PODCAST · arts
Felipe Simão - Poesias
by Felipe Simão
Todas as poesias publicadas de Felipe Simão.
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27 - Lua de carnaval
A lua antecipou a noite, foi de afoite, brincar carnaval à luz do dia, repentina, toda vadia, entregue como serpentina no meio da multidão, perdeu-se entre todas as gentes, todas as cores, toda emoção, foi mulher vivida, de muitos carnavais, foi moça atrevida de prazeres carnais, foi pé de folia que não descansa jamais, foi confete, espuma, suor, fumaça, desejo, fantasia e mais puro tesão, foi corpo de maresia a que nenhum homem diz não, purpurina de alegria que gruda em qualquer coração, foi beijo de menina que ensina o virgem folião, foi saber de folia, foi mais que um dia, foi minha primeira paixão
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26 - Eu ainda te amo
É meia-noite e eu sei que você não me ama, eu me despedaço, afundo na lama, eu me afogo nos lençóis, eu que tanto pensava em nós, não passamos dum fiasco É meia-noite, acusam os ponteiros como acusam os meus pensamentos, as memórias dos fatos, que você não me ama É meia-noite, quantos não estão amando seus amores verdadeiros? construindo célebres momentos histórias sem substratos de mentiras, é meia-noite e eu choro na cama É meia-noite e eu pensando em você, com medo de desligar o som da TV e ouvir a sua voz, é meia-noite e eu tento esquecer, mas o seu desejo é algoz do meu sono, é querer o beijo dum coração sem dono é meia-noite, é fim de mês, é o último dia do ano e eu ainda te amo
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25 - Cobertor de lã
Hoje não estou bom com as palavras, me nego a conversar, perdido nos meus próprios assuntos que não interessam a ninguém; só quero alguém para dividir o silêncio, um abraço quente, um cobertor de lã e não ter que pensar no amanhã
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24 - Caso de maldade
Eu perdi a minha virgindade e você perdeu a sua fidelidade, não sei se foi um caso de amor ou de maldade, foi um prazer de momento do qual agora só nos resta o constrangimento
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23 - Diapasão
Quando contigo me deito, faço do nosso leito ninho de amor vadio, de ti jamais me sacio, pelas tuas linhas me enfio, sinto em nós forte vibração, perco-me nesse diapasão, e não consigo distinguir a emoção, se louco prazer ou pura paixão, só me deixo levar pela eloquente sensação de estar nos teus braços, dos gemidos, das tremedeiras, dos meus descompassos; nossos corpos só se deixam esparsos, no instante que já não resta no fôlego sopro, em que a fadiga é um secante escopro, contigo tudo é tão bonito, só ela interrompe o nosso amor infinito; fico prostrado, mas não aflito, junto a ti, o destino nem fito, não temo o futuro, pois no nosso quarto escuro, o tempo não importa, por detrás daquela porta, a gente se comporta como dois imortais, refugiados nos prazeres carnais, e os delírios mais sublimes nos parecem normais
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22 - Síndrome de Estocolmo
É uma pena que uma mulher tão linda, tão inteligente, que gosta de ser livre, que gosta de sexo, e encara o preciosismo machista que habita em todas as mulheres, uma pena que seja tão fútil, que viva a mercê de homens mais velhos Você deixa que eles suguem toda a sua juventude, eles nunca vão se saciar, você só vai perceber quando sugarem até a tua inocência, tarde demais, você agora é um pulmão sem ar, seios sem sustentação, aos quarenta anos, sem amor, sem emprego, sem rumo, esse é o preço duma vida de ilusão, de tudo isso que você considera o suprassumo, você abraça todas as frivolidades, abraça esses tórax peludos, fazendo deles uma couraça para se proteger, mal nota que se encerra na própria prisão; numa síndrome de Estocolmo você se tranca no castelo com seu “príncipe encantado”, se encanta ao ver da janela o mar e não vê o príncipe virando sapo, a desventura do fim da sua vida vai sendo costurada sorrateiramente transparente
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21 - Excesso de amor
Essa noite você vem? Não se preocupe meu bem, não é errado ter excesso de amor e querer mais alguém eu sei que você ficou louca depois de ouvir o meu áudio, quer ser promíscua como uma imperatriz romana, venha comigo trair o seu Cláudio, encontrar no prazer proibido o seu nirvana, drogada pela insanidade profana; de que vale um marido quando não satisfaz a libido?
