensar em um conceito do álbum até achar um caminho próprio. “Qual é o diferencial de eu ser uma não-brasileira, mas também alguém de coração brasileiro, que conhece muito bem a música brasileira, interpretando um dos brasileiros mais importantes da história da música brasileira? Eu achei um caminho para o álbum ter a minha cara: compor uma peça para ele, chamar convidados para o projeto, justamente para trazer luzes diferentes sobre a obra dele. Por isso o nome também é ‘Ecos’... De que maneira o Baden fica ressoando até hoje no coração dos músicos, sejam eles brasileiros ou não”, diz a musicista. Além das obras inéditas de Baden Powell, Echoes of Baden reunirá peças emblemáticas do repertório do compositor e composições originais inspiradas em seu universo musical. O álbum contará ainda com participações internacionais, entre elas a clarinetista israelense Anat Cohen, o cavaquinhista brasileiro Matheus Donato e o gaitista belga Steven De Bruyn. Além do Phillippe, filho de Baden, que vai tocar piano em uma das faixas. Nascida em Caracas, de mãe boliviana e pai francês, e formada na França, Élodie viveu muitos anos no Rio de Janeiro, onde também fez um mestrado em música e trabalhou com seu ex-marido, o também violonista Yamandu Costa. A experiência na América Latina ajudou a moldar uma identidade artística marcada pelo trânsito entre culturas e linguagens musicais. “Essa multiculturalidade virou o que eu sou hoje como artista. Durante muito tempo eu tentei me identificar com algum desses países. (...) Fui explorando esse lado e percebi que todas essas influências me alimentavam e eu não precisava escolher apenas uma”, afirma Élodie. Legado de Baden Powell ressoa pelo mundo Para ela, o legado do compositor continua vivo justamente pela capacidade de atravessar fronteiras e influenciar músicos de diferentes gerações e origens. “O projeto é dizer o quanto ele continua ecoando na gente. Em mim e em todos os artistas brasileiros que eu conheço, o Baden tem uma importância grande. Ele começou a tocar e a compor e já estava mudando a história da música brasileira e da música do mundo. Eu acho que ele iria gostar dessa homenagem”, diz esperançosa. Previsto para o primeiro semestre de 2027, Echoes of Baden busca revelar a atualidade da obra de Baden Powell, mostrando como sua música continua inspirando artistas muito além das fronteiras brasileiras.
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Fundação Príncipe Albert II de Mônaco recompensa inovação brasileira de fios têxteis à base de algas
Um projeto brasileiro para a produção de fibras têxteis à base de algas marinhas acaba de ser recompensado pelo programa internacional Líderes do Futuro, promovido desde 2022 pela Fundação Príncipe Albert Segundo de Mônaco. A iniciativa brasileira visa contribuir para a transformação global do setor da moda, hoje um dos mais poluidores do planeta. A fabricação de fibras têxteis à base de algas no Brasil está sendo desenvolvida pela Phycolabs, startup sediada em São Paulo, fundada há quatro anos pela empresária Thamires Pontes, profissional com longa experiência na indústria têxtil que migrou para a biotecnologia e soluções climáticas relacionadas ao oceano. O projeto foi um dos dez selecionados este ano pelo programa Líderes do Futuro, promovido desde 2022 pela Fundação Príncipe Albert Segundo de Mônaco para recompensar projetos de jovens empreendedores engajados com a proteção do meio ambiente. Thamires é a segunda brasileira recompensada pelo programa do principado, depois de Ezequiel Vedana da Rosa, criador do produto inovador “Piipee”, em 2004. Durante um ano, a Phycolabs receberá acompanhamento da Fundação Príncipe Albert II de Mônaco e maior visibilidade internacional. Em entrevista à RFI, a empreendedora considera o reconhecimento do Líderes do Futuro um marco importante, especialmente por vir de uma instituição com forte atuação na proteção ambiental e dos oceanos. Segundo a CEO da Phycolabs, a premiação amplia a credibilidade e abre portas para uma rede de contatos internacionais de alto nível. A iniciativa já havia sido reconhecida por importantes organizações do setor da moda, mas a “validação da Fundação para a Phycolabs é indispensável nesse setor” de proteção do meio-ambiente. A startup trabalha com comunidades costeiras brasileiras para desenvolver uma biotecnologia sustentável voltada à indústria têxtil. O setor da moda responde por cerca de 10% das emissões globais de gases de efeito estufa, 24% de pesticidas e inseticidas no ar e 35% dos microplásticos nos oceanos. O projeto ainda está em fase de desenvolvimento e os fios à base de algas ainda não estão disponíveis no mercado. Algas como matéria-prima A empreendedora explica que os impactos ambientais da indústria têxtil estão presentes em toda a cadeia produtiva, do cultivo das matérias-primas ao descarte das roupas. A ideia dos fios à base de algas surgiu durante seu mestrado na USP, após mais de uma década trabalhando no setor. "Quanto mais eu conhecia a indústria têxtil a fundo, mais eu fui ficando frustrada e comecei a pensar quais poderiam ser as soluções." Segundo Thamires, as algas são uma matéria-prima estratégica porque apresentam uma das maiores taxas de crescimento do planeta e podem acompanhar a escala de consumo exigida pela indústria têxtil. Ela destaca que o cultivo dessa biomassa não compete com terras agrícolas e tem rápida capacidade de regeneração. "Se a gente quer uma alternativa para uma indústria que consome muito, a gente precisa de um recurso natural que seja capaz de acompanhar esse consumo." Para cultivar algas, são necessários apenas água do mar, luz solar e CO₂. Além disso, elas não exigem pesticidas ou inseticidas, ajudam a absorver gases de efeito estufa e favorecem a biodiversidade marinha. Thamires ressalta que as algas podem ser utilizadas não apenas para tecidos, mas também para alimentação humana, animal e outros bioprodutos. Desafios tecnológicos A Phycolabs trabalha atualmente no aprimoramento das propriedades dos fios, como resistência, acabamento, tingimento e compatibilidade com a infraestrutura já utilizada pela indústria. Um dos maiores desafios é fazer com que os novos materiais possam ser processados nos maquinários existentes, facilitando sua adoção em larga escala. A fundadora da startup observa um interesse crescente da indústria da moda, impulsionado por novas regulamentações ambientais, sobretudo na Europa, e por consumidores cada vez mais atentos à sustentabilidade. A tecnologia está sendo desenvolvida inicialmente para roupas, mas poderá futuramente ser aplicada também a calçados, bolsas e acessórios. Como ainda está em desenvolvimento, o material tem custo superior ao das fibras convencionais. A expectativa é que os preços diminuam conforme a produção aumente. A estratégia inicial da Phycolabs é atuar no segmento de luxo e junto a grandes marcas, que demandam menores volumes e valorizam a inovação e a sustentabilidade dos materiais. Thamires revela que grandes marcas, brasileiras e internacionais, já se interessaram pelo novo produto, e diz que em breve os consumidores poderão vestir uma camisa de fibra à base de alga. Parceria com comunidades costeiras A empresa mapeia produtores de algas em diferentes regiões do Brasil e trabalha com comunidades costeiras, especialmente nos estados do Rio de Janeiro e Santa Catarina. Nos testes mais recentes, a biomassa foi adquirida de uma produtora localizada na Ilha Grande, no município litorâneo de Angra dos Reis (RJ). Segundo Thamires, o cultivo de algas pode criar novas fontes de renda para pescadores e comunidades locais, especialmente em períodos de baixa atividade pesqueira ou turística. Apesar dos desafios, Thamires acredita que a transformação da indústria da moda é possível e que novos biomateriais terão papel central nesse processo. "É por isso que eu acordo todos os dias. Eu acredito, do fundo do meu coração, que sim, vai haver essa mudança." Para ela, o mercado, os consumidores e as empresas já estão se movendo em direção a soluções mais sustentáveis, abrindo espaço para uma nova geração de materiais capazes de reduzir os impactos ambientais da moda.
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Clarinetista cearense leva ritmos brasileiros para concertos e conservatórios da França
Há duas décadas, uma oportunidade de estudos levou o clarinetista Alison Pereira a trocar Fortaleza pelos Alpes franceses. Hoje, radicado na região da Savoia, no sudeste da França, o músico atua como professor, diretor de orquestra e divulgador da música brasileira em conservatórios e festivais europeus. Ele acaba de participar do tradicional Festival de Violoncelos de Briançon, cidade onde estudou na juventude. Luiza Ramos, da RFI em Paris A história começou em 2006, quando Alison foi selecionado para participar do projeto "Tempo de Brasil", criado em Briançon pelo violoncelista Fernando Lima. Na época, ele já tocava em orquestras em Fortaleza e buscava novos desafios profissionais. “Eu estava no Brasil, em Fortaleza, e recebi uma ligação de um professor da universidade me contando que havia um projeto começando em Briançon. Eles estavam procurando estudantes brasileiros com um certo nível para fazer um curso intensivo no Conservatório du Briançonnais”, relembra. Selecionado após um processo que incluía o envio de currículo e de vídeos tocando clarinete, ele desembarcou na França acompanhado de outros dois músicos brasileiros selecionados. O que seria inicialmente um intercâmbio acabou mudando o rumo de sua vida. A ligação com Briançon permanece forte. Além de trabalhar em eventos culturais da cidade, Alison construiu ali uma família e uma rede de amigos. Formação clássica com raízes brasileiras Apesar de ter seguido uma formação voltada para a música clássica em conservatórios de Briançon, Lyon e Paris, o músico nunca deixou de lado suas raízes brasileiras. O choro, a bossa nova e o samba continuam presentes em seu trabalho pedagógico e artístico. “Sempre tive um pé na música popular brasileira. Toco pandeiro, bateria, violão e o que mais puder fazer batucada”, brinca. “A música brasileira é a minha especialidade maior. Essa influência sempre aparece nos meus trabalhos, seja como diretor musical de orquestra sinfônica, banda de música na região da Savoia – onde eu tenho projetos que são ligados à música brasileira – ou em intervenções em conservatórios por toda a França”, diz Alison Pereira. Música do Brasil enriquece o ensino europeu O clarinetista diz que sempre que possível adiciona a riqueza rítmica e melódica das composições brasileiras no repertório de seus alunos, pois, segundo ele, representa um importante complemento para a formação dos estudantes europeus. “A música brasileira enriquece muito o aluno porque tem muita nota, muito ritmo e coisas interessantes musicalmente falando”, aponta. “Compositores brasileiros fazem parte da história da música. Nossa Bossa Nova, por exemplo, tem influências do impressionismo francês de Claude Debussy e Maurice Ravel. Quando apresentamos esse repertório em exames nos conservatórios, os júris e colegas professores ficam impressionados com a 'cor' e o ritmo, que soam exóticos sem perder nada em dificuldade técnica”, afirma. Atualmente, Alison divide seu tempo entre aulas, apresentações e projetos musicais em diferentes países europeus. No fim de agosto, ele ministrará uma oficina de clarinete em Autrans-Méaudre en Vercors com alunos da França e da Bélgica. Dirigida por ele, Orquestra Sinfônica de Pays d'Arlysère, na região da Savoia, fará um concerto de Natal no fim de semana de 12 e 13 de dezembro. E além disso, o músico tem a agenda lotada de projetos diferentes até 2028. Ele costuma publicar suas apresentações nas redes sociais. Aos jovens brasileiros que sonham em seguir uma carreira internacional na música, Alison Pereira deixa uma mensagem de perseverança: “O conselho que dou é que tenham confiança em si e sejam sérios nos estudos. Cada minuto que passamos estudando se 'paga' depois, não é tempo perdido. Quem tiver a oportunidade de vir estudar aqui, que aproveite bem”, aconselha o clarinetista.
