PODCAST · health
NOTAS DE UM PSIQUIATRA
by Hamer Palhares
Escolhi psiquiatria porque a divisão parecia óbvia pra mim: corpo ou mente. Hoje, com a prática, não tenho tanta certeza dessa fronteira. A maioria dos conteúdos de saúde mental oferece informação, mas esconde quem fala. Eu prefiro o contrário.Sou Hamer Palhares, médico Psiquiatra formado há pouco mais de um quarto de século.Notas de um Psiquiatra é um espaço onde você espia meus apontamentos — o que aprendo no consultório, nas leituras e no interesse que não para de crescer pela mente humana.
-
20
10 MEDICINA BASEADA EM EVIDÊNCIAS & PSIQUIATRIA
Em março de 2026, um grupo de pesquisadores de Copenhaguepublicou no BMJ Mental Health algo que a psiquiatria aindanão havia feito: auditou, de forma sistemática, o nível deevidência por trás das principais diretrizes internacionaisda área. O resultado foi 11,6% de recomendações classificadascomo de alta qualidade — um número que não é vergonhoso, mas que é incômodo...Neste episódio do Notas de um Psiquiatra, discuto o que essedado realmente significa — para além da manchete. O que é umensaio randomizado que os próprios especialistas decidemrebaixar? O que acontece com os temas que a ciênciasimplesmente negligenciou — descontinuação, autolesão,envolvimento do paciente? E o que isso exige de nós, comomédicos, na conversa com quem está do outro lado da mesa?Não é um episódio para assustar. É um episódio para pensarcom honestidade.REFERÊNCIASRømer TB, Andersson SN, Benros ME. Levels of evidencesupporting American, European and international guidelinesin psychiatry, 2014–2024: a systematic review withquantitative synthesis. BMJ Mental Health. 2026;29:1–9.doi: 10.1136/bmjment-2025-302194.Se gostou, compartilhe.Se não gostou, sugira melhorias e temas no @drhamerpalhares.Dr. Hamer PalharesPS: Conteúdo de caráter meramente informativo.@drhamerpalhares
-
19
9. O PARADOXO DO SONO
Tem uma cena que se repete no consultório. Paciente desessenta e poucos anos, cinco anos de clonazepam paradormir, me pergunta como sair. Eu costumo dizer a mesmacoisa: o comprimido não te faz dormir, ele te desliga. Nãoé a mesma coisa.Neste episódio do Notas de um Psiquiatra eu volto ao estudode Morin e colegas, publicado na JAMA em 1999, que comparouterapia cognitivo-comportamental para insônia, temazepam,a combinação dos dois e placebo em 78 idosos. Em oitosemanas, tudo parecia funcionar. Em vinte e quatro meses,só a CBT manteve o ganho — e a combinação também perdeudurabilidade.A questão clínica que sobra é menos sobre qual remédio emais sobre o que o paciente aprende com cada caminho. Sonoé a única coisa importante da vida que piora quando vocêse esforça. O comprimido reforça a ideia de que sono vemde fora. A CBT-I devolve ao corpo a ideia de que sono éalgo que se permite. A American College of Physiciansrecomenda CBT-I como primeira linha desde 2016.[REFERÊNCIAS]1. Morin, C. M., Colecchi, C., Stone, J., Sood, R., & Brink, D. (1999). Behavioral and pharmacological therapies for late-life insomnia: A randomized controlled trial. JAMA, 281(11), 991–999.2. Qaseem, A., Kansagara, D., Forciea, M. A., Cooke, M., & Denberg, T. D. (2016). Management of chronic insomnia disorder in adults: A clinical practice guideline from the American College of Physicians. Annals of Internal Medicine, 165(2), 125–133.3. Sateia, M. J., Buysse, D. J., Krystal, A. D., Neubauer, D. N., & Heald, J. L. (2017). Clinical practice guideline for the pharmacologic treatment of chronic insomnia in adults: An American Academy of Sleep Medicine Clinical Practice Guideline. Journal of Clinical Sleep Medicine, 13(2), 307–349.Se gostou, compartilhe.Se não gostou, sugira melhorias e temas no @drhamerpalhares.Dr. Hamer PalharesPS: Conteúdo de caráter meramente informativo.@drhamerpalhares==========================================