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20 - Nada sério
É na escuridão que brilha nossa paixão; um dedo no interruptor, vários pelo corpo, perambulando sem escopo, prazer disruptor; de fundo música a meio-tom, sintonia em império, o nosso caso não é sério, é um gostoso talvez que se desenrola no looping da nossa esteira, a decisão fica na prateleira perpetuamente esperando a sua vez; a incerteza é uma delícia, nossos comentários de privada malícia, que fazem desconfiar os amigos, interrogados, a gente nunca confessa, seja na fusão de dois corpos suados ou na partilha de sentimentos mais polidos, da pressa somos inimigos, vivendo um eterno deixa-estar, o moderno “deixar-rolar”, melhor que imaginar é de fantasias brincar
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310
19 - Sopro das minhas cinzas
Neste quarto quero ser contigo mais que duas mulheres de mãos dadas, duas amigas disfarçadas, quero ser uma só nudez entrelaçada, beijar a tua tez e descer com calma por todo o teu corpo, nós duas perdidas de prazer, nas regiões encontradas; o quanto eu te amo, minha namorada, minha deusa vadia, não podem explicar os especialistas; o nosso amor desafia: a inteligência dos cientistas, a experiência dos sábios, a cura do messias, todas essas filosofias na porta deste cômodo são matérias extintas, da tua beleza nunca me distraio, eu me colo nos teus lábios de onde só saio no sopro das minhas cinzas
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18 - Sou poeta, não sou Romeu
Malditos versos, nunca acabam, sempre mais uma linha a digitar, sempre mais um motivo a fazer reclamar os meus dedos cansados, mas que malcriação minha, chamá-los desgraçados, são uma benção, que não acabem nunca, que passem por cima de mim e durem muito mais que eu, quero ser velado coberto de poesias, morrer pela literatura e não por amor, como fez Romeu
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17 - Saudade
A saudade é emoção que invade, inunda, às vezes é doce, sensação de candura, outras, tem gosto de amargura; às vezes é um sentimento de ternura, outras, ataca com voracidade, como se tivessem arrancado um pedaço nosso numa sessão de tortura, dor tão forte que a gente se entrega ao insano, amadurece o desejo leviano de nunca ter vivido aquilo e se esquece que pior que a saudade é uma vida não vivida, se eu pudesse optar pelo modo do meu findar, gostaria de morrer de saudades, despido de todas minhas vaidades, todas as trivialidades, as quais a gente se apega como se fossem o Santo Graal, não larga, não entrega, vivendo carregados de desimportâncias; quero encontrar na morte o desapego total, que me faltem preocupações, que me faltem pendências, que me falte o vazio existencial e só me reste a certeza de que vivi uma vida feliz
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307
16 - Faço poesia
Eu não faço amor, faço poesia; a luxúria é vazia para quem mergulhou na dor e hoje tem vício de viver; sou distante, dessas noites o destino me priva, não consigo entreter, me conectar; o momento ofegante fica à deriva, insiste em se dissipar, não chega ao flerte, não entra no quarto, não deixa a roupa no tapete, não sobe na cama; para mim tudo é um parto, toda gente me desama sem antes me provar Só perco o sono até mais tarde, perdido no meu pensar; achei que diante do fogo eu fosse covarde, mas eu tenho é muita vontade de amar
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15 - Eu te superei
Tantos dias chorando as tuas saudades, tantas noites sonhando as tuas devassidades, e numa manhã repentina, com um insight de surdina, eu te superei; o que somos não sei, "amigos" foi um termo que no passado precipitadamente afirmei; teu jeito matreiro e confuso, meu pensamento caótico e difuso; como a nossa relação, somos muitos difíceis de entender; tem uma dose razão o lado que me manda te esquecer, mas a verdade, com toda sinceridade, é que agora contigo não sei o que fazer
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14 - Jogo de amor
Não há nada para me perguntar, eu conheço as regras do jogo na cartilha coloquei fogo, não quero jogar; ponho todas as cartas na mesa para não ter incerteza, sem blefes, sem flertes, mostro a minha cara e ninguém me encara; um ais de paus do naipe de ouros é diferente, eu sou o caos na normalidade aparente, num jogo de amor não se pode perder não existe desacerto algum não é um embate, é partida de empate, placar de um a um; mas elas assustadas me deixam vencer, largam o jogo, deixam a mesa, negam fogo, apegam-se ao pudor na noite de amor, escolhem a tristeza
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304
13 - Vício
Você é um vício o arrepio de estar à beira do precipício você é louca mas sou eu que vou para o hospício se ficar mais um segundo sem a sua boca
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12 - Aqueles olhos
Eu conheço aqueles olhos e eles me conhecem, pelas lentes de outras dimensões, de outras vidas não me esquecem; eu confio naquele olhar como se entre nós houvesse um laço que nunca teve lugar, nunca teve espaço, desses olhos não preciso fugir, não preciso disfarçar Eu conheço aquele sorriso, ele me dá um aviso do qual não sei lembrar, é um sorriso bonito tão lindo que seria impossível na memória não se eternizar, é por alguns segundos, mas o sinto como se fosse infinito, dois lábios que se abrem para as maravilhas do mundo revelar; ela tem um charme que é impossível não captar inadmissível não se deixar levar, de onde… de onde eu te conheço e como te deixei escapar?!