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Filme pernambucano 'A Margem do Rio' leva o Brasil à competição principal do Festival de Locarno
O Festival de Locarno, na Suíça, um dos mais importantes eventos do cinema independente no mundo, começa nesta quarta-feira (5) e tem um filme brasileiro na disputa. O longa “A Margem do Rio”, codirigido e escrito por Enock Carvalho e Matheus Farias, compete ao Leopardo de Ouro, o prêmio máximo da mostra. Os dois diretores representam o cinema pernambucano, que tem acumulado conquistas no Brasil e no mundo. “A Margem do Rio” é o primeiro longa da dupla, que já realizou três curtas-metragens, premiados em vários festivais internacionais. Eles tinham acabado de finalizar o filme, rodado em 2025, e a seleção para o 79º Festival de Cinema de Locarno foi uma surpresa, conta Enock Carvalho em entrevista à RFI. “Para a gente, esse é um festival que representa um berço do cinema de autor. Muitos grandes cineastas já passaram pela competição de Locarno e foram descobertos dentro desse festival, que inspira também a gente desde sempre. Ficamos muito felizes e, sendo o único filme brasileiro na competição, essa chance de apresentar ele para o mundo foi uma ótima notícia”, ressalta. Em seus 80 anos de existência, Locarno sempre acolheu e acolhe o cinema de autor brasileiro. Mas, se vencer, “A Margem do Rio” será a terceira obra brasileira na história a receber o Leopardo de Ouro, depois de “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, em 1967, e “Regra 34”, de Julia Murat, em 2022. “Saber que existe essa possibilidade cria um certo frio na barriga. Mas eu estou desde já muito empolgado com a participação do filme na competição oficial. Independentemente de prêmio, eu tenho muito orgulho por estar representando Pernambuco e o Brasil nessa mostra”, diz Enock Carvalho. Estreia mundial Ao todo, 17 filmes, de vários países, estão na competição oficial do festival suíço. A estreia mundial de “A Margem do Rio” acontece em 11 de agosto. O longa, coproduzido pela Alemanha, é estrelado por Caique Copque e Ítalo Martins. O filme acompanha as aventuras secretas e noturnas de Izaquiel, um auxiliar de serviços gerais no Recife, pelos manguezais da cidade. Seu mundo vira de cabeça para baixo quando ele cruza o caminho de Jeremias, um pescador intrigante e magnético. O encontro provoca no personagem “uma sensação muito única de desejo e de paixão. E aí, eles se veem em uma situação de muito perigo e violência”, revela o cineasta. A obra é um drama, um thriller e um filme queer, como outros trabalhos da dupla. Segundo Enock Carvalho, “A Margem do Rio” é um longa “muito pernambucano, muito brasileiro, porque reflete muito o Brasil contemporâneo e é uma história com um pé muito profundo na realidade”. Cinema pernambucano Ambientado no Recife, o longa tem também um clima de mistério e suspense, como vários filmes do premiado diretor Kleber Mendonça Filho, com quem, aliás, Enock Carvalho e Matheus Farias já colaboraram em várias produções. Carvalho reconhece que o trabalho do diretor de “O Agente Secreto” influenciou e influencia o cinema da dupla. “Naturalmente, eu sinto que há uma contaminação muito positiva de energia e de tom também. Os filmes do Kleber inevitavelmente acompanham a nossa formação enquanto cineastas. E o contato com as obras do Kleber e de outros cineastas pernambucanos faz com que a gente tenha a pulsão para criar e para realizar nossos filmes. Eu acho que é uma coisa que está superconectada”, afirma Enock, salientando sua alegria de fazer parte desse movimento cinematográfico pernambucano que ganha cada vez mais visibilidade no exterior. Outros filmes brasileiros em Locarno Além de “A Margem do Rio”, o longa Hanabi, da brasileira Ana Vaz, também foi selecionado para a mostra “Cineastas do Presente” do Festival de Locarno. A produção franco-brasileira foi rodada durante 10 anos no Japão e aborda a transformação do país após o tsunami e o acidente nuclear de 2011. Duas coproduções brasileiras também foram selecionadas. O argentino “Los Días Libres”, de Lucila Mariani, também integra a mostra “Cineastas do Presente”. Já “Piper Tiger”, o último longa do veterano cineasta independente americano James Gray, foi programado para as exibições ao ar livre na Piazza Grande de Locarno, a marca registrada do festival. O filme, produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira, será exibido no domingo, 9 de agosto. Antes da projeção, James Gray recebe um Leopardo de Ouro pelo conjunto de sua obra. O Festival Internacional de Cinema de Locarno, na Suíça, vai até 15 de agosto. Clique no player acima para ouvir a entrevista completa de Enock Carvalho.
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Cantora Bruna Hetzel leva músicas do nordeste brasileiro aos clubes de jazz de Paris
Radicada na França desde 2022, a cantora potiguar Bruna Hetzel tem conquistado espaço em festivais e casas de jazz parisienses com um repertório que mistura MPB, influências nordestinas e o estilo gênero norte-americano. A artista, que também é antropóloga, falou sobre como suas origens no Rio Grande do Norte moldam sua identidade musical, sobre o desafio de apresentar a riqueza cultural brasileira ao público europeu e sobre seus novos projetos em Paris. Luiza Ramos, da RFI em Paris Natural de Natal, no Rio Grande do Norte, Bruna Hetzel chegou à França há três anos. A mudança, motivada inicialmente por uma questão pessoal, acabou se transformando em uma nova etapa de sua carreira artística. A estreia internacional do trabalho aconteceu justamente em território francês. Primeiro em Nantes, onde iniciou parcerias com músicos locais e participou de festivais regionais, e depois em Paris, onde passou a se apresentar regularmente em clubes de jazz e espaços culturais. Mas a música é apenas uma das vertentes de sua trajetória. Formada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Bruna também atua como antropóloga, pesquisadora vocal e professora de canto. Segundo ela, essas experiências se refletem diretamente na sua carreira artística: “Todas essas áreas acabam influenciando e reverberando muito no meu trabalho”. Diferença de público entre Brasil e França A experiência de cantar na França também modificou sua relação com o palco. Segundo Bruna, o comportamento do público francês é bastante diferente daquele encontrado no Brasil. “Nós somos um povo bastante festivo, e as pessoas querem cantar junto, o corpo dança junto”, relata. Já nos clubes de jazz franceses, a artista destaca a atenção dedicada à escuta. Nesse contexto, ela conta que sua formação em antropologia ganha ainda mais relevância. Antes de cada canção, ela costuma contextualizar a obra, apresentar seus autores e explicar as referências culturais presentes nas letras. “Eles gostam de ouvir histórias”, afirma. “Mesmo que não entendam tudo o que a gente está cantando em português, ficam encantados em ouvir o contexto, fecham os olhos e mergulham naquela realidade”, descreve Bruna. Nordeste como identidade artística Bruna destaca que a cultura nordestina ocupa um espaço central em sua produção artística e busca ampliar a visibilidade de uma região frequentemente ofuscada pela imagem internacional concentrada no eixo Rio-São Paulo. “O Nordeste é uma região importantíssima para o nosso país. Culturalmente, muito do que a gente ouve na nossa música, na culinária brasileira, na cultura brasileira como um todo, vem do Nordeste”, afirma. Segundo a cantora, quem ouve sua música encontra não apenas influências rítmicas nordestinas, mas também elementos da paisagem, das cores e da atmosfera cultural do litoral potiguar. Como no clipe da música "Canto do Mar", do seu álbum "Canto Azul". Lançado para celebrar seus dez anos de carreira, "Canto Azul" sintetiza essa busca por representar diferentes dimensões da música brasileira. O repertório reúne referências consagradas como Dorival Caymmi, Djavan, Joyce Moreno e Ivan Lins, além de compositores ligados ao Nordeste e de canções autorais. Nova jam brasileira em Paris Entre os projetos para os próximos meses, a cantora prepara uma iniciativa inédita em uma das mais tradicionais casas de jazz da capital francesa. Bruna foi convidada para coordenar uma jam session dedicada à música brasileira no Sunset Sunside, referência da cena jazzística parisiense, localizada na histórica Rue des Lombards. "Estou tendo a grande alegria de colaborar com o Sunset Sunside e vou coordenar esse projeto, que é uma jam session de música brasileira", celebra a artista. A primeira edição está prevista para 20 de setembro e será dedicada à obra de Chico Buarque. Além da nova jam session, a agenda da cantora inclui apresentações em festivais de verão na região parisiense, como Estivales Montrougiennes, no dia 4 de agosto, ao lado do músico francês Hugo Corbin, em uma homenagem à Bossa Nova.