-
18
8. JUNKIE FOOD E TDAH: HYPE OU FATO?
Uma mãe me pergunta, com três bilhetes da professora na mão, se o filho tem TDAH. E eu penso numa pergunta que quase ninguém faz antes da consulta com o psiquiatra: o que entrou na boca dessa criança nos últimos quatro anos?Em março deste ano, a CHILD Cohort canadense publicou na JAMA Network Open um estudo com 2.077 crianças. Cada 10% a mais de calorias vindas de ultraprocessado aos 3 anos se associou a mais ansiedade, medo, agressividade e hiperatividade aos 5. Não prova causa. Mas reordena a investigação.Aqui no Notas de um Psiquiatra, eu queria falar do que esse achado muda — e do que ele não muda — no modo como o TDAH deve ser abordado.[REFERÊNCIAS]Kavanagh ME, et al. Ultraprocessed Food Consumption and Behavioral Outcomes in Canadian Children. JAMA Netw Open. 2026;9(3):e260434. doi:10.1001/jamanetworkopen.2026.0434Se gostou, compartilhe.Se não gostou, sugira melhorias e temas no @drhamerpalhares.Dr. Hamer PalharesPS: Conteúdo de caráter meramente informativo.@drhamerpalhares==========================================
-
17
7. ANTIDEPRESSIVOS E METABOLISMO: ENGORDAM OU NÃO?
Quando duas moléculas podem te separar por quatro quilos na balança e por mais de vinte batimentos por minuto, escolher qual antidepressivo prescrever deixa de ser detalhe técnico. Saiu no Lancet a maior meta-análise em rede já feita sobre os efeitos físicos dos antidepressivos. Trinta moléculas, cinquenta e oito mil pacientes, cento e cinquenta e um ensaios randomizados. Levei os números para o Notas de um Psiquiatra para conversar com calma sobre o que isso muda no consultório. Agomelatina e Bupropiona fazem a balança descer; maprotilina e amitriptilina sobem. Nortriptilina mexe no coração de jeito nada discreto. Duloxetina, venlafaxina e desvenlafaxina mudam o colesterol mesmo quando o peso cai. Fluvoxamina derruba a frequência cardíaca; reboxetina e levomilnaciprana aceleram. E talvez o achado mais incômodo do estudo: a melhora do humor não acompanhou a piora metabólica. O corpo segue caminho próprio. Por isso o risco físico precisa entrar na conversa antes da receita — não depois da próxima consulta. [REFERÊNCIAS]Pillinger T, Arumuham A, McCutcheon RA, D'Ambrosio E, Basdanis G, Branco M, Carr R, Finelli V, Furukawa TA, Gee S, Heald A, Jauhar S, Ma Z, Mancini V, Moulton C, Salanti G, Taylor DM, Tomlinson A, Young AH, Efthimiou O, Howes OD, Cipriani A. The effects of antidepressants on cardiometabolic and other physiological parameters: a systematic review and network meta-analysis. Lancet. 2025;406(10510):2063–2077. doi:10.1016/S0140-6736(25)01293-0Se gostou, compartilhe.Se não gostou, sugira melhorias e temas no @drhamerpalhares.Dr. Hamer PalharesPS: Conteúdo de caráter meramente informativo.@drhamerpalhares==========================================
-
16
6. CAFÉ & SAÚDE MENTAL: NOVOS INSIGHTS.
Tenho um paciente que toma oito xícaras de café por dia e jura que sente nada. Passei a semana pensando nele (e em mim também) depois de ler o estudo recente sobre café e saúde mental — quase quatrocentos e dois mil ingleses, treze anos e meio de seguimento, e uma em J que muda como devemos olhar para a xícara da manhã.O ponto ótimo é entre x e y xícaras por dia (quer saber? Escute o episódio). Acima ou abaixo disso, orisco de transtornos de humor e estresse sobe. E o detalhe que está das manchetes é o que mais me interessou: descafeinadotambém protegeu, e o gene que metaboliza a cafeína não modificou o efeito. O que isso significa para o consultório, e o que pedi promeu paciente fazer com as oito xícaras dele, é o assunto desteepisódio do Notas de um Psiquiatra.[REFERÊNCIAS]Song BR, Xu X, Chen J, Wang Y, Chen Y, Zhang Z, Han C, Dong H, Gao X,Sun L. Daily coffee drinking and mental health outcomes: Sexdifferences and the role of caffeine metabolism genotypes. Journal ofAffective Disorders. 2026;399:120992. doi:10.1016/j.jad.2025.120992Cornelis MC, et al. Coffee consumption and mortality by geneticvariation in caffeine metabolism: findings from the UK Biobank. JAMA Medicine. 2018.Kapellou A, Pilic L, Mavrommatis Y. Habitual caffeine intake, genetics and cognitive performance. Journal of Psychopharmacology. 2025.Se gostou, compartilhe.Se não gostou, sugira melhorias e temas no @drhamerpalhares.Dr. Hamer PalharesPS: Conteúdo de caráter meramente informativo.@drhamerpalhares