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302
11 - Amor covarde
Eu amo demais, eu amo assaz, amo em dobro, amo e nunca tenho logro, porque quando as pessoas percebem que me amam, já é demasiado tarde; o amor que me dão é covarde, não corre atrás, e mesmo que corresse, o fim é de fato esse, não há o que se conserte, não há desejo que se desperte, quando as palavras malditas já melaram tudo, não há melô, não há prova de amor, não há pau duro
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10 - Personagem
A primeira mulher que amei o meu amor desfez quando me definiu, “um personagem”, ofensa de nova roupagem; pobre alma disparatada, uma vida repleta de elogios e romances que não dão em nada, não sabia o quão profundamente estava errada, eu não sou um personagem, sou a história, homem imponderável, não existo, aconteço! E no dia em que for apenas uma memória, sei que dirão, “dele não me esqueço”
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9 - Zero a zero
Quando estou conversando com você, sinto que as palavras ficam na ponta do pé, mas nunca põem a cabeça para fora da janela, não saem pelos seus lábios de lua; você foge de mim, mesmo caminhando ao meu lado na rua, você me tem como sábio, mas eu só lanço para o ar ideias nuas Já anunciei o cessar-fogo, mas você vê segundas intenções nos meus atos, para você tudo é um jogo, e nas entrelinhas dos fatos o seu charme vira coquetismo, meu espírito, forma de ocultismo, poli amor ou um polimorfismo de relações, muito presumidos e apegados a suposições; é um bem-me-quer que não quero eterno placar de zero a zero
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8 - O silêncio também fala
Você sente minha falta, sofre calado e se orgulha de eu não ouvir isso da sua boca, a si mesmo renega os próprios sentimentos, fazendo essa cara blasé de homem racional, você acredita ter o controle de tudo, e mesmo nas frias madrugadas quando não é mais possível aturar, o seu coração salta a cadeia de montanhas geladas que você construiu em torno de si, na primeira calmaria você se esquece do próprio sofrimento, não abandona essa fé de ser um homem sem fé no amor, sem fé em si próprio, um peito de pedra; perdido a esmo, você aceita fácil demais o seu fim, não tenta mudar, entender, melhorar, amadurecer, evoluir, isso me levar a crer que você não consegue encarar, só sabe fugir, com seu ar de propriedade você esconde a minha saudade, tenta escapar da verdade; você ainda me quer, sofre calado não se atreve a dar um passo, no fundo, eu tenho muito ainda tem muito espaço nesse peito gelado para me sentir
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7 - Antes de amar
Perdi meu amor, antes de sentir no peito ardor antes de provocar com meu toque calor antes de encontrar nos seus braços fulgor, perdi meu amor antes de ter o que se ter para sentir dor Perdi meu amor, e o que me invade é a saudade do que não vivi daquilo que não senti, mas que poderia ter sentido, se algum houvesse nas suas desculpas Perdi meu amor, antes do sabor, antes do despudor, antes do meu corpo em sudor rolar com o seu na cama, antes de ouvir que ela me ama; perdi meu amor antes mesmo de amar, dentro de mim, um desejo se recusa a calar o beijo que nunca hei de provar
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6 - Yasmin
Com uma mentira branca que no bem-me-quer a pétala se arranca, fingi te conhecer para fingir te desconhecer se bem que não deixa de ser verdade, pois desde a faculdade, os meus olhos te conhecem, minhas lentes jamais te esquecem, sentada no outro lado da rua, tua pele alva, cor de lua, que eu queria que brilhasse, e iluminasse a minha madrugada, que fosse na minha escuridão alvorada, que de noite pudesse te amar, sem pensar em mais nada Yasmin, teu cheiro de jasmim, com meu olfato queria sentir, os teus sussurros na minha orelha ouvir, a minha pele tingir com teu batom cor de carmim, o teu sabor do desejo que arde em mim, queria nós dois assim, queria uma noite sem fim
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5 - Eu te amo?
Na minha cabeça eu te amo e desamo, fantoche duma alucinação que tolo sendo, de presunção estupendo, acredito poder controlar, evito pensar e às vezes até me esqueço da minha paixão, inutilmente me agarro à negação, não sei por que se dá a esse esforço minha mente, talvez seja só para que eu, vítima indefesa do amor teu, tenha sempre a deliciosa surpresa, de redescobrir o meu amor por ti numa inesperada hora, momento que percebo onde fica o aqui, desconfio, pois a paixão é vadia, desejo sem fio, e um dia vai embora, sai de casa sem deixar aviso, sem se importar com o prejuízo não se despede nem se demora, mas enquanto ela volta, enquanto me envolta, enquanto não se desfaz em pedaços, quero abrir os braços e brincar no paraíso
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4 - Corda bamba
Andamos pelas ruas nos esbarrando como se houvesse um ímã entre nós, somos bastante íntimos com as palavras quando estamos a sós, dois corpos que não conseguem ficar longe um do outro, você abusa da nossa intimidade, na presença de todos passa a mão na minha bunda, me puxa pelo braço, me exibe como um namorado postiço, a nossa relação é íngreme, não respeita fronteiras; veleja entre a amizade e a ousadia e já não se sabe o que é piada e o que é insinuação, se é amor puro ou combinado com tesão, a gente não sabe que passos dar nesse samba mas nenhum dos dois quer descer da corda bamba
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3 - Eduarda