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Em turnê europeia no teatro, Pedro Cardoso revela projetos de revisitar Agostinho Carrara na TV
Em turnê por cidades europeias com o monólogo "O Recém-Nascido", o ator e dramaturgo Pedro Cardoso usa o humor para abordar temas políticos e sociais. Em entrevista à RFI, o criador de personagens marcantes da televisão brasileira, como Agostinho Carrara, explicou que a peça nasceu de uma tentativa de compreender as origens do fascismo e do autoritarismo no Brasil. Para ele, certos comportamentos observados na política refletem impulsos infantis mal resolvidos que persistem na vida adulta. Luiza Ramos, da RFI em Paris Conhecido pelo trabalho na televisão e por suas opiniões políticas nas redes sociais, Pedro Cardoso afirma que o teatro continua sendo seu principal espaço de criação artística. Em sua nova turnê europeia, ele apresenta "O Recém-Nascido", uma “comédia filosófica” construída a partir de uma pergunta inusitada: o que aconteceria se uma pessoa fosse capaz de se lembrar do próprio nascimento? Segundo o ator, a peça faz parte de um conjunto de reflexões iniciadas em trabalhos anteriores sobre a ascensão do autoritarismo no Brasil. “Eu escrevi dois espetáculos de teatro, um que se chamava ‘À Sombra do Pai’ e esse outro, ‘O Recém-Nascido’, que são tentativas de reflexão a respeito da gênese desse fascismo no Brasil”, explica. A ideia surgiu da observação de comportamentos políticos que lhe pareciam contraditórios. “Um dos aspectos que me espantava era ouvir pessoas dizerem: ‘Eles parecem umas crianças mimadas’. Aí eu percebi que havia uma dramaturgia interessante nisso, que era essa sobrevivência dos impulsos infantis dentro do homem adulto”, diz o ator. Para Cardoso, o humor é uma ferramenta privilegiada para abordar questões complexas. Embora frequentemente seja visto como uma forma de expressão menor em comparação ao discurso acadêmico, ele acredita que a comicidade tem um papel essencial na compreensão da realidade. “O humor é muito desprestigiado culturalmente. O modo de saber que tem valor cultural é o modo acadêmico, a intelectualidade, a erudição. E o humor é sempre considerado uma expressão popular. Historicamente, o humor foi retirado das esferas de poder e o poder passou a ser representado sempre pelo aspecto sério e cerimonioso das relações”, contextualiza. “O humor e o aspecto sério dos acontecimentos da vida são complementares.” ‘O Recém-Nascido’ reflete diferenças da infância no Brasil e na Europa Embora o espetáculo dialogue com a realidade política brasileira, Cardoso diz que "O Recém-Nascido" é também sua primeira peça profundamente inspirada pela experiência de viver parte do seu tempo na Europa. “Eu diria que é a primeira peça que eu escrevi sobre a Europa”, conta. “É muito sobre essa criança europeia que tem a sua infância abreviada e que é obrigada a ser um adulto antes de estar pronta para ser um adulto.” Na visão do dramaturgo, a forma como as crianças são criadas em diferentes sociedades ajuda a moldar comportamentos na vida adulta. Segundo ele, a história social europeia produziu uma relação distinta com a infância. “Na Europa, os adultos precipitam o fim da infância porque são eles que têm que tomar conta da criança. Eu acho que isso tem um preço altíssimo para a psicologia da pessoa”, avalia. Teatro como ponto de encontro dos brasileiros A recepção do espetáculo fora do Brasil também surpreendeu o ator. O que ele imaginava ser apenas uma circulação internacional de seu monólogo acabou se transformando em um encontro com comunidades brasileiras espalhadas pelo continente. “Quando eu fui fazer a peça em Barcelona, aconteceu uma coisa que eu não imaginava. Tornou-se uma reunião comemorativa do Brasil”, relata. A experiência levou o ator a redefinir o sentido da própria turnê. “Isso não é uma turnê internacional, isso é uma turnê nacional. Eu não vou jouer en français (atuar em francês), eu vou atuar em português", brinca. “Adoraria um dia fazer uma peça em francês, espanhol e inglês. Mas me agrada, no momento, recolher essas almas brasileiras espalhadas pelo mundo. Há uma diáspora brasileira”, diz Pedro Cardoso. Agostinho Carrara pode voltar Apesar da distância da televisão nos últimos anos, Cardoso revelou que existem conversas em andamento para revisitar Agostinho Carrara, personagem que marcou gerações na sitcom "A Grande Família". Segundo ele, a ideia discutida ao lado dos diretores e roteiristas Guel Arraes e Jorge Furtado seria imaginar como estaria o personagem nos dias atuais. “A gente queria fazer um pulo no futuro do Agostinho”, conta. “Qual é a família brasileira hoje que não é mais aquela de ‘A Grande Família’? Tem uma nova família a ser retratada. E seria também uma forma de recuperar a alegria do personagem. Era realmente um personagem muito brasileiro, muito Macunaíma”, recorda. O projeto ainda está em fase de negociação, mas o ator demonstra otimismo. “Há interesse lá da Globo, há interesse nosso, já há uma conversa adiantada e as coisas estão indo bastante bem”, afirma. Leia tambémSucesso da televisão brasileira, Avenida Brasil estreia na França
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Brasileira cria produto inovador semelhante ao chocolate e dá nova vida a resíduos agrícolas
Ninna Granucci é uma brasileira radicada na França que vem chamando a atenção por transformar resíduos da agricultura em ingredientes alimentares de alto valor agregado. Cofundadora e presidente da Green Spot Technologies, a doutora em biotecnologia criou, em 2018, esta empresa de produtos em pó que podem substituir o chocolate, entre outros alimentos, com o objetivo de solucionar o grande volume de desperdício de alimentos gerado pela agricultura no mundo. Seu trabalho lhe rendeu o Prêmio Europeu de Mulheres Inovadoras em 2022 e o de Pioneira na Ciência e Tecnologia da Iniciativa para Mulheres da Fundação Cartier em 2024. Vitória Barreto, em Paris para a RFI A Green Spot, instalada em Toulouse, no sul do país, desenvolveu um processo de fermentação que transforma resíduos agrícolas em ingredientes nutritivos e benéficos à saúde, que podem ser alternativas ao chocolate e pastas de diversos sabores. Depois de concluir o mestrado em biotecnologia em Santa Catarina, Ninna Granucci foi fazer um doutorado na Nova Zelândia para desenvolver o projeto; lá, conheceu seus cofundadores, que a convenceram a abrir a empresa na França. A iniciativa atraiu investidores como o Banco Público de Investimento francês (BPI), entre outros, como recorda a empreendedora. “Vimos um grande interesse da França como país em pensar a alimentação do futuro e o sistema de produção de alimentos. Entramos nas áreas de interesse do país e recebemos bastante investimento público.” No caso do produto semelhante ao chocolate, a produção do ingrediente começa com a coleta de favas, cujos resíduos costumam ser descartados ou usados para nutrição animal e produção de energia. Na sequência, esses restos passam por um processo de fermentação, que Ninna considera ‘mágico’. Ela explica que o método “retira o gosto meio amargo (do resíduo) e cria aromas quentes, que remetem ao aroma do chocolate”. O resultado desse processo é o Féverolat, produto que a empresa patenteou. Há três semanas, as trufas feitas com esse ingrediente inovador já fizeram parte de um jantar no Castelo de Windsor. Embora a Green Spot não produza apenas doces, a empresa aproveitou a volatilidade do mercado de cacau para criar a marca de panificação e doces Milatea para atender às necessidades desse setor específico. “O mercado era muito favorável, porque o preço do cacau disparou em 2025. (...) E aí a gente falou que a nossa tecnologia poderia resolver em parte isso.” Ao lançar o produto, Ninna afirma que sentiu muita resistência da indústria, que demora, segundo ela, anos para aceitar um novo ingrediente. “Somos uma empresa tecnológica de fermentação e, normalmente, quando falamos com algumas empresas de alimentos, elas acham que vai ser uma coisa meio Frankenstein de laboratório. Então criamos a Milatea para poder comercializar esses ingredientes,” explica Ninna Granucci. A empreendedora brasileira revelou que, no fim do ano, um novo produto está por vir, ainda sem mencionar o novo sabor, mas adiantando que ele é ‘primo' do chocolate, um produto de preço extremamente volátil e produzido em regiões muito específicas, nas quais a empresa acredita poder contribuir para dar mais sustentabilidade.
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'Pela primeira vez, as novas gerações poderão estar livres do HIV', comemora Roseli Tardelli
Na década de 1990, a jornalista Roseli Tardelli perdeu um irmão para a Aids. Ela recorreu à Justiça e ganhou o direito à cobertura do tratamento pelo plano de saúde. Desde então, engajou-se na luta contra o HIV. Fundadora da Agência de Notícias da Aids, ela participa, nesta semana, da 26ª Conferência Internacional de Aids, que ocorre no Rio de Janeiro até sexta-feira (31). Vivian Oswald, correspondente da RFI no Rio de Janeiro Esta é a primeira vez que a América Latina e o Brasil sediam uma conferência internacional desse porte para falar sobre HIV e Aids. Em entrevista à RFI, Roseli Tardelli aponta os avanços já anunciados e o que é possível esperar até o final do evento. RFI : Como você avalia os debates até agora? Roseli Tardelli : Do ponto de vista político, o fato de a conferência acontecer na América Latina talvez proporcione um novo olhar para a nossa região, o que é muito importante. O Brasil construiu, ao longo dessas quatro décadas, uma resposta bastante significativa quando falamos de HIV e Aids. Mas isso já não acontece em países como o Paraguai e o Peru. Precisamos ter uma resposta mais homogênea em nossa região. Além disso, é a primeira vez que uma mulher preside a conferência: a doutora Beatriz Grinsztejn, uma pesquisadora muito importante da Fiocruz. A equipe da Fiocruz foi responsável pela pesquisa da PrEP (profilaxia pré-exposição). RFI : O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, disse que o Brasil não aceitaria pagar valores estratosféricos por medicamentos. RT : O valor estratosférico ao qual o ministro se refere, trata-se, basicamente, de um medicamento chamado Lenacapavir. É uma medicação na qual, ao tomar a injeção a cada seis meses, o vírus não entra na corrente sanguínea. Ou seja, pela primeira vez, o mundo tem a possibilidade de quebrar a transmissão do vírus. Isso é muito importante. Só que está sendo difícil para o Ministério da Saúde trazer o Lenacapavir para o SUS porque, segundo o ministro, as negociações precisam continuar, pois os preços que a empresa – no caso, a Gilead – quer cobrar são estratosféricos. É preciso chegar a um preço compatível com o orçamento do governo brasileiro. RFI : O Brasil é um mercado grande e pode servir de bússola na América Latina? RT : Essa é a ideia. Não só na América Latina, como no mundo. Eliminar a transmissão sexual do HIV em um país que possui o SUS mostra ao mundo que é possível. Há outra medicação chamada Cabotegravir, da GSK. O Ministério da Saúde anunciou a compra e a solicitação de inclusão no SUS a partir deste mês, prevendo a distribuição até o final do ano. Foi o que o ministro falou em coletiva [de imprensa]. Essa capilaridade que o SUS traz é muito importante, pois o Brasil já oferece, desde 1996, antirretrovirais que impediram que as pessoas morressem. Eu assumi essa tarefa de trabalhar com informação, conectando-a à prevenção, porque perdi um irmão na década de 1990. Naquele momento, os planos de saúde não atendiam pessoas que viviam com HIV e Aids. Nossa família protagonizou uma discussão pública com o convênio, entramos na Justiça e a mídia foi nossa parceira. A Justiça, que nem sempre é tão justa, foi rápida conosco: ganhamos em primeira instância, eles recorreram, ganhamos em segunda instância e virou jurisprudência em 1996. O presidente Fernando Henrique Cardoso assinou uma legislação determinando que os planos deveriam atender doenças pré-existentes. Por isso estou nessa luta desde então. Fundamos a agência em 2003 e estamos aqui cobrindo esta conferência. RFI : O que significa ter uma medicação profilática? RT : Significa que as novas gerações poderão estar livres do HIV. Isso é maravilhoso. Foi uma chance que a minha família não teve, que muita gente não teve. Temos um índice de 42 milhões de pessoas vivendo com HIV hoje no mundo. É muita coisa. Uma pandemia que existe há 45 anos. Está na hora de quebrar a cadeia de transmissibilidade do vírus, e nós temos essa condição com novas medicações. Esses medicamentos precisam chegar às populações mais vulneráveis. Vou arriscar dizer uma coisa: todo mundo que faz sexo é vulnerável ao HIV. Tenho poucas amigas que usam camisinha, as mulheres principalmente. Na cidade de São Paulo, temos máquinas em cinco estações do metrô que fazem a dispensação de profilaxias pré e pós-exposição. Isso também está no SUS. Se você teve uma relação desprotegida e acha que pode ter contraído o HIV, tem até 72 horas para procurar um local específico de saúde. O Ministério da Saúde tem uma página que indica todos os lugares do Brasil onde encontrar a profilaxia pós-exposição. É importantíssimo que as pessoas saibam disso. Quando chegarem essas novas medicações injetáveis de profilaxia pré-exposição, será um avanço muito importante. RFI : Esse é outro obstáculo: ter que dizer que está procurando o remédio. RT : Estamos falando de tecnologias novas no século XXI. Mostramos tudo isso aqui na conferência. É muito interessante a evolução tecnológica, mas o que não evolui na mesma velocidade é o enfrentamento ao estigma e à discriminação. As pessoas que vivem com o vírus, infelizmente, ainda sofrem muito estigma e discriminação. Para quebrar isso, temos que falar mais sobre o fato de que somos todos vulneráveis: mulheres, homens, a população envelhecida. Esses medicamentos precisam chegar onde são necessários. Temos agora essa pílula com um mês de duração, e a Merck assinou esse memorando de intenções hoje com o Ministério da Saúde. Então, acredito que, até o final do ano ou o ano que vem, o Brasil estará novamente na ponta quando falamos de prevenção. Isso é fundamental para que as novas gerações não precisem vivenciar a tristeza e a dor. A falta de acolhimento ainda existe no mundo, quando falamos de uma doença que não tem cura, mas tem prevenção. RFI : A Fiocruz firmou uma parceria com a farmacêutica para produzir nacionalmente. Talvez isso ajude a baixar os preços? RT : O Brasil pode ser um polo e distribuir para a América Latina e América Central. Para nossa sorte, a doutora Mariângela Simão, que foi vice-presidente da Organização Mundial da Saúde e coordenou a ação de dispensação de vacinas durante a Covid, esteve no Ministério da Saúde até este mês. O Brasil construiu uma resposta bastante significativa, e ela precisa ser mantida e ampliada. Saúde não se faz com negacionismo, saúde se faz com ciência. Agora, em relação a essa questão, o que quero trazer para nossa reflexão é: gente, vamos falar mais sobre sexualidade e respeitar a sexualidade e a orientação sexual dos filhos.
