EPISODE · Jul 29, 2026
'Pela primeira vez, as novas gerações poderão estar livres do HIV', comemora Roseli Tardelli
from RFI Convida · host RFI Brasil
Na década de 1990, a jornalista Roseli Tardelli perdeu um irmão para a Aids. Ela recorreu à Justiça e ganhou o direito à cobertura do tratamento pelo plano de saúde. Desde então, engajou-se na luta contra o HIV. Fundadora da Agência de Notícias da Aids, ela participa, nesta semana, da 26ª Conferência Internacional de Aids, que ocorre no Rio de Janeiro até sexta-feira (31). Vivian Oswald, correspondente da RFI no Rio de Janeiro Esta é a primeira vez que a América Latina e o Brasil sediam uma conferência internacional desse porte para falar sobre HIV e Aids. Em entrevista à RFI, Roseli Tardelli aponta os avanços já anunciados e o que é possível esperar até o final do evento. RFI : Como você avalia os debates até agora? Roseli Tardelli : Do ponto de vista político, o fato de a conferência acontecer na América Latina talvez proporcione um novo olhar para a nossa região, o que é muito importante. O Brasil construiu, ao longo dessas quatro décadas, uma resposta bastante significativa quando falamos de HIV e Aids. Mas isso já não acontece em países como o Paraguai e o Peru. Precisamos ter uma resposta mais homogênea em nossa região. Além disso, é a primeira vez que uma mulher preside a conferência: a doutora Beatriz Grinsztejn, uma pesquisadora muito importante da Fiocruz. A equipe da Fiocruz foi responsável pela pesquisa da PrEP (profilaxia pré-exposição). RFI : O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, disse que o Brasil não aceitaria pagar valores estratosféricos por medicamentos. RT : O valor estratosférico ao qual o ministro se refere, trata-se, basicamente, de um medicamento chamado Lenacapavir. É uma medicação na qual, ao tomar a injeção a cada seis meses, o vírus não entra na corrente sanguínea. Ou seja, pela primeira vez, o mundo tem a possibilidade de quebrar a transmissão do vírus. Isso é muito importante. Só que está sendo difícil para o Ministério da Saúde trazer o Lenacapavir para o SUS porque, segundo o ministro, as negociações precisam continuar, pois os preços que a empresa – no caso, a Gilead – quer cobrar são estratosféricos. É preciso chegar a um preço compatível com o orçamento do governo brasileiro. RFI : O Brasil é um mercado grande e pode servir de bússola na América Latina? RT : Essa é a ideia. Não só na América Latina, como no mundo. Eliminar a transmissão sexual do HIV em um país que possui o SUS mostra ao mundo que é possível. Há outra medicação chamada Cabotegravir, da GSK. O Ministério da Saúde anunciou a compra e a solicitação de inclusão no SUS a partir deste mês, prevendo a distribuição até o final do ano. Foi o que o ministro falou em coletiva [de imprensa]. Essa capilaridade que o SUS traz é muito importante, pois o Brasil já oferece, desde 1996, antirretrovirais que impediram que as pessoas morressem. Eu assumi essa tarefa de trabalhar com informação, conectando-a à prevenção, porque perdi um irmão na década de 1990. Naquele momento, os planos de saúde não atendiam pessoas que viviam com HIV e Aids. Nossa família protagonizou uma discussão pública com o convênio, entramos na Justiça e a mídia foi nossa parceira. A Justiça, que nem sempre é tão justa, foi rápida conosco: ganhamos em primeira instância, eles recorreram, ganhamos em segunda instância e virou jurisprudência em 1996. O presidente Fernando Henrique Cardoso assinou uma legislação determinando que os planos deveriam atender doenças pré-existentes. Por isso estou nessa luta desde então. Fundamos a agência em 2003 e estamos aqui cobrindo esta conferência. RFI : O que significa ter uma medicação profilática? RT : Significa que as novas gerações poderão estar livres do HIV. Isso é maravilhoso. Foi uma chance que a minha família não teve, que muita gente não teve. Temos um índice de 42 milhões de pessoas vivendo com HIV hoje no mundo. É muita coisa. Uma pandemia que existe há 45 anos. Está na hora de quebrar a cadeia de transmissibilidade do vírus, e nós temos essa condição com novas medicações. Esses medicamentos precisam chegar às populações mais vulneráveis. Vou arriscar dizer uma coisa: todo mundo que faz sexo é vulnerável ao HIV. Tenho poucas amigas que usam camisinha, as mulheres principalmente. Na cidade de São Paulo, temos máquinas em cinco estações do metrô que fazem a dispensação de profilaxias pré e pós-exposição. Isso também está no SUS. Se você teve uma relação desprotegida e acha que pode ter contraído o HIV, tem até 72 horas para procurar um local específico de saúde. O Ministério da Saúde tem uma página que indica todos os lugares do Brasil onde encontrar a profilaxia pós-exposição. É importantíssimo que as pessoas saibam disso. Quando chegarem essas novas medicações injetáveis de profilaxia pré-exposição, será um avanço muito importante. RFI : Esse é outro obstáculo: ter que dizer que está procurando o remédio. RT : Estamos falando de tecnologias novas no século XXI. Mostramos tudo isso aqui na conferência. É muito interessante a evolução tecnológica, mas o que não evolui na mesma velocidade é o enfrentamento ao estigma e à discriminação. As pessoas que vivem com o vírus, infelizmente, ainda sofrem muito estigma e discriminação. Para quebrar isso, temos que falar mais sobre o fato de que somos todos vulneráveis: mulheres, homens, a população envelhecida. Esses medicamentos precisam chegar onde são necessários. Temos agora essa pílula com um mês de duração, e a Merck assinou esse memorando de intenções hoje com o Ministério da Saúde. Então, acredito que, até o final do ano ou o ano que vem, o Brasil estará novamente na ponta quando falamos de prevenção. Isso é fundamental para que as novas gerações não precisem vivenciar a tristeza e a dor. A falta de acolhimento ainda existe no mundo, quando falamos de uma doença que não tem cura, mas tem prevenção. RFI : A Fiocruz firmou uma parceria com a farmacêutica para produzir nacionalmente. Talvez isso ajude a baixar os preços? RT : O Brasil pode ser um polo e distribuir para a América Latina e América Central. Para nossa sorte, a doutora Mariângela Simão, que foi vice-presidente da Organização Mundial da Saúde e coordenou a ação de dispensação de vacinas durante a Covid, esteve no Ministério da Saúde até este mês. O Brasil construiu uma resposta bastante significativa, e ela precisa ser mantida e ampliada. Saúde não se faz com negacionismo, saúde se faz com ciência. Agora, em relação a essa questão, o que quero trazer para nossa reflexão é: gente, vamos falar mais sobre sexualidade e respeitar a sexualidade e a orientação sexual dos filhos.
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