Minha madrugada é viva na companhia dessa mulher altiva, Eduarda, menina carinhosa que no peito se guarda, criatura amável, admirável, a sua coragem de dizer aquilo tudo que sabe fazer; é mulher que se imposta, diz do que gosta, o que é gostoso, o que leva no seu gozo e que não quer esposo; é mulher independente de atitude, pra frente; ela é ao mesmo tempo anjinho e capeta, com o seu corpo de silhueta faz qualquer coração dar pirueta Sedutora, dominadora, submissa, que a luxúria atiça, do prazer, afeita, mulher que vicia, mulher plena que nunca sacia, mulher recatada, mulher desvairada, mulher refeita, mulher complicada e perfeita
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2 - Eva recifense
A sua voz é doce, sai mansinha lambuzando os lábios que eu tanto quero provar; nos teus divinos olhos verdes quero mergulhar e na sua infinitude, o seu mundo, o quanto mais eu me aprofundo, posso cada vez mais me esquecer, ser um homem refeito em você, me tornar um semideus, a quem não importa nem o tempo ou o espaço, desfazer todo tipo de embaraço na quentura do teu abraço, desconhecer as mazelas do mundo ouvindo seu sotaque pernambucano sussurrando no meu ouvido, acreditar em tudo que eu duvido Ah se você fosse mais que um sonho distante, lá de Recife, desejo que me excite, que da minha cabeça a muito custo se dissipe, você não seria só detentora destes versos, seria dona de mim, uma mulher tatuada por afagos diversos e prazeres sem fim, seríamos dois amantes curiosos como Adão e Eva, perdidos no próprio universo, dois vadios no jardim, mas desta vez sem cobra, espada ou fogo, sem “Deus” e seus moralismos sem qualquer tipo de anjo, sejam guerreiros ou querubins
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1 - Menina do bistrô
O que será que tenho para te dizer? O que posso te oferecer? Por que decidi este poema te escrever? Seria amor à primeira vista ou apenas um ardor oportunista? Seria um admirador altruísta ou apenas a falta de pudor que há em todo artista? Qual será o sabor dos teus lábios, à distância tão doces? Queria provar esse frescor, queria sentir o teu calor e te amar no despudor, que ao mundo dos delírios comigo fosses, menina por quem perco meus olhos no bistrô
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42 - 16 de fevereiro
Essa foi a minha primeira noite sem pesadelos, em dois meses; a vida urbana por si só já é um risco de morte, a vida familiar é um emaranhado de intrigas sem solução dia após dia perigas na beira do abismo e nessa desventura, matura a ideia de que os idealismos são sem razão Hoje é 16 de fevereiro, sexta feira, 2024, e a única coisa que desejo, no fundo do meu peito, é paz
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41 - Vereda
Para dizer a verdade, percebo que esse caminho de linhas tortas não me levou a lugar nenhum, longe ou perto dos meus sonhos, continuo distante da realização, o caminho em si não me ensinou nenhuma lição sou eu que devo tirar as lições das estradas que escolhi
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40 - Vislumbre
Faz um ano que cheguei; a mulher por quem me apaixonei não é mais a mesma, Ipanema perdeu o vislumbre; a Lagoa a praia, o morro Dois Irmãos, são retoques de uma lembrança que exige novas demãos para não esmorecer com o tempo, como uma pintura em afresco; a clausura do apartamento já não parece desperdício, as aves exóticas já não me inspiram mais que os quero-queros e os pardais as amendoeiras têm menos encanto que as casuarinas; a minha terra é feia, mas lá ainda é permitido se olhar nos olhos; eu sigo aqui, de pupilas perdidas, ando pelas ruas sem me encantar, observando tudo com a pachorrência cotidiana que percorria as vias esburacadas de Santo Amaro; vendedores e pedintes já não me abordam, sequer me notam; talvez tudo esteja a mesma coisa, eu é que mudei, Ipanema me ensinou a admirar exibindo a sua beleza mas também me ensinou a fechar os olhos para o que não convém
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39 - Sem direção
Não sei se me entrego ou se só aceito o mau gosto da sorte, a caminhos predefinidos não me apego, expectativas não rego, ando sem um norte, uma bússola é tão inútil quanto a prudência, o quão fútil é a aparência; meu horizonte é traçado por linhas tortas, vejo meras tábuas de madeira que todos insistem em chamar de portas, todo esse grande valor, a propaganda dum predial esplendor, são ideologias de paisagem, acho tudo uma grande bobagem, oportunidades não te encerram num cubo; eu apenas me masturbo, pois não faço sexo sem amor; as verdadeiras chances são aquelas que a gente se nega a ver, são os sonhos que a gente se priva de ter, o lúdico não é digno, a arte não é labor, o tédio é fidedigno e por isso tem valor, então a gente rasga o poema e se condena a uma vida sem calor
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38 - As palavras voaram
Quando eu me tornei escritor, as palavras foram perdendo o valor pra mim. Eu percebi que as palavras são como as sensações, só são eternas no papel. Quando eu me tornei ator, notei que o que as pessoas me dizem, não tem tanta importância, a gente se treina a agir de determinadas maneiras Quando eu me tornei comediante, cheguei à conclusão de que o maior erro que se pode cometer é levar a vida a sério demais. O mais estranho é que agora que estou quase me tornando uma pessoa, o sentido se inverteu completamente, no início dessa jornada, eu queria conseguir dizer o que sentia, hoje eu sinto que nunca precisei dizer nada.