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Alianças começam a definir a disputa presidencial no Brasil, avalia cientista político Gaspard Estrada
A poucos dias do encerramento do prazo para a oficialização das candidaturas às eleições de outubro no Brasil, as negociações para a formação de chapas e alianças entram em sua fase decisiva. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva amplia sua capacidade de reunir apoios políticos, sobretudo no campo da esquerda, o campo conservador enfrenta dificuldades para consolidar uma frente unificada em torno de Flávio Bolsonaro. Para o cientista político Gaspard Estrada, da London School of Economics, o cenário da disputa começa a se desenhar. Passada a fase das articulações de bastidores, a campanha entra agora em um momento de maior atenção por parte do eleitorado. Na avaliação de Estrada, as pesquisas refletem uma vantagem de Lula que se traduz também na capacidade de agregar apoios. “As pesquisas já estão mostrando justamente uma vantagem para o presidente”, afirma. Segundo ele, enquanto o chefe de Estado consegue unificar forças à esquerda, Flávio Bolsonaro encontra dificuldades para atrair os partidos de direita em torno de sua candidatura. Essa dificuldade se manifesta em um contexto de divisões cada vez mais visíveis no campo conservador. Para o cientista político, recompor a direita será a principal missão de Flávio Bolsonaro nas próximas semanas. Estrada observa que o senador tenta construir uma imagem mais moderada, mas que as denúncias envolvendo seu nome, como as relações com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, acabam produzindo dúvidas entre lideranças e partidos aliados. “Essas revelações, essas denúncias, elas estão revelando a verdadeira face do Flávio Bolsonaro, que é muito similar à do pai”, avalia. O resultado, segundo o especialista, é um crescimento da desconfiança sobre o futuro político do candidato e uma tendência de setores da direita a optarem pela neutralidade. Além das dificuldades nacionais, fatores locais também pesam nas negociações. Estrada destaca que lideranças partidárias estão cada vez mais condicionadas às realidades eleitorais de seus estados, o que nem sempre coincide com os interesses de uma candidatura presidencial. Ele cita como exemplo o caso de Ciro Nogueira, no Piauí, onde a necessidade de dialogar com eleitores historicamente ligados a Lula influencia os cálculos políticos. Para o pesquisador, essas “lógicas estaduais” acabam se tornando um obstáculo adicional ao projeto de Flávio Bolsonaro. Eleição mais competitiva Do lado governista, a construção dos palanques regionais avançou mais lentamente do que em disputas anteriores. Para Estrada, isso é um sinal de uma eleição mais competitiva. Embora reconheça que a disputa pelo governo de São Paulo permaneça desfavorável ao campo lulista, ele relativiza o impacto dessa situação, lembrando que o eleitor brasileiro já demonstrou, em outras eleições, disposição para dividir o voto entre candidatos de correntes políticas distintas. “Essa fórmula de o eleitor votar por candidatos de cores partidárias diferentes não é uma coisa nova no cenário político brasileiro”, observa. Na leitura do especialista, a situação mais delicada para Lula não está necessariamente em São Paulo. Enquanto o presidente já conta com uma estrutura política mais consolidada naquele estado, Minas Gerais continua cercada de indefinições. “O quadro mais preocupante para o presidente Lula hoje é em Minas”, afirma Estrada, ressaltando que o cenário mineiro permanece aberto tanto para o campo governista quanto para a oposição. O cientista político também chama atenção para a possibilidade de influência externa na disputa brasileira. Em sua avaliação, o governo dos Estados Unidos já demonstrou disposição para interferir no processo eleitoral e deve continuar atuando até a votação. Mais do que iniciativas oficiais, porém, ele aponta o papel das plataformas digitais como principal foco de preocupação. Estrada lembra episódios ocorridos em outros países da região, marcados pela circulação massiva de desinformação, e alerta para o risco de fenômeno semelhante no Brasil. Nesse contexto, defende, caberá à imprensa reagir rapidamente para identificar e contextualizar eventuais campanhas de notícias falsas capazes de afetar o debate eleitoral.
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Universidade de Coimbra reforça presença no Brasil e aposta em inovação com empresas e Fiocruz
A Universidade de Coimbra vai ampliar sua atuação no Brasil com a abertura de uma representação própria em São Paulo, prevista para os próximos meses. Mais do que reforçar a captação de estudantes brasileiros, a instituição portuguesa pretende aproximar sua produção científica do setor empresarial e ampliar projetos de inovação e transferência de conhecimento, a exemplo da parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Luiza Ramos, da RFI em Paris O vice-reitor para Inovação, Relação com Empresas e Empregabilidade da Universidade de Coimbra, Nuno Mendonça, afirmou à RFI que a iniciativa representa uma nova etapa da presença da universidade no país, voltada para o setor industrial e empresarial do Brasil. “Já temos um centro de estudos superiores instalado na Casa de Portugal, em São Paulo, desde 2024 (...) Agora estamos realizando um reposicionamento. Na Casa de Portugal, estamos mais direcionados aos alunos e à parte formativa, mas a partir de setembro vamos trabalhar mais a parte da inovação e do ecossistema empresarial brasileiro”, disse o vice-reitor. Para Mendonça, o Brasil oferece um ambiente estratégico para essa aproximação. “É uma evolução dessa presença em um mercado que é suficientemente grande e dinâmico”, pontua, “o termo correto é ampliação, um incremento daquilo que é a oferta da Universidade de Coimbra para o brasileiro como um todo”. O acadêmico explica que o objetivo é colocar a pesquisa e os pesquisadores da Universidade de Coimbra em contato com empresas brasileiras. Parcerias em saúde, agronegócio e tecnologia O vice-reitor também destacou que a universidade quer aprofundar cooperações já existentes com instituições brasileiras em diferentes áreas econômicas. “Seja com a Fiocruz na área da saúde, seja com a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) na área das petroquímicas, seja com o agronegócio, com o turismo ou com a economia azul”, enumerou. A parceria com a Fundação Oswaldo Cruz é uma das mais antigas. Segundo Mendonça, a colaboração tem sido revitalizada nos últimos anos e envolve iniciativas concretas de pesquisa e inovação. “Trabalhamos em formação conjunta, na introdução do medicamento antimalária produzido pela Farmanguinhos no mercado europeu por meio de Portugal, e avaliamos parcerias na área da radiofarmácia para uma oferta ao SUS (Sistema Único de Saúde)”, destacou. Ele acrescenta que a experiência na área da saúde poderá servir de modelo para novas cooperações em outros setores da economia brasileira. Troca de conhecimento em duas direções Embora Coimbra seja tradicionalmente associada à formação de estudantes brasileiros, Mendonça destaca que a relação vai além da mobilidade acadêmica. “O Brasil tem aqui um ecossistema singular que pode ser útil a toda a comunidade de países de língua portuguesa”, afirmou. Segundo ele, o dinamismo econômico brasileiro e a experiência de empresas nacionais em inovação devido à proximidade com o mercado americano, também representam oportunidades de aprendizado para Portugal. “Nós podemos nos beneficiar e aprender novos desafios e novas fronteiras de conhecimento que nos ajudem a desenvolver novas linhas de pesquisa”, disse. “A maior universidade brasileira fora do Brasil” Atualmente, cerca de 5 mil estudantes brasileiros frequentam a Universidade de Coimbra, uma das mais antigas da Europa. O vice-reitor acredita que a nova estrutura em São Paulo poderá fortalecer ainda mais essa ligação histórica, sobretudo ao aproximar a universidade do setor produtivo brasileiro. “Costumamos brincar que somos a maior universidade brasileira fora do Brasil. Existe uma ligação histórica muito forte entre Coimbra e o Brasil. Durante séculos, Coimbra foi a única universidade em todo o espaço lusófono. Sabemos que há um mercado em grande crescimento, com uma população jovem expressiva, o que pode nos ajudar a ampliar ainda mais o número de estudantes brasileiros”. Para Mendonça, o crescimento da população jovem brasileira e o fortalecimento das parcerias acadêmicas e empresariais podem ampliar ainda mais a presença de estudantes brasileiros na instituição. “Se trabalhamos com empresas do agronegócio que precisam de pesquisa, e se tivermos pesquisadores ou alunos de doutorado brasileiros que possam aprender conosco e levar esse conhecimento de volta para o Brasil, isso será uma contribuição importante para o desenvolvimento econômico”, concluiu.