-
15
5. RAT PARK - SERÁ QUE APRENDEMOS ALGUMA COISA?
A JAULA QUE VOCÊ NÃO VÊEm 1980, Bruce Alexander publicou o Rat Park e colocou em xeque décadas de pesquisa sobre dependência química. Ratos em ambiente enriquecido consumiam muito menos morfina do que ratos em isolamento. Lee Robins confirmou o mesmo em escala humana: apenas cerca de 12% dos soldados que desenvolveram dependência de heroína no Vietnã mantiveram esse padrão após o retorno. A substância era a mesma. O contexto, não.Atendi pacientes que saíram de internações mais destruídos do que entraram — porque o modelo trata a pessoa como se ela fosse apenas o recipiente da substância. O vício aparece junto com isolamento, perda de propósito, uma vida que encolheu ao redor de alguém sem que essa pessoa soubesse nomear quando isso aconteceu.A jaula não precisa ser de metal. A pergunta que fica — qual é a minha gaiola? — é o que me fez continuar na psiquiatria depois de três décadas.REFERÊNCIASAlexander, B.K. et al. Psychopharmacology, 1980; 58(2):175–179.Robins, L.N. et al. Archives of General Psychiatry, 1975; 32(8):955–961.Robins, L.N. Addiction, 1993; 88(8):1041–1051.Hughes, C.E. & Stevens, A. British Journal of Criminology, 2010; 50(6):999–1022.Hari, J. Chasing the Scream. Bloomsbury, 2015.Se gostou, compartilhe.Se não gostou, sugira melhorias e temas no @drhamerpalhares.Dr. Hamer PalharesPS: Conteúdo de caráter meramente informativo.@drhamerpalhares
-
14
4. PROBIÓTICOS TRATAM DEPRESSÃO?
Em 2025, três estudos publicados em periódicos de psiquiatria clínicamostram algo real: o microbioma de quem está deprimido émensurável e significativamente diferente do de quem não está.E probióticos reduzem sintomas de depressão e ansiedade comoadjuvantes, com tamanho de efeito relevante. Isso não é hype.Mas a causalidade ainda não foi estabelecida. A duração dos estudosé curta. E nenhum deles foi desenhado para substituir tratamentofarmacológico. O que o Notas de um Psiquiatra tenta fazer aquié exatamente isso: separar o que existe do que é suficiente —e o que é suficiente do que é substituível.O intestino já entrou no consultório. O que você faz com isso importa.[REFERÊNCIAS]1. Lin, SK.K., Chen, HC., Chen, IM. et al. Dysbiosis and depression: A study of gut microbiota alterations and functional pathways in antidepressant-naïve mood disorder patients. Transl Psychiatry 15, 290 (2025). https://doi.org/10.1038/s41398-025-03521-12. Asad A, Kirk M, Zhu S, Dong X, Gao M. Effects of Prebiotics and Probiotics on Symptoms of Depression and Anxiety in Clinically Diagnosed Samples: Systematic Review and Meta-analysis of Randomized Controlled Trials. Nutr Rev. 2025 Jul 1;83(7):e1504-e1520. doi: 10.1093/nutrit/nuae177. PMID: 39731509; PMCID: PMC12166186. PDF OPEN ACCESS: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12166186/pdf/nuae177.pdf3. Zhang J, Zhu L, Meng Q, Wang Z, Zhu H. The efficacy of probiotics, prebiotics, and synbiotics on anxiety, depression, and sleep: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. BMC Psychiatry. 2025 Nov 27;25(1):1199. doi: 10.1186/s12888-025-07644-z. PMID: 41310510; PMCID: PMC12751681.PDF OPEN ACCESS:https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12751681/pdf/12888_2025_Article_7644.pdfSe gostou, compartilhe.Se não gostou, sugira melhorias e temas no @drhamerpalhares.Dr. Hamer PalharesPS: Conteúdo de caráter meramente informativo.@drhamerpalhares
-
13
3. A DESCOBERTA DO LÍTIO
Em 1948, um médico australiano que havia sobrevivido a três anos como prisioneiro de guerra em Changi montou um laboratório numa despensa inutilizada de um hospital de veteranos em Melbourne. Sem financiamento, sem laboratório formal, sem hipótese sofisticada. Com cobaias, urina de pacientes e uma pergunta que não conseguia largar desde os anos de campo.O que John Cade encontrou nessa despensa foi o lítio — e o resultado mais improvável da história da psicofarmacologia. Em vinte e oito dias, um homem que havia sido maníaco crônico por cinco anos estava na ala de convalescença, conversando normalmente.O artigo de Cade foi ignorado por mais de uma década. O mineral não podia ser patenteado. Nenhuma empresa tinha interesse em promovê-lo. Em 1949, o FDA americano baniu o lítio por razões que nada tinham a ver com psiquiatria. Levou até 1970 para os Estados Unidos aprovarem seu uso — como o quinquagésimo país no mundo a fazê-lo.Neste episódio do Notas de um Psiquiatra, conto a história completa: quem era Cade, como ele chegou até ali, o que aconteceu com o primeiro paciente tratado, e por que o lítio ainda importa — talvez mais do que nunca.[REFERÊNCIAS]Cade, J.F.J. (1949). Lithium salts in the treatment of psychotic excitement. Medical Journal of Australia, 2, 349–352. DOI: 10.5694/j.1326-5377.1949.tb36912.x. PMID: 18142718.Baastrup, P.C. & Schou, M. (1967). Lithium as a prophylactic agent. Archives of General Psychiatry, 16(2), 162–172.Schou, M. et al. (1970). Pharmacological and clinical problems of lithium prophylaxis. British Journal of Psychiatry, 116(535), 615–619.Shorter, E. (2009). The history of lithium therapy. Bipolar Disorders, 11(Suppl 2), 4–9. PMC: PMC3712976.de Moore, G. & Westmore, A. (2016). Finding Sanity: John Cade, Lithium and the Taming of Bipolar Disorder. Allen & Unwin.Se gostou, compartilhe.Se não gostou, sugira melhorias e temas no @drhamerpalhares.Dr. Hamer PalharesPS: Conteúdo de caráter meramente informativo.@drhamerpalhares