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37 - Aquele dia na Lagoa
Sentado no cais da Lagoa, à frente, uma estátua, às minhas costas, a Cruz de Malta, pela primeira vez meditei de olhos abertos, pois me recusei a fechar as pálpebras diante de tanta beleza, o ar era mais puro, o vento mais brisa, o céu mais azul, as folhas mais verdes, e nada disso é exagero, pois nada era ficção Naquele dia na Lagoa, venci todos os meus medos, embebido de toda coragem e de toda pureza, virei um novo homem, andei até a beirada, sorri espontaneamente e proclamei: “Cidade Maravilhosa, abro os meus braços para ti serás minha e juntos venceremos”
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36 - Equilíbrio desconhecido
Não sei quem sou, o que gosto de fazer, o que gosto de comer, qual é o meu habitat natural, se rodeado de gente ou sozinho no meu quarto, com quem ter, se com mulheres ou com homens, talvez unido aos dois pronomes, talvez com todos os pronomes, que depois eu nem consiga lembrar de todos os nomes, uma loucura que me faça esquecer meus sobrenomes; seria eu comedido ou desvairado? Um sujeito incompreendido ou um espécime a ser erradicado? Sento no divã ou pego papel e caneta? Seria eu ambos, maníaco e terapeuta? Um homem de senhos brandos e desejos bambos, racional e intuitivo, levando a vida aos trancos e barrancos; seja com palavras ou com a pele, não sei ao certo o que sentir, na boca, o gosto do suor ou o da lágrima? Respirar de peito aberto ou forçando o diafragma? São muitos dilemas para um só homem; escolho os meus rumos ou deixo que eles me tomem? Parece que se desprendem as minhas costas, estou a ermo; com tantos contrastes é difícil encontrar o meio-termo
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35 - La douleur
Je pense toujours à ma douleur. Qu’est-ce que dois-je faire avec ma douleur ? Évidemment, je dois faire quelque chose, frapper le mur, vivre un amour, écrire un livre, méditer, m’éditer ; je dois transformer la haine, l’angoisse, la désillusion en autre chose que me va faire renaître Je m’ai trop haute En vérité, je ne me permets pas être sans réponse ; je pense que je dois dire quelque chose au monde, je suis en dette cars, je pense que le monde est en dette avec moi je ne suis aussi importante, je ne me permets oublier, pour marcher à la rencontre du destin La douleur existe, ça n'est pas un vrai problème, la douleur est là laisse tomber, le soleil se lève tous les jours se ci sont encore des jours pour me lever, rien à faire, la douleur se doit seulement sentir. C’est ça.
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34 - Sacola vazia
Hoje, depois de acordar, me olhei no espelho e eu não estava lá, era outro no reflexo, irreconhecivelmente igual, nem quem eu fui e nem quem eu quero ser, era alguém que se perdeu e foi parar em Icaraí, alguém que não tinha o que era meu e esqueceu de si, que das próprias virtudes se desprendeu e apagou tudo que vivi, largou tudo que aprendi, largou sua cidade para viver um sonho, uma fagulha no breu; descobriu na irmã um demônio, e agora o próprio destino não é mais seu, talvez nunca tenha sido, e se da raiva tivesse se desprendido, deixado-a partir, se além disso alguma coisa conseguisse sentir, se é só esquisitice ou de fato escondo o meu verdadeiro eu, se fosse mais eu ou menos eu, estaria ainda aqui ou teria sido jogado aos leões do Coliseu? Sou uma sacola vazia que ficou por aí, com o vento a me levar, se tivesse algo para dar trocaria por um coração fértil de amor e a sabedoria de perdoar
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33 - O mundo
Sofá, pipoca, um filme em preto e branco, uma tarde de domingo, o descanso merecido, um recanto de amor por nós construído, quatro lábios colados que nada parte, Casablanca já não é no Marrocos, agora fica em Marte Dissolvido na cor dos teus olhos, eu me sinto encasulado num segundo, como uma borboleta prestes a voar pela primeira vez, os sonhos tomam conta do ar e o teu rosto fica mais lindo a cada vez, a tua pele me cobre como feitiço, é a razão da minha vida, a causa do meu sumiço, perdido há tanto tempo em ti, o mundo já não sente mais a minha falta e eu já não sinto falta do mundo Porque eu te amo e não consigo deixar de te amar
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32 - Harmonização facial
A gente se amava tanto, o primeiro a amor é sempre o mais latente, a eternidade da adolescência cada aula matada pela conveniência do nosso romance o primeiro amor tudo permite tudo fica ao nosso alcance quantas lições perdidas que hoje nada importam nas nossas vidas quantas vontades repentinas correspondidas que o hoje o impulso a gente não se permite a vida de adulto só admite sensatez Ainda lembro de você me esperando na porta da sala tomando Coca-cola, eu que tanto sonhava em ser jogador de futebol, quando aprendi a amar, esqueci de jogar bola; nós dois na praia, você em cima de mim, o seu cabelo me protegia do sol, o verão é bom demais para quem ama pela primeira vez, nós dois no chuveiro o medo, o desejo incalável de fazer amor, nós dois na casa de praia nós dois o tempo inteiro, vieram outonos, invernos e o meu mundo crescia com você vieram primaveras e a minha vida se desabrochava com você A gente se amava tanto, e hoje aquele quarto está a mais de 400 quilômetros, esse amor há mais de quatro anos, o sol secou o nosso beijo molhado de chuva e a minha memória parece ter sido convertido em grão de areia que o vento fez questão de varrer eu tento me lembrar de tudo, não fazer da lembrança uma história que eu contei pra mim mesmo, como minha mãe me contou as histórias da minha primeira infância; eu quero uma memória real, mas as suas fotos do Instagram só remontam um falso retrato você não era assim, excesso de maquiagem, preenchimento na boca, nariz operado, harmonização facial eu queria poder redesenhar as suas imperfeições com palavras, e beijar com meus versos pela última vez a mulher que eu amei