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Castelo medieval no interior da França vira palco para festival de música brasileira
O que poderia parecer improvável se tornou realidade pelas mãos do francês Louis de Survilliers: juntar música brasileira a um castelo medieval do século 13 no interior da França. O Festival Quat'Sos Bossa & Jam mistura bossa nova, MPB e jazz em um ambiente medieval e intimista com vinhos da região de Bordeaux nos dias 24 e 25 de julho em La Réole, cidadezinha de cerca de 5 mil habitantes. O idealizador do evento é um músico francês de 33 anos, que passou parte da infância no Brasil, experiência que deixou marcas profundas em sua formação e ajudou a moldar o projeto. O cenário escolhido para o festival também tem um significado especial: o Château des Quat'Sos pertence à sua família e foi recuperado pelos pais há alguns anos. "Eu sempre sonhei em montar um festival em volta da música brasileira", conta Louis de Survilliers. Para ele, o encontro entre um monumento histórico e a música brasileira cria uma identidade única. "É a parte interessante do festival. Essa mistura da Idade Média com a música brasileira faz surgir um evento com uma identidade peculiar". A programação da terceira edição reflete justamente essa ideia de encontro entre culturas. Louis, que também se apresenta no festival com o projeto Louis na Bossa, explica que a maioria dos artistas convidados faz parte da cena musical que frequenta em Paris. Festival reúne diferentes gerações da MPB O resultado é um cartaz que reúne diferentes gerações e estilos da música brasileira. Na sexta-feira, sobem ao palco Louison Camio, a cantora paulistana Nanná Milano e o músico brasileiro Sidney Rodrigues, violonista radicado na França há mais de duas décadas e conhecido por seu trabalho entre a MPB, a bossa nova e o jazz. No sábado, a programação continua com Louis na Bossa, seguido pelo trio franco-brasileiro Nácar, que explora a fusão entre tradições afro-indígenas do Nordeste brasileiro e música eletrônica contemporânea. As duas noites terminam com uma jam session, proposta que ocupa um lugar central na filosofia do festival. "A ideia sempre foi dar uma visão global do Brasil, mostrar a cultura brasileira na sua diversidade", explica o organizador. "As jam sessions permitem que artistas de universos diferentes se encontrem, toquem juntos e criem justamente essa mistura." Relação com a música brasileira A relação de Louis com a música brasileira vem da infância. Filho de uma família ligada à música clássica, ele cresceu ouvindo os sons descobertos pelos pais durante os anos vividos no Brasil. “Eu venho de uma família de músicos clássicos. A minha tia é pianista, eu fiz conservatório, canto lírico. Quando meus pais descobriram a música brasileira, foi uma revelação para eles. Essa relação com a música brasileira vem desde quando eu era menininho”, conta Louis. “Sempre escutei música brasileira. É algo que faz parte de mim e procuro transmitir ao público, por meio da minha arte, a minha visão da música brasileira", diz. Para o músico, a força da música brasileira está justamente na capacidade de reunir características aparentemente contraditórias. "A música brasileira é uma mistura de sofisticação com simplicidade, talvez, porque a música brasileira consegue ser simples ao mesmo e, ao mesmo tempo, super complexa. É uma música muito alegre, mas que é triste também porque tem aquela coisa da saudade. A música brasileira não é só do gosto dos franceses, é uma música universal”, destaca. Leia também‘A música brasileira tem essa coisa que todo mundo gosta’: Festival de Choro reúne mestres em Roterdã Além dos concertos, o público poderá aproveitar vinhos da região de Bordeaux, food trucks e uma atmosfera intimista que diferencia o evento dos grandes festivais de verão. O Quat'Sos Bossa & Jam acontece nos dias 24 e 25 de julho, com abertura dos portões às 19h e início dos concertos às 20h, no Château des Quat'Sos, em La Réole. Os ingressos custam € 15 para um dia e € 20 para os dois dias do festival e podem ser encontrados nas redes sociais do Château des Quat'Sos.
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João Paulo Lorenzon revisita Nietzsche para questionar violência, empatia e animalidade em Avignon
Onze anos depois de sua passagem pelo Festival Off de Avignon com Nijinsky, o ator, diretor e performer brasileiro João Paulo Lorenzon retorna à cidade francesa com Nietzsche, do cavalo nada sabemos. Inspirado no episódio em que Friedrich Nietzsche abraçou um cavalo espancado nas ruas de Turim, pouco antes de mergulhar definitivamente na loucura, o espetáculo transforma uma das imagens mais enigmáticas da história da filosofia em uma dramaturgia física e sensorial sobre violência e empatia. Há imagens que atravessam o tempo porque resistem a ser explicadas. Uma delas ocorreu em janeiro de 1889, em Turim, quando Friedrich Nietzsche teria visto um cocheiro espancar um cavalo na rua. Segundo os relatos que cercam os últimos dias de lucidez do filósofo alemão, ele correu até o animal, abraçou-o e caiu em prantos. Pouco depois, mergulharia em um colapso mental do qual jamais se recuperaria. É desse instante carregado de mistério que nasce Nietzsche, do cavalo nada sabemos, novo espetáculo do ator, diretor e performer brasileiro João Paulo Lorenzon, em cartaz no Festival Off de Avignon. Onze anos após apresentar na cidade francesa Nijinsky – Minha Loucura é o Amor pela Humanidade, o artista volta a uma figura histórica que viveu nos limites da criação, da ruptura e da vertigem. Curiosamente, a obra não surgiu de um mergulho inicial na filosofia nietzschiana. “Eu não conhecia esse capítulo do Nietzsche”, conta Lorenzon. “Já tinha escutado falar muito da filosofia dele, tinha lido aqui e ali, mas eu não conhecia esse fato dele ter visto um cavalo sendo espancado, ter abraçado o cavalo para salvar o cavalo da violência e ter enlouquecido depois.” Leia tambémTeatro: Tiago Rodrigues projeta os próximos 80 anos de Avignon e convida o Brasil ao debate O que o capturou foi justamente a contraposição entre o pensamento de Nietzsche e o gesto desesperado diante da brutalidade. “Um filósofo que acreditava na potência humana de liberdade, de amor, de encontro, de dança, de arte, de criação, se vê encurralado pela potência da violência”, afirma. “Como se ele desistisse de acreditar que o ser humano é capaz de algo que não fosse a violência, como se a violência tivesse tomado conta de tudo.” Lorenzon se refere ao fato de que, após o episódio, Nietzsche escreveu as últimas mensagens conhecidas antes de seu colapso. “Ele enlouquece depois desse fato, e vive por mais dez anos sem produzir nada.” Mais do que reconstruir uma passagem biográfica, o espetáculo parte dessa imagem para formular perguntas contemporâneas. “Essa possibilidade dele ter se rendido a essa violência que vai tomando conta eu acho um ponto de partida muito rico para perguntar o que a gente faz com essa violência e como que a gente pode encontrar a ternura”, diz. “Como é que a gente pode encontrar outras ações que não a violência?” Lógica de dominação Ao mesmo tempo, a montagem desloca o olhar para uma questão ainda mais ampla: a fronteira entre humanidade e animalidade. Num momento em que os debates ambientais, éticos e filosóficos recolocam em discussão a posição dos seres humanos no mundo, Lorenzon utiliza o próprio título da obra como provocação. “Que cavalo é esse?”, pergunta. “Do cavalo nada sabemos. O próprio título já traz um pouco essa discussão. O humano que só sabe de si mesmo e que não sabe, não quer saber do outro.” Na leitura do artista, a relação estabelecida pela cultura ocidental com os outros seres vivos ainda é marcada por uma lógica de dominação.“O ser humano coloca o planeta Terra, o cavalo, enfim, as coisas todas como acessórios da sua existência”, afirma. A peça procura justamente inquirir sobre essa posição de superioridade. “Uma das questões do espetáculo é discutir esse lugar excepcional que o homem se coloca. Como que a gente pode viver com os animais? Como que a gente pode viver com o outro, seja humano, seja animal, seja o planeta Terra?” Leia tambémTeatro: Carolina Bianchi consagra trilogia Cadela Força com maratona de 10 horas na Ópera de Avignon Para Lorenzon, o trabalho se constrói em torno da tentativa de romper divisões consideradas naturais. “É um espetáculo que tenta discutir essa cisão natureza e cultura, essa cisão homem-animal, e se pergunta se não existe uma outra maneira de viver junto.” Se o pensamento filosófico fornece o impulso inicial, é o corpo que ocupa o centro da cena. Como em trabalhos anteriores, Lorenzon transforma a fisicalidade em instrumento de elaboração dramatúrgica.“Em geral, nos meus trabalhos eu começo pela palavra”, explica. “Eu acho um fragmento, alguma coisa que me encanta. E aí, a partir da palavra, o corpo vai ganhando espaço.” Mas o movimento não é unilateral. “O corpo vai agindo e vai também modificando a palavra. Ele em ação, ele em dor, ele em torção, ele em agitação, vai mudando a palavra. Tem uma dança aí da palavra que convida o corpo, que reconvida a palavra.” Em Nietzsche, do cavalo nada sabemos, o procedimento se traduz numa espécie de corpo fragmentado, dividido entre forças contraditórias. “Tem um braço que bate, tem umas costas que apanham, tem uma mão que quer dominar, tem uma perna que quer fugir”, descreve. “Eu sou o meu corpo. É o continente todo. Ele é o algoz, ele é o que bate, ele é o que assiste.” A proposta é fazer coexistirem em um único organismo vítima e agressor, violência e vulnerabilidade. “É uma tentativa desse corpo representar o eu e o outro. Seja o eu o que bate, seja o eu o que apanha.” Uma parceria de peso na direção A construção da montagem contou com a colaboração de duas diretoras: Denise Stoklos e Alessandra Maestrini. Stoklos, uma das grandes referências do teatro físico brasileiro, ocupa um lugar especial na trajetória do artista. “A Denise é uma referência para mim, uma deusa do teatro, uma lenda”, afirma. “Alguém que eu vi muito, que eu aprendi muito, que eu admirei.” O impacto de seu trabalho foi decisivo para a formação artística de Lorenzon. “Quando eu vi a Denise no palco, eu entendi a beleza da loucura, a capacidade de liberdade.” Já Alessandra Maestrini contribuiu com outra camada da encenação, ligada à construção emocional do texto e da presença cênica. “Ela tem um trabalho com as emoções, com a palavra. Me convidou a ir para um lugar mais sensível, mais vulnerável, mais frágil e depois voltar para um lugar forte.” Leia tambémWagner Moura, 'Inimigo do Povo'? Ator fala sobre estreia que revisita clássico de Ibsen em Avignon Embora separados por mais de uma década, Nijinsky e Nietzsche, do cavalo nada sabemos compartilham algumas obsessões temáticas. Ambos são permeados por personagens históricos que viveram experiências extremas e desafiaram as convenções de seu tempo. “Eu sou muito apaixonado por esses desajustados”, admite. “Esses homens e mulheres que ficam entre a loucura e a genialidade.” Ao recordar o bailarino russo que inspirou sua passagem anterior por Avignon, Lorenzon identifica um traço comum entre as duas figuras. “No Nijinsky, aquele que salta mais alto do que todos os bailarinos também cai mais fundo do que todos. É esse lugar tênue entre o abismo e o voo.” Com Nietzsche, afirma, acontece algo semelhante. “Um filósofo tão poderoso e, ao mesmo tempo, depois desse abraço, tão frágil, tão débil, que entra numa regressão.” Mais do que a loucura em si, interessa-lhe a disposição de ultrapassar limites, de buscar intensamente uma forma de existência. “Nessa vida curta, a gente poder realmente tentar viver o máximo o que essa vida convida. Acho que tanto o Nietzsche quanto o Nijinsky convidam, de maneiras diferentes, a essa vida bem vivida.” Temporada no Brasil depois de Avignon Após a temporada em Avignon, encerrada em 24 de julho, o espetáculo seguirá para Uberlândia, em agosto, antes de iniciar circulação por São Paulo, com apresentações no Sesc Ipiranga e no Teatro FAAP. Sobre a recepção francesa, Lorenzon fala com entusiasmo. “A gente teve críticas muito profundas, muito bonitas. Teve seleções críticas que colocaram o espetáculo num lugar muito especial.” Mas é sobretudo o encontro com os espectadores que ele destaca ao final da experiência. “O festival proporciona essa troca”, afirma. “Eu saio muito abastecido, muito alimentado, com todos esses olhares, com coisas que a gente nem imaginou, com coisas que não foram nem sonhadas e pensadas.”