-
12
2. VOCÊ Ė SEU DIAGNÓSTICO?
Uma paciente saiu de um episódio depressivo gravee me disse que sentia ter perdido algo. Não erarecaída. Era outra coisa — o diagnóstico havia setornado quem ela era. E sarar parecia apagar isso.Esse fenômeno tem nome na literatura clínica.Tem dados. E ganhou escala com as redes sociais deum jeito que muda o que acontece dentro dosconsultórios todos os dias.Neste episódio do Notas de um Psiquiatra, partodessa cena para investigar o que acontece quando umcódigo diagnóstico ocupa o lugar de uma identidade —o que a pesquisa diz, onde essa equação se complica,e o que fica de nós quando o diagnóstico some.Para quem está em tratamento, para quem cuida,e para quem se pergunta: o que sou eu além disso?[REFERÊNCIAS]Cruwys, T. & Gunaseelan, S. “Depression is who I am”:Mental illness identity, stigma and wellbeing. Journalof Affective Disorders, 189, 36–42, 2016.DOI: 10.1016/j.jad.2015.09.012Yanos, P.T., Roe, D. & Lysaker, P.H. The impact ofillness identity on recovery from severe mentalillness. American Journal of PsychiatricRehabilitation, 13(2), 73–93, 2010.DOI: 10.1080/15487761003756860Haslam, N. Concept creep: Psychology’s expandingconcepts of harm and pathology. PsychologicalInquiry, 27(1), 1–17, 2016.DOI: 10.1080/1047840X.2016.1082418Se gostou, compartilhe.Se não gostou, sugira melhorias e temasno @drhamerpalhares.Dr. Hamer PalharesPS: Conteúdo de caráter meramente informativo.@drhamerpalhares
-
11
1. NOTAS DE UM PSIQUIATRA
A FRASE QUE JUSTIFICA TUDOHá uma frase que ouço, de vez em quando, depois de algumas consultas. O/a paciente se senta, olha para mim e diz: “Agora eu estou bem.” Não diz: estou melhor. Diz: estou bem.Vinte e cinco anos de consultório, e essa frase ainda me para.Este é o primeiro episódio do Notas de um Psiquiatra — e escolhi começar por aqui porque tudo o que este podcast quer ser está contido nessa cena. No NOTAS, aponto o que aprendo, o que me surpreende, e o que a experiência clínica ensina é um bom bocado de ciência, humanizada, reflexiva.Saúde mental virou pauta. Este podcast existe para fazer o movimento contrário ao que domina esse espaço — trazer complexidade sem inacessibilidade, rigor sem distância, e tempo para o que não pode ser simplificado.Se gostou, compartilhe.Se não gostou, sugira melhorias e temas no @drhamerpalhares.Dr. Hamer PalharesPS: Conteúdo de caráter meramente informativo.@drhamerpalhares
No matches for "" in this podcast's transcripts.
No topics indexed yet for this podcast.
Loading reviews...
ABOUT THIS SHOW
Escolhi psiquiatria porque a divisão parecia óbvia pra mim: corpo ou mente. Hoje, com a prática, não tenho tanta certeza dessa fronteira. A maioria dos conteúdos de saúde mental oferece informação, mas esconde quem fala. Eu prefiro o contrário.Sou Hamer Palhares, médico Psiquiatra formado há pouco mais de um quarto de século.Notas de um Psiquiatra é um espaço onde você espia meus apontamentos — o que aprendo no consultório, nas leituras e no interesse que não para de crescer pela mente humana.
HOSTED BY
Hamer Palhares
Loading similar podcasts...