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31 - Vida de plástico
O emprego dos sonhos, estável, bem remunerado, almoços, reuniões, gráficos, relatórios, e-mails, férias na praia, palestras, discursos motivacionais, as mesmas trivialidades, as mesmas piadas na hora do cafezinho, os mesmos assuntos, tempo, família, o que dá certo na cozinha, o novo produto de limpeza, como está engarrafado o trânsito, imóveis, aluguel, contas a pagar, ter que trabalhar, aqueles papos de coach, com tantas palavras desnecessárias em inglês, futebol, política, nenhuma profundidade, chegar a casa depois das sete, jantar, mulher, filhos, e uma amante para os dias de hora extra; eu não quero nada disso renego todo esse projeto existencial que fizeram para mim, ser mais um engravatado no meio de vários outros engravatados, que só mudam de nome, de endereço, de escritório, de perfume, de cor de gravata, que fazem amor de forma mecânica, que tem certeza do significado da vida e preenchem seu vazio com o inessencial, dinheiro, um novo cargo, um apartamento no metro mais caro da cidade, a casa na praia, o carro do ano, pagar a faculdade que eles escolhem para os filhos, viajar para Europa, ir a Disney, uma aposentadoria segura, uma esposa troféu, eles têm tudo isso e são tão vazios quanto eu Sou visto como um homem sem aspirações por não querer essa vida de plástico; a diferença entre mim e eles é que busco respostas, sem simplesmente aceitar as que me dão, criar uma opinião própria e enxergar algo além do chão; eles vivem iludidos na ignorância e eu, inquieto numa assustadora consciência, eles não entendem as suas vontades, seus sentimentos, suas necessidades além daquilo que é material; sua masculinidade é estufada por orgasmos fingidos de esposas ressentidas e jovens com carência parental, cheia como um balão pode explodir com uma simples agulha, deixar de existir com uma simples dedada; já eu, me entedio de mulheres que não sabem conversar, vivo sozinho com meus orgasmos múltiplos, um único homem num cômodo esvaziado de calor humano, mas cheio de sonhos, projetos, Cultura, Arte, História e Literatura; invenções pairam no ar, exalam-se por todos os ecos das paredes, aparecem em todos os espelhos entram e saem pelas janelas, ocupam as telas, os papéis, a mesa, invadem os aparelhos; diversos mundos se fazem na minha mente, constroem-se diante dos meus olhos, ganham vida pela minha voz; esse quarto é um calabouço enfeitado, às vezes chego a esquecer da minha própria infelicidade, mas assim como eles eu não posso fugir da solidão, não importa quantas pessoas estejam à volta, ela está cerrada dentro de nós, nos condenamos a esse estado, seja tentando ser sozinhos ou ser iguais, no fundo, todo mundo é diferente, mas ninguém aceita os desiguais; eu me contento em ser um infeliz criativo, não engulo essa normalidade inócua, emprego, burocracia casamento, crianças batizadas, uma lareira que aquece o corpo e congela a alma; cuspo essa fórmula mágica da felicidade que me enfiaram goela abaixo, como quando era menino e cuspia todo tipo de remédio; essa prescrição nunca curou nenhum paciente de pular do precipício, pois quando o fim do dia chega, a cabeça no travesseiro se deita, não importa se há uma pessoa do lado, todos veem no teto a própria solidão e se a tristeza é inevitável destino, quero errar diferente, por isso me destrilho e busco encontrar alguma transcendência antes de ser engolido pelo vácuo da inexistência
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30 - Itaperuna
Parece cocaína, mas é só Itaperuna, numa ressaca da festa de Medicina, um café vagabundo que deixa na boca um gosto de milho-torrado, é o sabor amargo da lembrança de que na vida eu nunca tive um verdadeiro amor no apartamento, terceiro andar, abro a janela e fumo o meu prensado para esquecer do meu futuro mal planejado, que no passado nem penso mais; eu só lembro do cheiro do seu condicionador cabelos afagados, um odor de carinho malcriado, os traços dela desapareceram da minha vida como passos na neve, a gente só lembra quando bebe, a gente só lembra quando não deve, só lembra quando não pode mais, coloca o telefone na bochecha e profere com a voz embriagada um monte de frases sem sentido Parece cocaína, mas é só Itaocara, talvez Campos dos Goytacazes, em setembro, nem lembro mais das histórias de quando eu morava com meus pais, das tantas vezes em que eu quebrei a cara, já fui despejado de tanta casa que