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Xenia França destaca força da música brasileira em festival de jazz de Marselha e prepara novo disco
A cantora Xenia França vive um momento de expansão internacional da carreira. Após apresentar seu projeto Em Nome da Estrela no Festival de Jazz de Marselha, no sul da França, a artista falou à RFI sobre a recepção de seu trabalho pelo público europeu, a trajetória construída como artista independente, a conquista do Grammy Latino em 2023 e o processo de gestação de seu terceiro álbum. Ansiosa antes de subir ao palco em Marselha, Xenia contou que a participação no festival representou um marco em sua trajetória. Embora reconheça a forte presença do jazz em seu universo musical, ela ressalta que sua obra não se enquadra no gênero de forma tradicional. “Oficialmente, acho que esse foi o meu primeiro festival de jazz. Na verdade, meu trabalho não é um trabalho de jazz tradicional, mas obviamente o jazz influencia a minha música por causa das escolhas artísticas e musicais que eu faço”, afirmou. O convite para o festival francês nasceu de uma apresentação realizada em 2023 no Jazz Ahead, em Bremen, evento voltado para curadores e programadores de festivais. “Provavelmente o convite para o Marseille Jazz veio dessa apresentação e eu fiquei super feliz. Foi uma experiência maravilhosa”, conta. Música brasileira atravessa fronteiras Depois de apresentações em diferentes países, incluindo Portugal e Japão, Xenia diz observar com surpresa o alcance internacional de seu trabalho. Para ela, esse reconhecimento também é resultado do legado deixado por grandes nomes da música brasileira. “Existem artistas magníficos no nosso país. Caetano, Gil, Djavan, Milton, Gal Costa, Elza Soares. Tanta gente maravilhosa que nos ensinou a gostar de música e ajudou a construir uma linguagem da música brasileira para o mundo.” A artista acredita que sua produção dialoga com influências nacionais e internacionais, reunindo referências que vão de Michael Jackson a Sarah Vaughan, passando por Herbie Hancock e Ella Fitzgerald. “Eu fico muito orgulhosa de que meu trabalho possa abrir esse portal para o mundo, porque eu amo o mundo.” Da indicação ao Grammy Latino à conquista do prêmio Natural de Candeias, na Bahia, e radicada em São Paulo, Xenia aponta o lançamento de seu primeiro álbum, em 2017, como o início de uma sequência de acontecimentos decisivos para sua carreira. O disco lhe rendeu duas indicações ao Grammy Latino e abriu portas para apresentações internacionais. “Seis meses depois de lançar esse disco, eu já estava fazendo meu primeiro show no Central Park”, lembra. Artista independente, ela destaca que cada conquista ganha uma dimensão ainda maior pela ausência de uma grande estrutura por trás do trabalho. “O artista independente está sempre montando um quebra-cabeças de duas mil peças com pecinhas bem pequenas.” A consagração veio em 2023, quando conquistou o Grammy Latino com o álbum "Em Nome da Estrela". Para a cantora, a premiação teve um significado comparável a uma grande façanha esportiva. “Se eu fosse uma atleta ou uma montanhista, a sensação seria a de ter subido o Everest.” Ela avalia a conquista como um reconhecimento coletivo e um sinal de que sua trajetória segue na direção certa. “Ganhar é uma coisa meio surrealista. Ao mesmo tempo, honra todas as pessoas que trabalharam nesse projeto e acende um farol de que, de alguma forma, o universo está dizendo que eu estou no caminho certo.” O amor como força transformadora Durante sua passagem pela França, Xenia apresentou o espetáculo Tudo Sobre o Amor, inspirado na obra da escritora e ativista norte-americana Bell Hooks. Mais do que um show, ela define o projeto como uma performance em que música e reflexão caminham juntas. “Eu tento criar uma trilha sonora baseada em músicas que fazem sentido para mim, do cancioneiro brasileiro, de algumas referências internacionais e também do meu próprio repertório”, explica. A artista afirma que a leitura da autora ampliou reflexões que já faziam parte de seu processo de amadurecimento pessoal e artístico. Em um contexto marcado por polarizações e relações cada vez mais mediadas pela tecnologia, ela defende o amor como uma ferramenta essencial de transformação. “Eu sinto que a grande tecnologia humana é amar.” Segundo Xenia, essa visão vai além do amor romântico e se relaciona com a capacidade humana de criar vínculos, produzir conhecimento e transformar a realidade. “O amor é essa cola, essa coisa que cria e ao mesmo tempo amalgama tudo o que existe.” Terceiro álbum está em gestação Questionada sobre o próximo trabalho de estúdio, Xenia confirma que tem sido cobrada para o aguardado terceiro álbum, que já começou a tomar forma, embora ainda esteja em fase inicial. Ela afirma resistir às pressões do mercado digital e prefere respeitar o tempo necessário para a criação artística. “É preciso que as coisas façam sentido para mim. É um trabalho feito à mão, costurado com linha e agulha." A cantora revela que já retomou a rotina de estúdio, estudos e pesquisas, recolhendo referências das experiências vividas em diferentes partes do mundo. Cada viagem, segundo ela, se transforma em matéria-prima para novas composições. “Já manifestei esse interesse para o universo, já tenho me movimentado, já tenho estado em estúdio, tenho estudado muito”, diz, sem estabelecer prazos para o lançamento do novo trabalho.
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Christiane Jatahy leva Ibsen ao tribunal de Avignon em debate sobre verdade ao lado de Wagner Moura
A premiada diretora brasileira Christiane Jatahy estreou no Festival de Avignon de 2026 a peça Um Julgamento – depois de O Inimigo do Povo, criada com Wagner Moura e Lucas Paraizo. Inspirada no clássico de Henrik Ibsen, a peça transforma o palco em tribunal popular e entrega ao público o papel de júri, debatendo democracia, verdade e responsabilidade coletiva num Brasil ficcional que ecoa urgências globais. Márcia Bechara, enviada especial da RFI a Avignon A peça Um Julgamento – depois de O Inimigo do Povo, que após a temporada brasileira e em alguns teatros europeus estreou na cena principal do Festival de Avignon, no sul da França, marca a primeira colaboração entre Christiane Jatahy, Wagner Moura e Lucas Paraizo. Coproduzido pelo Festival Avignon, pelo Holland Festival e o Edinburgh International Festival, o espetáculo discute democracia, verdade, fake news, ecologia e responsabilidade coletiva, em três línguas, a partir de uma comunidade brasileira ficcional. A proposta nasceu de uma pergunta simples: o que teria acontecido depois do fim da peça de Ibsen? Segundo Jatahy, a resposta não estava em adaptar o texto original, mas em avançar sobre ele. “Wagner [Moura] sempre foi muito apaixonado por esse texto. A gente pensou muitas possibilidades, e, para mim, não fazia sentido montar o texto como ele é, apesar de que é bastante visionário. Me interessava perguntar sobre o que seria essa questão hoje.” Leia tambémWagner Moura, 'Inimigo do Povo'? Ator fala sobre estreia que revisita clássico de Ibsen em Avignon Cancelamento X verdade A diretora propôs imaginar um futuro possível para o protagonista. “E se Thomas Stockmann tivesse a possibilidade de, diante de um público neutro, não da sua própria comunidade, portanto num público de teatro, defender as suas ideias e, eventualmente, reverter o seu cancelamento que sofreu?” A partir dessa hipótese, nasceu uma dramaturgia nova, que dialoga com Ibsen sem se limitar ao texto original. “De fato, é um novo texto. A gente tem poucas coisas que são realmente do texto original, mas muitas referências. É realmente uma possível continuação.” O espetáculo, apresentado no Gymnase du Lycée Aubanel, em Avignon, transforma o palco em tribunal popular. O público é chamado a julgar Stockmann – agora interpretado por Wagner Moura – e decidir se ele continua sendo “inimigo do povo”. A estrutura responde ao interesse de Jatahy pelo presente. “Meu trabalho é sempre sobre como é que a gente lida com a questão do momento presente, do lugar que a gente está. A questão das línguas é um desafio e ao mesmo tempo muito interessante, porque abre outras perspectivas.” Em Amsterdã, Moura improvisou em inglês; em Avignon, sua filha Petra (interpretada por Julia Bernat) traduz para o francês. A peça articula temas centrais da obra de Ibsen – verdade, maioria, democracia – com urgências contemporâneas. Jatahy explica: “A discussão política não é externa às relações íntimas. Ela está muito conectada às nossas proximidades, às nossas famílias.” Ela lembra um Brasil não muito longe de 2026: “Quando houve a eleição do Bolsonaro, quantas famílias romperam… impossível continuar dialogando.” Para ela, a democracia exige a reativação desse diálogo. “A democracia existe onde o diálogo é permitido.” Leia tambémWagner Moura estreia em maior encontro de artes cênicas do mundo ao lado de destaques da cena brasileira Reconstruir a escuta A diretora identifica o risco atual da polarização. “O extremismo e a impossibilidade de dialogar impedem que a gente avance em questões democráticas.” A diretora relaciona o contexto à crise da verdade. “Quando a gente, no início da peça, diz que a verdade acabou, que tudo se transformaria em versões, é exatamente sobre isso. As pessoas acreditam nas suas narrativas e isso vira um fato. Sem nenhuma possibilidade de dissenso. Isso vai minando a democracia.” Jatahy lembra, no entanto, que consensos democráticos já produziram tragédias. “A gente sabe quanto, em outros momentos históricos, quando Hitler ascendeu ao poder, foi através de um consenso democrático.” A peça sublinha a urgência de reconstruir a escuta. “Como é que a gente volta a escutar o outro, com todas as diferenças que algumas vezes são insuportáveis, mas que podem reconstruir uma ideia coletiva? É preciso proteger as minorias. A maioria das pessoas estão nas categorias que se intitulam minorias.” O teatro, para ela, ainda é capaz de produzir essa escuta. “Se eu não acreditasse, eu nem faria mais teatro”, aponta. A ficção, diz, abre espaço para esta sensibilidade. “O teatro acessa lugares em que às vezes a gente não está tão aberto.” A peça radicaliza essa ideia ao entregar ao público o papel de júri. Leia tambémFestival de Avignon chega aos 80 anos com Wagner Moura, Nobel coreana e perguntas sobre o futuro Jatahy vê nisso uma retomada da Ágora grega (praça pública central das cidades da Grécia Antiga, onde se realizavam debates políticos). “A ideia é trazer para o espaço da Pólis (cidade-Estado constitutiva da Antiguidade grega) uma discussão que se coletiviza e não imprime uma resposta, mas coloca questões.” Para ela, teatro e democracia nascem do mesmo gesto. “É o lugar em que todos nós estamos juntos discutindo uma questão em comum.” A peça mantém sua identidade brasileira, mesmo em Avignon. “A gente localizou no Brasil. O personagem tem nome norueguês, mas é brasileiro. Inventamos o Vale do Rio Vermelho.” E cita Guimarães Rosa: “Quanto mais a gente fala de nós mesmos, mais a gente está falando para o mundo.” Um Julgamento – depois de O Inimigo do Povo tem apresentações no Gymnase du Lycée Aubanel, em Avignon, nos dias 11, 12, 14, 15, 16, 17, 19, 20, 21 e 22 de julho, sempre às 18h, com sessões adicionais às 22h nos dias 15 e 20. A criação de Christiane Jatahy, Wagner Moura e Lucas Paraizo tem duração de 2h15, é apresentada em português, inglês e francês. A venda de ingressos ocorre pelo site oficial do Festival de Avignon, com atualização diária de disponibilidade.