perambulo pelas ruas do Rio como um anjo sem asa, vejo as ondas quebrando na pedra do Arpoador; esses filhos da puta não conhecem a minha dor, eles não sabem como é morar no interior; e as ondas violentas de Ipanema me levam nesta tarde cinzenta, para aquela vidraça em Itaperuna, vejo a vagarosidade da gente que passa e os julgo da minha Tribuna, julgo toda aquela gente que como eu nunca aprendeu, que não sabe amar eu grito para o mar, eu grito para expurgar o amor maldito da festa fantasia de Bom Jesus grito blasfemeio, taco pedra na Cruz, que alívio é mandar "Deus" à merda ele e toda aquela vida de merda que “Ele” planejou para mim grito o mais alto que posso, grito sem pudor, proferindo ofensas ao Cristo Redentor grito até me cansar e adormecer nas areias fofas da praia
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29 - Intrigas internacionais
O Universo é imenso, infinito, o dinheiro, o sexo, a vida, tudo é finito, os homens não passam de formigas que conspiram intrigas internacionais, são pedaços de barro aos quais “Deus” deu vida, todos eles vaidosos, prostram-se pomposos, crendo-se imortais, mas a vida uma hora se finda, um dia todo homem jaz
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28 - Paixões de um poliglota
Canções em sueco, filmes em inglês, palavrões em espanhol, obscenidades em francês, pensamentos em italiano, frases em japonês, versos em napolitano ou no dialeto romano, o idioma do cotidiano é o bom e velho português, mas não acaba por aí, de tudo há, de ditados em tupi a cantigas em iorubá As línguas se mesclam na minha cabeça, lambem meus ouvidos, se perdem na minha boca, se despem diante dos meus olhos e eu me desencontro com as letras, não sei que ortografia é de quem, que palavra é de uma ou de mais alguém, que expressão é de onde, se é uma ideia nativa ou traduzida, cidadão cosmopolita, os meus lábios são poliglotas, poligâmicos, entregam-se vadios a todas elas, mulheres por quem me interessei e pude conhecer, mulheres que amei e não consigo esquecer
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27 - Quando as fantasias dançavam no teto do meu quarto
Quando as fantasias dançavam no teto do meu quarto, as palavras tinham valor, eram a única coisa que eu tinha Quando as fantasias dançavam no teto do meu quarto, o mundo era grande e minha vida era pequena, a realidade era feita de suposições, os meus casos de amor eram inventados e as minhas amizades eram hipóteses Quando as fantasias dançavam no teto do meu quarto, ficava o tempo todo olhando para cima e não me olhava no espelho, eu pensava bem de mim Quando as fantasias dançavam no teto do meu quarto, eu era mais alegre, apesar de ser apenas um fantasma que não foi ejaculado Quando eu tinha um quarto, casa e comida, nada que era meramente material tinha valor Hoje pernoitado em muitos quartos, abraçado com estranhos, descobri que não sou nem um quarto do que eu queria ser Quantos quartos eu deixei, para nunca a mais voltar, quantos quartos de mim ficaram por aí, um quebra-cabeça a se desmantelar Hoje os meus olhos vagam pelo teto, cabisbaixos e com as mãos nos bolsos, à procura de um par
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26 - Fábrica de traumas
Está cega e não me ouve; está surda e não vê; suas palavras, como soam severas Ela fala, sou todo ouvidos; eu falo, ela é todos ecos da própria voz Não sei se ela é o meu amor ou meu algoz, um colo acalentador ou uma armadilha atroz, uma mulher que me acaricia ou que me arranha feroz Tem dias que eu desejo ser imune, nunca mais amar, pois o amor é uma fábrica de traumas é uma emoção que nos faz idiotas e nos pune soterrando as nossas almas, e nos sufocando até não termos mais ar
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25 - Amor com toques amargos
Você me toca doce e eu perco o controle; você me fala azedo e no meu peito se faz um destrambolhe; mas não me descomponho, você insiste, palavras acres por lábios ocres; com deboche rebato, com afeto reinvisto, com meu jeito te reconquisto; eu me deságuo, você se inunda; mão na nuca mão na bunda, mãos e línguas por todos os lugares; meu espezinhar é uma arapuca, tu negas, mas sempre serei mais do que desejares; esquece-te daquilo que sonhares, nós só sonhamos amores perfeitos, outras pessoas com os nossos jeitos, não conseguimos imaginar o contraste, um amor de brigas e sexo selvagem, a gente não sabe do que gosta, tem que descobrir e eu me descubro em ti todos os dias, você é o meu mundo sem mapa, meu livro sem capa, uma vida muito além do meu querer
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24 - Rajah
Deitado no colchão exposto pelo piso gelado observo o caminhar das baratas e já não me levanto num ímpeto assassínio, continuo deitado e as olho com fascínio, admirando a rendição do meu espírito sociopata; a verdade é que eu nunca quis ser diplomata, o meu lugar é aqui com as baratas, onde não me alcança a vaidade de querer mudar o mundo, mas continuo tendo aquele sonho em que eu acordo em Islamabad, as pessoas me falam em língua urdu e eu respondo em francês; não tem aquele tom lúdico de sonho, parece um resquício de sensatez, um pedido que perdeu a vez, o último eco de um clamor, não, eu não vou poder ajudar vocês Uma barata se esconde atrás do armário; eu lembro daquele orgasmo insano, o único instante em que eu a tive lucidez de genuinamente desejar a paz mundial; a loucura é um rebento, um sopro contra o vento que nos permite ver a pureza das coisas