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Lia Rodrigues conduz jovens artistas em formação e amplia escuta pela diversidade em Avignon
A coreógrafa brasileira Lia Rodrigues assume, durante a edição 2026 do Festival de Avignon, a coordenação artística da Transmissão Impossível, programa de formação cocriado pelo Festival e pela Fundação Hermès. Com quase cinco décadas de trajetória entre criação, pedagogia e trabalho comunitário, Lia orienta 55 jovens artistas de diferentes nacionalidades, trazendo ao laboratório a experiência da Escola Livre de Dança da Maré e sua “pedagogia mutante”. Márcia Bechara, enviada especial a Avignon A chegada de Lia Rodrigues à coordenação do Transmissão Impossível sinaliza uma inflexão importante na política de formação do Festival de Avignon. O programa, cocriado com a Fundação Hermès, consolidou-se como laboratório de verão dedicado a jovens artistas do mundo inteiro. Em 2026, o festival confia essa função a uma coreógrafa brasileira cuja trajetória combina rigor estético, engajamento comunitário e uma visão de mundo construída entre o palco e a favela da Maré. Logo no início da conversa, Lia desmonta a ideia de futuro homogêneo com uma fala que oferece pistas para esta terceira edição do projeto:. “Eu acho que é impossível pensar no futuro sem pensar nos diferentes futuros que atingem diferentemente partes do planeta. Não é a mesma coisa o futuro de um jovem na França que o futuro de um jovem no Brasil, que são as realidades que eu conheço bastante aqui na Europa. Ou o futuro de um jovem que mora no continente africano, ou que mora na Austrália, um jovem negro, um jovem indígena, um jovem trans, um jovem hétero, cis. Então, não dá para falar de um futuro. São futuros.” A multiplicidade é o ponto de partida do laboratório, que reúne 55 jovens artistas de diferentes nacionalidades, entre eles 12 estudantes da Escola Livre de Dança da Maré. Para lidar com esse conjunto heterogêneo, Lia montou um time de confiança: Silvia Soter, Cristina Moura, Dani Lima e Calixto Neto. “Eu tenho uma equipe que eu confio muito, artisticamente, pedagogicamente, e juntos a gente consegue organizar essa diferença.” Leia tambémCoreógrafa Lia Rodrigues dedica prêmio francês “aos artistas brasileiros que estão sendo atacados” A sucessão da francesa Mathilde Monnier, que coordenou as edições anteriores, não é apenas institucional. Lia e Monnier compartilham uma história de colaboração e afinidade pedagógica. “Eu conheço muito a Mathilde como artista, mas também nós trabalhamos juntas porque ela é uma grande pedagoga. Ela criou um programa de master em Montpellier, dirigiu o Centro Coreográfico de Montpellier, dirigiu o CND (Centro Nacional da Dança de Paris)... Ela foi para o Brasil conhecer a nossa escola, a gente fez vários projetos juntos”, conta. Por isso, assumir o programa tem peso simbólico: “Para mim é uma honra ter sido convidada também por ela, de ela pensar que eu poderia trazer alguma novidade”, considera. É na pedagogia que Lia desloca o eixo da formação. Ela faz questão de situar sua trajetória antes da Maré, mas reconhece que o Brasil impõe condições específicas ao trabalho artístico. “Eu sinto que eu sou reconhecida no Brasil, mas é muito difícil ainda contar com recursos do governo brasileiro para o meu trabalho.” A comparação com a França é inevitável: “Ser artista no Brasil tem zero a ver com ser artista na França. Sobreviver tantos anos como artista e ver tantos governos passarem… eu tenho mais ou menos 50 anos de carreira”, lembra. Escola Livre de Dança da Maré Lia chegou à Maré em 2004, em uma experiência inicialmente marcada pela escuta. “Eu cheguei para aprender primeiro, não para trazer alguma coisa.” Com a Redes da Maré, ela ajudou a criar um centro de artes: “Nós encontramos um galpão sem teto, destruído… e muito pouco a pouco ele se transformou.” Só em 2011, com apoio da Fundação Hermès, nasceu a Escola Livre de Dança da Maré. “Nós temos 320 alunos, entre 8 e 80 anos, e um grupo de jovens que recebe uma bolsa mensal. A questão da nossa escola não é virar artista, é ser cidadão. A pedagogia mutante vem de uma coisa muito simples, sabe o quê? Dinheiro”. Leia tambémWagner Moura estreia em maior encontro de artes cênicas do mundo ao lado de destaques da cena brasileira Quando o tema é corpo e política, Lia recusa qualquer separação entre vida e criação. “A política está na nossa vida. É impossível estar vivo sem ser político.” Ela enumera escolhas cotidianas: “Qualquer escolha que a gente faz, em quem a gente vota, em quem a gente não vota, se a gente se abstém de votar… tudo é político.” E amplia o conceito: “A política também é a política do sensível. O que é política? É muito vasto esse tema.” A consciência do próprio lugar aparece sem rodeios durante a entrevista. “Você vê uma mulher branca… no caso, eu sou velha, tenho 70 anos e sou muito privilegiada no Brasil. Eu tenho um compromisso, uma missão e uma responsabilidade para os jovens que não têm a mesma oportunidade que eu.” O Transmissão Impossível integra a iniciativa Artistes dans la Cité. Durante doze dias, jovens artistas têm acesso a masterclasses, debates, ensaios, encontros com criadores da programação e uma imersão completa no festival. Leia tambémCorpos dissidentes ocupam claustro medieval de Avignon em obra radical de Rébecca Chaillon
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Pierina Marinelli: conheça a estilista que ajudou a introduzir tecidos ecológicos na França
Quando chegou à França, aos 24 anos, a paulistana Pierina Marinelli carregava um sonho difícil de realizar: tornar-se estilista em um dos países mais competitivos da moda mundial. “Vir do Brasil há mais de 30 anos e dizer ‘eu quero ser estilista’ era como ir ao Brasil e dizer ‘eu quero ser jogador de futebol’”, resume. Hoje, seu percurso reúne passagens por desfiles, prêmios, consultorias para a indústria têxtil, coleções vendidas internacionalmente e um showroom instalado em um castelo nos arredores de Paris. Em um momento em que a França endurece o combate à fast fashion e procura estimular um consumo mais consciente, o percurso de Pierina Marinelli parece estar em sintonia com as transformações em curso no setor. “Ele reflete realmente uma necessidade, um retorno a coisas mais verdadeiras”, afirma sobre seu trabalho de criação sob medida. “As pessoas estão cansadas desse esquema comercial.” A estilista acredita que existe uma demanda crescente por peças com história, identidade e durabilidade, em contraste com a lógica do consumo acelerado. Para ela, a valorização do artesanal e do trabalho personalizado responde a uma busca por autenticidade. Pioneira na moda sustentável Muito antes de a sustentabilidade se tornar palavra de ordem na indústria da moda, Pierina já participava de iniciativas consideradas pioneiras no setor. Uma delas foi o desenvolvimento de uma coleção em algodão orgânico para o grupo francês Léa Nature, referência no mercado de produtos ecológicos. Segundo ela, o projeto envolveu um investimento de longo prazo na Índia. “O que é bonito desse grupo é que eles financiaram duas cidades da Índia para a reconversão do algodão orgânico”, conta. O trabalho incluiu o acompanhamento dos agricultores durante anos e ajudou a criar uma cadeia de fornecimento que mais tarde seria utilizada por diversas marcas. Outra experiência marcante foi sua participação no lançamento de coleções produzidas com modal, fibra derivada da celulose vegetal que começava a ser apresentada como alternativa mais sustentável aos tecidos convencionais. “Ela dava um toque na malha que era maravilhoso, e que até hoje continua maravilhoso”, recorda. Encantada com as possibilidades do material, Pierina criou peças de lingerie com a nova fibra. Da renda brasileira aos prêmios franceses Foi, entretanto, uma renda inspirada no trabalho artesanal brasileiro que lhe rendeu um dos momentos decisivos da carreira. Recém-chegada à França, Pierina apresentou suas criações no Salão Internacional da Lingerie, um dos eventos mais importantes do setor. Em uma época em que jovens criadores ainda encontravam poucas oportunidades, ela chamou a atenção ao valorizar a renda renascença produzida no Brasil. “Todos os fabricantes vinham ao meu estande para ver esse trabalho que eu trouxe do Brasil”, lembra. Na mesma fase, recebeu um prêmio por uma renda de monogramas que reproduzia nomes de cidades. O material havia sido descartado por outros criadores, mas chamou sua atenção pela originalidade. “Eu lancei e fez um sucesso enorme no salão”, conta. Brasil, Itália e França Ao explicar sua identidade criativa, Pierina costuma recorrer às três culturas que marcaram sua história. “O Brasil traz alegria, perseverança e esperança”, diz. “É um povo que batalha, mas com alegria.” Da herança italiana, afirma ter herdado a ousadia. “Eu admiro os criadores italianos pela audácia com que trabalham as cores e as formas.” Já a França lhe ofereceu o refinamento estético que ela resume na expressão francesa chic parisien. “Existe realmente um estilo próprio de Paris”, afirma. Essa mistura se reflete também em sua história familiar. Quando era adolescente e anunciou à mãe que queria trabalhar com moda, ouviu um relato que mudaria sua percepção sobre a própria vocação. “Ela me contou que já existia, sete gerações antes, uma primeira Pierina Marinelli que fazia moda na Itália”, lembra. A descoberta a marcou profundamente. Anos depois, o nome da antepassada se transformaria também na marca que leva sua assinatura. Um castelo como showroom Apesar do reconhecimento conquistado, Pierina faz questão de lembrar que sua trajetória foi construída com persistência. “Todo o meu percurso foi de muita luta e muita perseverança”, diz. Uma das oportunidades surgiu de forma inesperada. Após participar de uma exposição para artesãos em um castelo na região de Chantilly, a proprietária do local se encantou com suas criações e decidiu abrir as portas para a estilista receber clientes. Hoje, Pierina mantém um showroom no Château de Pontarmé, onde desenvolve peças sob medida e recebe clientes em busca de criações exclusivas. “Tudo isso é feito com muitas pessoas que admiram o seu trabalho e te acompanham”, destaca. A técnica antes da inspiração Questionada sobre o que diria à jovem que deixou São Paulo sonhando com uma carreira na moda, Pierina não hesita: estudo. “A minha maior força para conseguir estar hoje aqui é o conhecimento”, afirma. Para ela, existe uma imagem romantizada da profissão que muitas vezes ignora o peso da formação técnica. “A moda é muito técnica, muito estudo e muita experiência”, lembra. A estilista costuma fazer uma provocação aos jovens criadores: “O que é moda?”. E responde em seguida: “É arte aplicada à indústria e ao comércio”. Na sua visão, o sucesso não está apenas na criatividade. “Meu trabalho é 97% conhecimento, experiência e técnica para 3% de criação”, calcula. Em uma época dominada pela exposição nas redes sociais e pela busca por visibilidade instantânea, ela acredita que o que permanece é outra coisa. “Hoje tem muito blá-blá-blá e muito show. Isso não perdura. O que perdura é um estilo justo, com técnica e conhecimento”, diz a estilista que mantém um loja-conceito chamada Aeternia. É exatamente essa filosofia que continua guiando seu trabalho. Para Pierina, a criação não deve estar acima da pessoa que veste a roupa. “Eu quero que ela seja bonita do jeito que ela é”, afirma. “A minha arte está ali para servir a cliente, e não o contrário.” A próxima oportunidade para conhecer o trabalho de Pierina Marinelli é um salão de moda que ela organiza na galeria AuMédicis, em frente ao Jardim de Luxembourgo, em Paris, entre os dias 8 e 15 de julho.