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23 - Resignação
Às vezes parece que tudo vai virar poesia, que a inspiração se esconde em cada esquina, que cada nuvem andeja no céu veleja pela força de compor um verso, quem sabe até uma estrofe; o poeta sofre com papel e caneta à mão, craveja na folha a mais fustigante aflição e costura a ferida no corpo do lírico eu que já não é mais seu Às vezes parece que tudo vai virar poesia, mas a vida é feita de tédio, com intervalos de emoção; às vezes parece que toda rima vai virar poema, que todo riso vai virar cena de livro e depois de filme no cinema, às vezes parece que não haverá dilema, que não importa o tamanho do problema, que não pesará a mágoa ou qualquer outra coisa que chateia; longe da escória, cidadão livre e cada sua estória, mesmo que feia, vai virar letra bonita; mas de fastio fez-se a vida, a trilha se entrava, a mente trava e tudo vira palavra não dita, frase encardida, ferrugem de memória que para nada serve; mas enquanto as palavras não faltam, a percepção não se perde, a memoração não falha, e as estórias não deixam de acontecer, sigo poeta, de papel e caneta até o amanhecer, as letras correm o papel apressadas e nem veem a lua desaparecer, os dias devoram a vida, o tédio devora as horas, e as horas vão nos comendo minuto a minuto sem percebermos, mas hoje não, não neste dia, nesta madrugada, ela ficará, e mesmo quando eu me for, ela ainda estará aqui, será um clarão no escuro, enquanto houver alguém para conhecê-la, com os olhos, com os ouvidos, no seu sentimento perpassar o momento mais duro, a resignação de que a maior parte da vida é antoja, presencialidade de sentido vazia, à transcendência é um ataque, um verdadeiro baque, saber que nem tudo vai virar poesia
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22 - A crueza que cabe
Cabelos desgrenhados, lençóis e fronhas desconjecturados, o cheiro de corpos suados, mesclados com látex e lubrificante; queria que o sexo fosse mais poético, mas na falta do edificante, escrevo a crueza que cabe no papel: a irretirável pregnância do sêmen que gera fetos, gruda na pela, mancha os tecidos e empesteia o ar; a hipocrisia que nos propicia os hormônios, de noite casal, de manhã dois estranhos que querem se livrar um do outro, a nudez compartilhada, vira nu vergonhoso, na destransparência dos lençóis se esconde o corpo a quem se o deu; são os efeitos da intimidade migrante que permeia o sexo ocasional; dois desconhecidos que se cumprimentam pelos genitais; fossem mais que um o reflexo do desejo do outro, necessidades rebatidas, saciadas ou insaciáveis vontades carnais, seriam fontes de calor que não se apagariam jamais
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21 - Primeira noite no Rio
Liberto-me dum sono claustrofóbico, sentindo as gotas de suor que secam num colchão velho, ao fundo, o bafo sonoro de sons distorcidos, é o ritmo da favela que arde, o alarde duma solidão coletiva, de quem celebra a modo pagão um feriado cristão; nem tão bem, nem tão mal, abandonei uma rodoviária para ouvir fogos na noite de natal; são os retrocessos da evolução urbana e pessoal na favela do Pavão ou no Vidigal Com a cabeça pesada desço as escadas do beliche e me rebato sonolento pelas paredes do meu cubículo, na cozinha mato a sede duma noite de calor, na sala contemplo o esplendor, duma tela de muitos matizes e pouca cor, o morro é feito de mata, reboco, janelas e lâmpadas, luzes que alugam brilho à escuridão matutina, constelação de formiguinhas lampejantes, a amanhecer becos e vielas, a mística noturna de todas as favelas
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20 - Umbral do pretérito
Andando pelas ruas de um passado que não me pertence mais, notei a desimportância de tudo aquilo que deixei para trás, uma concatenação de histórias poluía a minha cabeça sofrimentos sem sentido dispostos numa cadeia, como o amargo de se ressentir por não aproveitar um dia bonito numa cidade feia, mas naquele tempo ainda me faltavam algumas peças para fechar o quebra-cabeça, eu não podia saber, mas para que eu nunca me esqueça, quando ando por essas vielas presto muita atenção, desapego do visco das feias e me orgulho da rejeição das belas, pois ao menos coragem pude ter e mostrei o meu tesão Não são os fantasmas do passado que me assombram, é como se eu fosse um fantasma do presente, um vivo a caminhar no mundo dos mortos, os conhecidos me olham com espanto e os desconhecidos me dão olhares sem encanto, são narcisistas de rostos tortos, gente que está na miséria e nem sente, vidas inócuas que se alambram Eu queria não ter mais que voltar, abandonar de vez esse emaranhado de faltas e cumplicidades, viver uma vida só de sonhos e vantagens, queria demais poder carregar todas as doçuras dessa terra para longe dessa gente que não se consterna, para morarem junto de mim, perto do mar
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