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Tuca Vieira: um atlas fotográfico para revelar uma Paris além dos cartões-postais
Como fotografar uma das cidades mais conhecidas e mais fotografadas do mundo sem repetir as imagens que todos já conhecem? Essa é a pergunta que orienta o trabalho do fotógrafo brasileiro Tuca Vieira durante sua residência artística na Cité internationale des arts, em Paris, realizada por meio de um programa da Académie des beaux-arts. Fotógrafo há mais de três décadas, doutor em Arquitetura e Urbanismo pela USP e vencedor do Prêmio Jabuti de 2021 com o Atlas Fotográfico da Cidade de São Paulo, Vieira desenvolve na capital francesa o projeto Atlas Photographique de Paris. A proposta é construir um retrato da metrópole para além de seus monumentos e cartões-postais. "Basta pronunciar a palavra Paris e uma série de imagens já nos vem à cabeça", diz. "Mas a Paris de hoje é uma metrópole de cerca de 13 milhões de habitantes, muito mais complexa do que essa imagem cristalizada. É essa cidade que me interessa investigar." Em vez da Torre Eiffel ou da avenida Champs-Élysées, o fotógrafo procura registrar bairros residenciais, periferias, ruas comuns e espaços do cotidiano. "Eu busco a cidade do nosso cotidiano. Não me interesso muito pelo espetacular nem pelas coisas muito particulares." A inspiração vem, em parte, do fotógrafo francês Eugène Atget, que documentou Paris entre o final do século XIX e o início do século XX. "O trabalho de Atget está no centro da fotografia como linguagem. É um trabalho que transita entre o documental e o artístico." Fotografar devagar Para realizar o projeto, Vieira utiliza uma câmera apoiada sobre um tripé. O equipamento, tradicionalmente empregado na fotografia de arquitetura, exige preparação cuidadosa antes de cada imagem e permite corrigir as perspectivas dos edifícios. Em uma época marcada pela produção incessante de fotografias em celulares, ele vê essa escolha como uma forma de reflexão sobre o próprio ato de fotografar. "Eu sempre me pergunto qual é o papel do fotógrafo. Como produzir uma imagem que consiga se destacar nesse oceano de fotografias efêmeras que circulam hoje?" Todo o trabalho é realizado a partir do nível da rua, opção que Vieira considera também uma forma de posicionamento diante da cidade. "Se a gente quer fazer uma intervenção na cidade, tem que fazê-la a partir do ponto de vista de seus cidadãos." Um método criado em São Paulo O projeto parisiense dialoga diretamente com o Atlas Fotográfico da Cidade de São Paulo, publicado em 2021. Durante dois anos, Vieira dividiu a capital paulista em 203 setores, baseado em antigos guias de ruas, e percorreu cada um deles para produzir ao menos uma fotografia. "São Paulo era a minha cidade, mas eu não a conhecia. A fotografia acabou sendo uma desculpa para conhecer lugares onde eu jamais iria naturalmente." O método agora é adaptado para Paris, mantendo o mesmo objetivo: compreender a cidade por meio do deslocamento e da observação sistemática de seu território. A fotografia de Paraisópolis Foi ainda como fotógrafo da Folha de S.Paulo que Vieira produziu, em 2004, uma das imagens mais conhecidas da fotografia brasileira: a vista aérea que contrapõe os edifícios de alto padrão do bairro paulistano do Morumbi à favela de Paraisópolis. A fotografia foi realizada durante uma reportagem sobre os 450 anos da cidade de São Paulo. "Na época eu fotografei em película e nem tinha ideia da repercussão que aquela imagem teria." Além de ir para a primeira página da Folha, fotografia passou a ilustrar livros, pesquisas e exposições sobre urbanismo e desigualdade social em diversos países. Na França, integra livros didáticos de geografia e história. "Quando professores franceses viram essa fotografia, ficaram até mais indignados do que nós diante daquela desigualdade à qual, infelizmente, muitas vezes estamos acostumados." Hoje, além do Atlas de Paris, Vieira continua desenvolvendo a pesquisa Hipercidades, dedicada às grandes metrópoles contemporâneas. Em todos esses projetos, a fotografia funciona menos como registro e mais como uma forma de compreender o território e as transformações urbanas.
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Música bilíngue lançada nas redes viraliza e muda trajetória de estudante brasileira em Paris
Fernanda Coelho, uma brasileira de 25 anos que faz mestrado em Paris, conquistou um sucesso inesperado na música e já começa a tocar em rádios francesas. A partir de um projeto pessoal, a jovem lançou a canção “Clichê”, que rapidamente acumulou quase 2 milhões de visualizações nas redes sociais e milhares de streams. A artista aposta em uma sonoridade pop bilíngue, combinando português e francês e incorporando referências musicais dos dois países. Com a rápida viralização, a jovem natural de São Paulo assinou contrato com uma gravadora alemã e prepara novos lançamentos. Apesar da surpresa, a relação com a música é antiga. “Eu comecei a cantar muito cedo, com cinco anos, já me apresentando em palco com o incentivo dos meus pais. Eu acho que tem coisas que a gente não explica. Às vezes a gente tem um amor, um talento. Eu era aquela aluna que preferia estar se apresentando no recreio”, conta. Na hora de escolher o rumo profissional, Fernanda acabou optando pela arquitetura, e o caminho acadêmico se tornou a via mais segura. A jovem foi a Paris continuar os estudos, em um mestrado na área. Já o viés musical ressurgiu após conhecer o atual namorado, o produtor musical francês Ulysse Molho, que reacendeu nela a vontade de voltar a cantar. “Ele me convidou para o estúdio para nos divertirmos e para eu ‘desbloquear’ um pouco, já que eu não cantava desde que entrei na faculdade”, explica. Primeira composição de forma natural Foi nesse contexto despretensioso que surgiu “Clichê”. A ideia era clara: reunir as duas culturas que hoje fazem parte da vida da artista. A canção mistura referências como o funk brasileiro e influências da música eletrônica francesa, como Daft Punk. “A música saiu na terceira tentativa de melodia”, lembra Fernanda. “O Brasil é muito ‘trend’ no exterior, mas as pessoas ainda não conhecem a cultura profundamente, e eu quero apresentar isso. Acho que é muito interessante misturar o pop brasileiro com o pop francês. Acho que é um casamento perfeito: o pop francês tem uma batida única e o brasileiro tem uma vibração especial”, opina Fernanda. Ela conta que, inicialmente, o plano era somente postar a faixa nas redes sociais. “Não tínhamos intenção de lançar, até porque estou no meio do meu mestrado”, diz. Mesmo assim, a canção ganhou forma em português e francês. “Cheguei a fazer cover no YouTube com 16 anos, mas foi a primeira música que compus. Escrevi a base inteira em português, que é mais natural para expressar meus sentimentos”, explica. “Hoje, para mim, é tão natural passar do português para o francês que senti que isso deu um toque especial, porque não é forçado, reflete os dois mundos que estou vivendo.” Viralização orgânica O sucesso veio de forma orgânica e vertiginosa. “Passamos de apenas família e amigos curtindo para subir mil seguidores por dia”, conta. Em poucos dias, o projeto saiu do anonimato para ter milhares de seguidores. “Quando passou de 200 para 10 mil seguidores em uma semana, vimos que algo estava acontecendo ali.” Os números confirmaram a percepção: passada uma semana, 100 mil streams no Spotify foram alcançados. “Meu produtor avisou que isso é raro para uma artista iniciante.” Em seguida, veio o interesse de gravadoras e produtoras, que culminou em um contrato com o selo alemão Bamboo Artists. Agora, com novos lançamentos previstos, Fernanda quer seguir explorando a mistura cultural que marcou sua estreia, explorando ritmos brasileiros. Para ela, a proposta vai além da estética sonora: trata-se de identidade. “A música é uma maneira de explorar minha experiência como estrangeira, fazendo relações entre as diferenças do Brasil e da França.” A autenticidade é central no seu projeto, já que Fernanda acredita que o mais importante é “colocar a alma, especialmente com o crescimento da inteligência artificial” no meio artístico. Dividida entre o fim do mestrado e o início da nova fase artística, a artista ainda mantém os pés nos dois mundos, mas já sabe qual escolher, se for preciso. “Se eu conseguir viver disso e continuar no projeto, não tenho dúvidas do que escolheria.”
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Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.
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RFI Brasil
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